Maestro Roberto Tibiriçá morre aos 72 anos e emociona Brasil

O legado do maestro Roberto Tibiriçá marcou profundamente a cena musical brasileira e emociona fãs em todo o país.
Redação NC News
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O maestro Roberto Tibiriçá, um dos nomes centrais da música clássica brasileira, morre na madrugada deste sábado, em São Paulo, aos 72 anos, vítima de câncer. Regente titular e diretor musical da Orquestra Sinfônica do Paraná desde 2022, ele estava internado na capital paulista.

O corpo é velado neste fim de semana no Theatro Municipal de São Paulo, em cerimônia aberta ao público. O sepultamento está previsto para domingo, no Cemitério São Paulo, em Pinheiros, e reúne familiares, amigos, músicos e admiradores.

Velório aberto e luto nas instituições de música

A morte de Tibiriçá provoca reação imediata de orquestras e casas de espetáculo em todo o país. A Orquestra Sinfônica do Paraná, o Teatro Guaíra e a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira manifestam pesar público e destacam o papel do maestro na consolidação de projetos artísticos e educacionais.

O diretor-presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra, Cleverson Cavalheiro, resume o clima de comoção entre os músicos. “Perdemos um grande maestro, mas seu legado permanecerá vivo em cada músico, em cada concerto e em cada pessoa que foi tocada por sua música”, afirma.

No Rio de Janeiro, a Sala Cecília Meireles divulga nota de homenagem e lembra a importância da relação construída com o regente. “A Sala Cecília Meireles lamenta profundamente a partida do maestro Roberto Tibiriçá (1954–2026), que deixa um importante legado para a música brasileira (…) marcou o início da nossa atual gestão e permanece como uma lembrança especial”, registra a instituição, ao destacar sua última apresentação naquele palco, em março de 2023, à frente da Orquestra Petrobras Sinfônica.

Trajetória de palco em palco, do piano à regência

Nascido em São Paulo, Tibiriçá entra no universo erudito ainda criança, aos 8 anos, como pianista. A formação se aprofunda com os estudos de regência ao lado de Eleazar de Carvalho, com quem trabalha por 18 anos na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, experiência que molda sua maneira de conduzir e de formar músicos.

Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, ele passa por algumas das principais orquestras do país e do exterior. Em Lisboa, atua como regente assistente no Teatro Nacional de São Carlos entre 1984 e 1985. No Brasil, está à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira, da Orquestra Sinfônica Petrobrás Pró-Música, da Sinfônica Heliópolis, além das sinfônicas de Campinas, São Bernardo do Campo e Minas Gerais, esta última entre 2010 e 2013.

No fim dos anos 1980, em São Paulo, funda a Orquestra Nova Filarmonia, com a qual acompanha grandes solistas, entre eles o tenor italiano Luciano Pavarotti. Em 1995, é eleito Músico do Ano pela crítica do Rio de Janeiro e recebe o Prêmio Estácio de Sá pelo trabalho com a Orquestra Sinfônica Brasileira.

Pioneirismo em gravações e megaeventos ao ar livre

Desde 1974, Tibiriçá acumula a regência de palco com a função de diretor artístico em gravadoras brasileiras. Ganha destaque como um dos pioneiros da produção fonográfica clássica no país, assinando, entre outros projetos, o único LP gravado no Brasil pela pianista Guiomar Novaes, com repertório exclusivamente nacional, registrado no Museu de Arte de São Paulo.

Também se torna figura-chave em grandes eventos de música ao ar livre. Participa de diversas edições do Projeto Aquarius e rege, em 1997, a Missa Campal celebrada pelo papa João Paulo II no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, diante de um público estimado em 2 milhões de pessoas. A cena consolida sua imagem de maestro capaz de dialogar com multidões sem abrir mão da qualidade artística.

