Carlos Ghosn construiu uma das trajetórias mais conhecidas da indústria automobilística mundial. Nascido no Brasil, filho de libaneses, o executivo iniciou a carreira na Michelin, passou pela América do Sul e pelos Estados Unidos e chegou à Renault em 1996. Três anos depois, foi enviado ao Japão para conduzir a recuperação da Nissan, então mergulhada em uma grave crise financeira.
O executivo conseguiu recuperar a montadora e se tornou uma das figuras mais influentes do setor automotivo. Em 2005, passou a comandar simultaneamente Renault e Nissan e, posteriormente, também assumiu a presidência da Mitsubishi Motors. A carreira, porém, terminou abruptamente em 2018, quando Ghosn foi preso no Japão sob acusações de irregularidades financeiras que ele nega. Em dezembro de 2019, enquanto aguardava julgamento, deixou o país escondido em uma caixa transportada em um jato particular e chegou ao Líbano.
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Do Brasil ao comando da indústria mundial
Ghosn nasceu em 1954, em Porto Velho, Rondônia, e passou parte da infância no Líbano antes de seguir para a França, onde estudou engenharia na École Polytechnique e na École des Mines de Paris. Em 1978, iniciou sua carreira na Michelin.
Na fabricante de pneus, ocupou diferentes posições e, em 1985, assumiu a operação sul-americana. A região atravessava um período de forte instabilidade econômica, especialmente no Brasil, e Ghosn participou da reorganização das atividades da companhia. Em 1989, mudou-se para os Estados Unidos e chegou à presidência da Michelin North America.
O passo decisivo aconteceu em 1996, quando Ghosn foi contratado pela Renault como vice-presidente executivo. Na montadora francesa, passou por áreas como compras, engenharia, desenvolvimento, manufatura e operações do Mercosul.
A missão de recuperar a Nissan
Em 1999, a Renault adquiriu uma participação na Nissan, que enfrentava uma crise financeira profunda. Ghosn foi enviado ao Japão para liderar o processo de recuperação da companhia e apresentou um plano baseado em redução de custos, reorganização das operações e mudanças na estrutura administrativa.
O programa incluiu fechamento de fábricas, redução da base de fornecedores e cortes de despesas. O executivo ganhou no Japão o apelido de “Cost Killer” e passou a ser associado à recuperação da montadora, que voltou a registrar resultados positivos durante a execução do plano.
A transformação fez de Ghosn uma figura de grande notoriedade no Japão. Sua trajetória chegou a ser transformada em mangá, enquanto a recuperação da Nissan consolidava sua reputação internacional como executivo especializado em reestruturações.
Renault e Nissan sob o mesmo comando
Em 2001, Ghosn tornou-se CEO da Nissan. Quatro anos depois, assumiu também o comando da Renault, passando a dirigir simultaneamente as duas montadoras. A estrutura ampliou sua influência dentro da aliança formada entre as empresas.
Em 2016, a Nissan adquiriu uma participação de 34% na Mitsubishi Motors, e Ghosn assumiu a presidência da companhia. A aliança passou a reunir três grandes fabricantes, enquanto o executivo concentrava funções de liderança nas empresas.
A concentração de poder também se tornou um dos elementos centrais das discussões que surgiram posteriormente dentro da Nissan. Após a prisão de Ghosn, executivos da montadora japonesa afirmaram que a estrutura de comando havia acumulado poder excessivo nas mãos do presidente.
Prisão no Japão e acusações financeiras
Em novembro de 2018, Ghosn foi preso em Tóquio. Os promotores japoneses o acusaram de subdeclarar sua remuneração e de utilizar recursos da Nissan de maneira irregular. Posteriormente, outras acusações relacionadas a abuso de confiança e suposta apropriação de recursos corporativos foram apresentadas.
Ghosn negou as acusações e afirmou que era vítima de uma conspiração envolvendo executivos da Nissan e autoridades japonesas. A defesa também criticou as condições de sua detenção e o sistema judicial do país. As autoridades japonesas rejeitaram a alegação de que a prisão tivesse sido resultado de uma conspiração.
Depois de períodos de detenção, Ghosn conseguiu liberdade sob fiança, mas ficou submetido a restrições determinadas pela Justiça japonesa. Entre elas estavam limitações de deslocamento e regras sobre comunicação enquanto aguardava o julgamento.
