O candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) afirmou nesta quarta-feira (30) que foi procurado por integrantes dos dois campos políticos, tanto da esquerda quanto da direita, para que desistisse da candidatura. Segundo o presidenciável, os contatos partiram do “mais alto nível” da política, mas ele não revelou os nomes dos interlocutores nem deu detalhes sobre as conversas.
A declaração ocorreu após a gravação de um podcast, em São Paulo, durante uma agenda de campanha. Questionado sobre as articulações envolvendo outros candidatos, Cury foi perguntado se também havia recebido ligações para abandonar a disputa. A resposta foi afirmativa.
“Todos os lados estão nos procurando”, afirmou.
Segundo Cury, sua resposta às abordagens foi manter a candidatura.
“Nós vamos estar no segundo turno e não vamos apoiar ninguém. Nós queremos que eles façam voto útil para conosco”, declarou.
A fala acontece a poucos dias do primeiro turno, em um cenário de forte concentração de votos em Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Na pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira, Lula aparece com 39,4% das intenções de voto, contra 38,4% de Flávio, em empate técnico. Cury tem 6,7%.
No segundo turno entre Lula e Flávio, o levantamento também aponta empate técnico: 48,5% para o petista e 48% para o candidato do PL. Em uma simulação entre Lula e Cury, o petista aparece com 48%, contra 44% do candidato do Avante.
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Cury contesta pesquisas e aposta na “terceira via”
Apesar de aparecer abaixo dos dois líderes nos principais levantamentos, Cury afirmou que pesquisas feitas nos bastidores apontariam um cenário diferente. Ele disse que sua campanha praticamente não realizou pesquisas próprias, mas que teve acesso a levantamentos que, segundo ele, mostrariam desempenho superior ao registrado nas sondagens divulgadas.
O candidato também afirmou que existem pesquisas não registradas no TSE e feitas pela internet que o colocariam à frente de Lula e Flávio em determinados cenários. Cury não apresentou esses levantamentos nem informou quais institutos teriam realizado as pesquisas.
A partir desse argumento, o presidenciável voltou a defender o chamado “voto útil” em sua candidatura. Cury afirmou que Lula e Flávio tentariam convencer o eleitor de que não existe uma alternativa aos dois grupos e disse ser a terceira via capaz de chegar ao segundo turno.
Ele também atacou os dois principais adversários. Disse que Lula representa um modelo econômico que considera ultrapassado e acusou Flávio de estar associado a uma “indústria de escândalos”, em referência às notícias recentes envolvendo o candidato do PL.
Economia e endividamento das famílias
Questionado sobre o endividamento das famílias, Cury defendeu redução dos gastos públicos e queda dos juros como principais instrumentos para melhorar a situação econômica.
Segundo ele, um governo “menos gastador” e com maior controle fiscal poderia levar a taxa Selic para a faixa de 7% a 8% em um ano. Cury afirmou ainda que cada ponto percentual de redução da Selic representaria, na sua avaliação, uma economia de cerca de R$ 100 bilhões para o governo na rolagem da dívida federal.
O candidato também criticou o reajuste de 15,04% do Bolsa Família anunciado pelo governo Lula em setembro. O aumento elevou o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 e começará a ser pago em outubro.
Para Cury, a medida foi anunciada próximo da eleição com objetivo eleitoral. Essa é uma avaliação do candidato. O governo, por sua vez, afirma que o reajuste recompõe a inflação acumulada desde a reformulação do programa e que a medida está dentro das regras fiscais e eleitorais.
Cury também criticou o que chamou de “rentismo” e afirmou que os juros elevados favorecem quem investe no mercado financeiro em detrimento da produção.
Educação como uma das principais bandeiras
A educação também apareceu entre os principais pontos apresentados pelo candidato. Cury criticou o desempenho brasileiro no PISA e afirmou que o país vive uma situação “gravíssima” no ensino de matemática, línguas e ciências.
Os dados mais recentes do PISA mostram que os estudantes brasileiros continuam abaixo da média dos países da OCDE nas três áreas avaliadas. A edição de 2025 também apontou que os resultados médios do Brasil ficaram praticamente estáveis em relação a 2022.
Cury defendeu uma mudança no modelo de ensino, com menos foco na simples transmissão de conteúdo e mais espaço para debate, pensamento crítico e formulação de perguntas pelos estudantes.
O candidato também citou a necessidade de atenção aos alunos neurodivergentes, como autistas e disléxicos, e afirmou que o sistema educacional deveria estimular a participação desses estudantes.
Estratégia para a reta final
Para os últimos dias de campanha, Cury disse que pretende concentrar sua comunicação na ideia de que não depende da política para viver e que, por isso, poderia governar sem estar preso à manutenção do poder.
Ele afirmou que pretende doar o próprio salário para duas microempresas por mês destinadas a alunos de escolas públicas caso seja eleito.
Outro ponto destacado foi a defesa da pacificação política. Cury citou nomes de diferentes campos ideológicos, como Eduardo Suplicy e José Múcio, à esquerda, e Damares Alves e Michelle Bolsonaro, à direita, como exemplos de pessoas que considera respeitáveis.
O candidato também voltou a defender o fim da reeleição para cargos do Executivo. Segundo ele, a possibilidade de permanecer no poder favorece o populismo e transforma líderes políticos em protagonistas, quando, na avaliação dele, o protagonismo deveria ser da sociedade.
Ao final, Cury afirmou que não pretende apoiar Lula ou Flávio Bolsonaro caso fique fora do segundo turno.
“Nem um e nem outro”, disse.