Nos últimos anos, volta ao Aquarius em apresentações que aproximam a música sinfônica de artistas populares. Em 2024, ao preparar um concerto com a Orquestra Sinfônica Brasileira e as cantoras Adriana Calcanhotto e Luedji Luna, ele define a proposta. “Essa mistura é muito bem-vinda e importante para a formação de novos públicos. São duas cantoras extraordinárias, com timbres e estilos bem próprios”, diz. “Mais para o fim do mês devemos ter um ensaio com elas, já estamos ansiosos por este contato, poder trocar com elas.”

Professor, acadêmico e articulador de repertórios

Além da atividade em palcos e gravações, Tibiriçá constrói trajetória sólida como referência intelectual da música brasileira. Desde 2003, ocupa a Cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Música, onde atua na defesa de compositores nacionais e na preservação de obras pouco executadas. Em 2018, torna-se membro honorário da Academia Nacional de Música.

O reconhecimento acadêmico se estende ao título de Doutor em Música por Notório Saber, concedido pela Universidade Federal de Minas Gerais. No dia a dia, porém, seu impacto se mede sobretudo na relação direta com as orquestras, na escolha de programas e na insistência em incluir Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e outros autores brasileiros em temporadas regulares.

A última apresentação do maestro ocorre em 16 de julho deste ano, em Londrina, à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná, no Festival Internacional de Música da cidade. O concerto encerra simbolicamente um ciclo em que a orquestra paranaense se firma como uma das mais ativas do país, sob sua direção musical.

Vazio na Orquestra do Paraná e legado para novas gerações

Com a morte de Tibiriçá, a Orquestra Sinfônica do Paraná perde seu regente titular e diretor musical em plena temporada. Na prática, o conjunto precisa redistribuir compromissos entre regentes convidados e preparar a escolha de um novo maestro, movimento que pode redefinir a programação e atrasar projetos em andamento.

A ausência também atinge o circuito de formação de público e de músicos. Em projetos como o próprio Aquarius e iniciativas educativas ligadas a orquestras jovens, Tibiriçá atua como elo entre gerações, aproximando estudantes de repertórios tradicionalmente vistos como distantes. Sua atuação na Sinfônica Heliópolis, por exemplo, inspira modelos de inclusão social por meio da música.

Produtores culturais, regentes e instrumentistas destacam que sua defesa da música brasileira deixa um mapa claro de prioridades: preservar partituras, gravar repertórios esquecidos e equilibrar a presença de obras nacionais e estrangeiras em programas de concerto. O desafio, agora, é transformar esse mapa em política duradoura para orquestras públicas e privadas.

No curto prazo, o luto se manifesta em homenagens, minutos de silêncio, dedicatórias de concertos e programas especiais de rádio e TV. A médio e longo prazo, instituições discutem a criação de prêmios, séries de concertos e residências artísticas que levem o nome de Roberto Tibiriçá, como forma de manter viva a agenda que ele constrói em mais de 40 anos de atuação.

Enquanto o público forma fila no Theatro Municipal para a última despedida, a percepção predominante entre músicos e gestores é de que o maestro deixa um repertório de ideias tão importante quanto as partituras que rege. A forma como o país cuida desse legado dirá quanto da sua obra permanece audível nas próximas décadas.

Quem foi Roberto Tibiriçá?

Roberto Tibiriçá foi um maestro paulistano de 72 anos que iniciou a carreira como pianista aos 8, estudou regência com Eleazar de Carvalho, trabalhou 18 anos na Osesp, comandou grandes orquestras brasileiras e internacionais e, desde 2022, era regente titular e diretor musical da Orquestra Sinfônica do Paraná.

Qual o impacto da morte de Tibiriçá para a Orquestra Sinfônica do Paraná?

A morte de Roberto Tibiriçá, regente titular e diretor musical da Orquestra Sinfônica do Paraná desde 2022, obriga a orquestra a reorganizar imediatamente sua temporada, redistribuir concertos entre regentes convidados e abrir um processo para definir nova liderança artística, o que pode afetar projetos, turnês e ações educativas já em curso.


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