Hernanes voltou a falar sobre futebol e fez críticas ao modelo de formação de jogadores no Brasil. Para o ex-meia, a evolução tática e física do esporte trouxe ganhos, mas também reduziu o espaço para atletas criativos, capazes de improvisar e tomar decisões próprias dentro de campo.
Em entrevista ao ge, o ex-jogador afirmou que o futebol brasileiro está formando atletas que entendem cada vez mais de posicionamento e organização, mas que têm menos contato com a bola e, consequentemente, desenvolvem menos algumas características técnicas que marcaram gerações anteriores.

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Hernanes critica formação dos jogadores
Na avaliação de Hernanes, uma das mudanças mais importantes aconteceu na infância. Segundo ele, a redução da presença do futsal e das brincadeiras de rua na formação dos atletas prejudicou o desenvolvimento da criatividade e da intimidade com a bola.
“Hoje vejo um futebol em que os caras sabem jogar futebol porque o conhecimento tático e técnico está muito mais à mostra e acessível, só que eles estão sabendo jogar menos bola. Eles sabem jogar futebol, mas não sabem jogar bola”, afirmou.
Para o ex-meia, o futsal contribui para que a criança tenha contato constante com a bola, precise tomar decisões rápidas e aprenda a encontrar soluções em espaços reduzidos.
“Indústria do futebol” também é criticada
Hernanes também questionou o processo cada vez mais profissionalizado de formação de atletas. Segundo ele, a transformação do futebol em uma indústria fez com que clubes passassem a buscar jogadores fisicamente preparados cada vez mais cedo.
“Porque desde que o futebol se transformou em business, perdeu um pouco do processo mais natural do desenvolvimento do jogador. Quando entra o business, quando entra a indústria… Vamos pegar o exemplo do frango: tem o frango caipira e o frango de granja feito para abater”, disse.

Na visão do ex-jogador, essa lógica pode prejudicar atletas que ainda estão em fase de desenvolvimento e que precisam de mais tempo para amadurecer física e tecnicamente.
“Não tem espaço para o transgressor”
Hernanes afirmou que a tecnologia também mudou a relação dos jogadores com os treinamentos. Segundo ele, ferramentas como GPS e equipamentos de monitoramento tornaram mais difícil para o atleta fugir do controle estabelecido pelos clubes.
“Hoje o futebol não dá espaço para o craque em todos os sentidos. Porque o craque geralmente é o transgressor, é o cara que dá o ‘migué’. Ele não treinava com disciplina 100%, ele dava sempre o jeitinho. Só que hoje tem GPS, tem as máquinas que controlam o quanto de força você está colocando, hoje não tem como dar ‘migué’, não tem espaço mais para o craque, não tem espaço mais para o transgressor. Ou você treina ou você não treina.”
O ex-meia fez uma ressalva, porém, ao citar jogadores como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo como exemplos de atletas que combinaram talento e disciplina durante longos períodos da carreira.
Hernanes fala sobre Neymar
Durante a entrevista, Hernanes também analisou a trajetória de Neymar. Para ele, o atacante alcançou um nível compatível com o talento que demonstrou ao longo da carreira, embora não tenha mantido por tanto tempo o desempenho que o ex-meia esperava.
“Eu acho que ele atingiu, na verdade. Talvez não com a durabilidade que a gente espera. Esse é o ponto, a chave de leitura é essa.”
Hernanes também afirmou que levaria Neymar para a última Copa do Mundo caso o jogador estivesse em condições físicas para participar.
Ex-meia aponta carência de grandes jogadores na Seleção
Ao falar sobre a Seleção Brasileira, Hernanes afirmou que o país ainda possui bons jogadores, mas considera que a equipe precisa de atletas capazes de decidir partidas em diferentes posições.
“Nós temos bons jogadores, mas para a seleção brasileira apenas bons jogadores não bastam: é preciso ter grandes jogadores, craques não só no ataque.”
Hernanes também avaliou que a Seleção precisa encontrar um modelo de jogo compatível com as características dos jogadores disponíveis, em vez de tentar reproduzir sistemas utilizados por outras equipes.
Ex-jogador não descarta trabalho como treinador
Depois de um período dedicado a negócios na Itália, Hernanes afirmou que está retomando atividades ligadas ao futebol. Ele já concluiu cursos de formação para treinadores e atualmente trabalha com categorias de base na Itália.
O ex-meia também desenvolveu um método próprio para formação de jogadores e estuda possibilidades de atuar como treinador ou agente de atletas.
Hernanes fala sobre o São Paulo
Identificado com o São Paulo, clube pelo qual conquistou dois títulos do Campeonato Brasileiro, Hernanes também comentou a situação atual da equipe. Ele afirmou ter percebido avanços na organização do clube durante uma visita ao centro de treinamento, mas considera que ainda existem problemas estruturais importantes.
Apesar da relação com o clube, o ex-jogador afirmou que não pensa em retornar ao Brasil neste momento.
“É muita desordem, muita coisa que não me inspira a querer voltar. Ainda que tenha uma torcida grande, uma esperança grande de querer estar pronto para ajudar o São Paulo em alguma coisa. Mas voltar ao Brasil agora eu não penso nisso.”
Próximos passos
Hernanes pretende continuar desenvolvendo seu método de formação e avaliar os caminhos que seguirá no futebol. Entre as possibilidades estão o trabalho como treinador e a atuação como agente de jogadores.