A fuga escondido em uma caixa
Em dezembro de 2019, Ghosn deixou sua residência em Tóquio e seguiu para Osaka. A operação de fuga contou com Michael Taylor, ex-integrante das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos, e seu filho Peter Taylor.
O executivo foi colocado dentro de uma grande caixa usada para transportar equipamentos musicais. O compartimento foi levado ao aeroporto e embarcado como carga em um jato particular. O avião deixou o Japão e fez escala na Turquia antes de Ghosn seguir para Beirute, no Líbano.
Ghosn estava em liberdade sob fiança e aguardava julgamento quando fugiu. Michael e Peter Taylor foram posteriormente presos nos Estados Unidos e extraditados para o Japão, onde responderam pelos crimes relacionados à operação.
Por que Ghosn permaneceu no Líbano
Ghosn possui cidadanias brasileira, francesa e libanesa. Depois de chegar a Beirute, permaneceu no Líbano e não retornou ao Japão. Uma notificação vermelha da Interpol emitida a pedido das autoridades japonesas continua associada ao caso.
Desde a fuga, Ghosn passou a viver no Líbano e a participar de entrevistas e eventos relacionados a negócios e liderança. Em junho de 2026, voltou ao noticiário internacional depois que seu nome apareceu em uma proposta apresentada por um acionista da Nissan para que retornasse à companhia.
A proposta não foi aprovada pelos acionistas. Na reunião anual da Nissan, a maioria manteve o conselho de administração, enquanto a empresa afirmou que continuava executando seu plano de recuperação.
O caso também chegou à Justiça francesa
As questões judiciais envolvendo Ghosn também chegaram à França. O executivo foi incluído em um processo relacionado a pagamentos de consultoria feitos à ex-ministra francesa Rachida Dati por uma entidade ligada à aliança Renault-Nissan.
Em julho de 2025, a Justiça francesa determinou que Ghosn e Dati deveriam ser julgados por acusações relacionadas a corrupção e abuso de poder. Os dois negam irregularidades.
O julgamento começou em Paris em 16 de setembro de 2026 e tem previsão de término em 28 de setembro. Ghosn não compareceu ao tribunal e pode ser julgado à revelia. Ele afirma que não foi regularmente convocado para a audiência e permanece no Líbano.
O processo francês envolve, entre outros pontos, a relação contratual entre Dati e Ghosn entre 2009 e 2013. O caso ainda está em julgamento e não representa uma condenação contra o ex-executivo.
Renault e Nissan depois de Ghosn
A saída de Ghosn abriu uma nova fase na relação entre Renault e Nissan. A aliança passou por mudanças de governança e sucessivas trocas de comando, enquanto as duas empresas buscaram redefinir a distribuição de poder e a cooperação industrial.
A Nissan também enfrentou novos períodos de dificuldades financeiras e operacionais. Em 2026, o nome de Ghosn voltou a aparecer em uma assembleia de acionistas depois que um investidor propôs seu retorno à empresa. A proposta foi rejeitada, e o conselho atual permaneceu no comando.
Em entrevista à Reuters em junho de 2026, Ghosn afirmou que o apoio à proposta refletia a insatisfação de acionistas com os resultados da Nissan nos anos posteriores à sua saída. A companhia, por outro lado, declarou que não comentaria declarações especulativas e afirmou estar avançando gradualmente em seu plano de recuperação.
Onde Carlos Ghosn está hoje?
Carlos Ghosn vive em Beirute, no Líbano, onde permanece desde a fuga do Japão em dezembro de 2019. Em setembro de 2026, ele também é réu ausente em um processo na França relacionado a acusações de corrupção, tráfico de influência, abuso de confiança e abuso de poder. Ghosn nega as acusações.
A trajetória que começou na Michelin e passou pelo comando de Renault, Nissan e Mitsubishi terminou, portanto, em uma situação jurídica internacional ainda aberta. No Japão, Ghosn continua fora do alcance das autoridades após a fuga de 2019; na França, o julgamento iniciado em setembro de 2026 ainda está em andamento.
Enquanto isso, Ghosn continua se apresentando publicamente como empresário e comentarista do setor automotivo. Em 2026, voltou a falar sobre a Nissan e chegou a defender publicamente a possibilidade de retornar à empresa, embora os acionistas tenham mantido a atual administração.
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