A redução do nível da água de um reservatório no Sítio Carneirinho, na zona rural de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, revelou um acervo pré-histórico formado por fósseis de grandes mamíferos e pinturas rupestres. Entre os vestígios encontrados estão fragmentos de preguiças-gigantes, tatus-gigantes e mastodontes, animais que habitaram a região durante o Pleistoceno.
Os primeiros fósseis começaram a aparecer em 2013, depois de um longo período de estiagem. O agricultor José Carlos decidiu retirar pedras do reservatório seco, localizado a cerca de 40 quilômetros do centro de Caruaru, quando encontrou estruturas que pareciam rochas, mas acabaram identificadas como ossadas fossilizadas de grandes proporções.
Segundo José Carlos, uma das primeiras peças encontradas foi o crânio de um animal de grande porte. Diante do tamanho do material, ele procurou pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que passaram a trabalhar na preservação dos achados.
Fósseis ajudam a reconstruir fauna que viveu na região
Os animais identificados no sítio viveram durante o Pleistoceno, período geológico iniciado há cerca de 2,6 milhões de anos e encerrado aproximadamente 11,7 mil anos atrás. Foi nessa época que grandes mamíferos ocuparam diferentes regiões do planeta.
Entre os animais que integravam essa megafauna estavam preguiças-gigantes, tatus de grandes proporções, mastodontes, toxodontes e predadores como o tigre-dente-de-sabre.
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Reservatório era ponto de encontro de animais
Pesquisadores apontam que o reservatório natural formado entre as rochas funcionava como uma espécie de bebedouro para os animais pré-históricos. A disponibilidade de água fazia com que diferentes espécies se concentrassem no mesmo ponto.
Essa dinâmica ajuda a explicar a grande quantidade de fósseis no local. Animais se aproximavam para beber água, enquanto predadores eram atraídos pela concentração de presas. Com o tempo, carcaças de animais mortos nas margens podiam deslizar para as partes mais profundas do reservatório e permanecer preservadas.
Dentes preservados revelam sinais de fome
Os fósseis também guardam pistas sobre as condições enfrentadas pelos animais. Análises realizadas em dentes encontrados no Sítio Carneirinho identificaram falhas e pequenos furos associados à hipoplasia do esmalte.
Essa alteração pode ocorrer durante períodos de estresse nutricional e, segundo os pesquisadores, indica que os animais enfrentaram momentos de escassez de alimento.
O biólogo Alexandre Nunes também destacou características dos fragmentos encontrados, como espessura, peso e a estrutura porosa no interior dos ossos, elementos que auxiliam na identificação e no estudo dos animais que viveram na região.
Pinturas indicam presença humana há cerca de 10 mil anos
O valor arqueológico do Sítio Carneirinho vai além dos fósseis da megafauna. As formações rochosas também preservam pinturas rupestres associadas à presença humana na região há aproximadamente 10 mil anos.
A coexistência, no mesmo sítio, de vestígios paleontológicos e registros arqueológicos amplia a importância científica da área e pode ajudar pesquisadores a compreender as transformações ambientais e a ocupação humana no Agreste pernambucano ao longo de milhares de anos.
Especialistas defendem preservação dos achados
Depois das primeiras descobertas, as escavações foram interrompidas para reduzir o risco de danos provocados pela exposição das peças. Com a volta das chuvas nos anos seguintes, a água voltou a cobrir parte das ossadas existentes no reservatório.
Pesquisadores defendem que qualquer nova retirada de material seja realizada com acompanhamento especializado. O coordenador do Laboratório de Antropologia e Arqueologia da UFPE, Sandro Guimarães de Sales, alertou que intervenções sem orientação técnica podem comprometer informações essenciais para o estudo científico dos vestígios.
“Vale fazer uma advertência às pessoas que, porventura, encontrem ossada semelhante, que procurem a Universidade Federal de Pernambuco, porque esse material tem uma relevância científica incalculável.”
Alexandre Nunes também defende estudos mais aprofundados e a criação de um espaço para exposição do material. A proposta permitiria preservar parte da história natural da região e, ao mesmo tempo, utilizar os achados em atividades de educação e turismo científico.