Beneficiários do Bolsa Família responderam por 85,18% do saldo de empregos formais criado no Brasil entre janeiro de 2023 e julho de 2026, segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV). Dos 5,38 milhões de postos líquidos abertos no período, 4,58 milhões foram ocupados por trabalhadores de famílias vinculadas ao programa.
O estudo, elaborado pelos economistas Valdemar Pinho Neto e Luiz Gustavo Barbosa, cruza informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) com registros do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico). Os resultados mostram forte participação da população de baixa renda na expansão recente do emprego formal.
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Beneficiários respondem por 4,58 milhões de vagas
O levantamento considera o saldo de empregos, ou seja, a diferença entre admissões e desligamentos registrados no período.
Entre todos os trabalhadores inscritos no CadÚnico, o saldo positivo chegou a 5,84 milhões de postos. Já entre pessoas que estavam fora do cadastro, houve saldo negativo de aproximadamente 460,6 mil vagas.
Os números não significam que o Bolsa Família tenha criado diretamente 85% dos empregos do país. O levantamento mostra que trabalhadores pertencentes a famílias beneficiárias responderam por essa parcela do saldo líquido de vagas no período analisado.
Para os pesquisadores, os resultados também ajudam a avaliar a ideia de que programas de transferência de renda afastariam beneficiários do mercado formal.
“Uma crítica de que as pessoas beneficiadas não querem trabalhar não é válida quando se olha para os números.”
A avaliação é de Valdemar Pinho Neto, um dos responsáveis pelo estudo.
Jovens concentram maior parcela do saldo
O levantamento também traçou o perfil dos trabalhadores beneficiários que passaram a ocupar empregos formais.
Pessoas entre 18 e 29 anos responderam por 59% do saldo de vagas entre os beneficiários. Pretos e pardos representaram mais de 71%, enquanto trabalhadores com ensino médio completo corresponderam a 78,2%.
As mulheres ficaram com 55,4% do saldo de empregos associado aos beneficiários do Bolsa Família, contra 44,6% dos homens.
Para Pinho Neto, a participação feminina chama atenção diante das diferenças historicamente observadas no acesso de homens e mulheres ao mercado de trabalho.
“Se levar em consideração que no Brasil existe uma questão de desigualdade de gênero no acesso ao mercado de trabalho, a expectativa, a princípio, deveria ser oposta do que está aqui.”
Regra permite conciliar emprego e benefício
Uma das características do Bolsa Família é a existência de mecanismos para evitar que a obtenção de renda provoque a retirada imediata da família do programa.
A chamada Regra de Proteção permite que determinadas famílias permaneçam temporariamente recebendo parte do benefício quando a renda por pessoa ultrapassa o limite de entrada no programa, desde que sejam respeitados os critérios estabelecidos pelo governo federal.
As regras passaram por alterações em 2025. Para famílias que entraram na Regra de Proteção a partir de julho daquele ano, o período e o limite de renda variam conforme a origem dos rendimentos e a situação do beneficiário.
O mecanismo busca proporcionar uma transição entre o recebimento integral do benefício e a obtenção de renda por trabalho, sem que a família perca imediatamente toda a transferência caso consiga uma vaga.
CadÚnico concentra saldo positivo
O estudo também encontrou diferenças entre trabalhadores cadastrados e não cadastrados no CadÚnico.
Enquanto o grupo inscrito no cadastro acumulou saldo positivo de 5,84 milhões de postos, os trabalhadores fora dele registraram aproximadamente 58,5 milhões de admissões e 58,9 milhões de desligamentos, resultando em saldo negativo no período.
O resultado, porém, não permite concluir isoladamente que estar no CadÚnico seja a causa da maior geração de empregos. Diferenças de idade, renda, rotatividade e perfil ocupacional também podem influenciar os números.
O CadÚnico reúne informações socioeconômicas utilizadas pelo governo para identificar famílias de baixa renda e selecionar beneficiários de diferentes políticas públicas.
Estudo contraria ideia de abandono do mercado de trabalho
Os dados apresentados pelos pesquisadores fornecem evidências contra a hipótese de que o recebimento do Bolsa Família esteja associado a uma saída generalizada de seus beneficiários do emprego formal.
Ao contrário, trabalhadores vinculados ao programa tiveram participação majoritária no saldo positivo de empregos registrado desde 2023.
O levantamento não permite afirmar que o Bolsa Família, isoladamente, seja responsável pela criação dessas vagas. A geração de empregos depende de fatores como crescimento econômico, demanda das empresas, investimentos e condições do mercado de trabalho.
Os resultados mostram, entretanto, que milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias ingressaram ou permaneceram no mercado formal durante um período de expansão do emprego no país.