A relação entre famosos e política no Brasil atravessa décadas. Muito antes das redes sociais criarem uma nova geração de influenciadores candidatos, apresentadores, cantores, atores, humoristas e jogadores de futebol já tentavam transformar popularidade em votos.
Alguns conseguiram construir carreiras duradouras no Congresso. Outros tiveram passagens curtas pela política, perderam eleições ou desistiram antes mesmo de chegar às urnas. Houve ainda candidaturas que entraram para a história pelo tamanho da votação ou simplesmente pela repercussão provocada.
De Silvio Santos a Tiririca, passando por Romário, Bebeto, Sergio Reis e outros nomes conhecidos do público, relembre algumas celebridades que levaram a fama para a política brasileira.
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Silvio Santos chegou a disputar a Presidência
Uma das incursões mais emblemáticas de uma celebridade na política brasileira ocorreu em 1989. Silvio Santos, um dos maiores apresentadores da história da televisão, entrou na corrida pela Presidência da República quando a campanha já estava em andamento.
Dono do SBT e conhecido por praticamente todo o país, Silvio apareceu como candidato do Partido Municipalista Brasileiro (PMB) e rapidamente alterou o cenário eleitoral.
A candidatura, porém, não chegou às urnas. O Tribunal Superior Eleitoral barrou o registro após considerar irregular a situação do partido pelo qual ele concorreria. Assim terminou uma das mais lembradas tentativas de entrada de uma personalidade da televisão na disputa pelo Palácio do Planalto.

Clodovil Hernandes levou a fama da TV para a Câmara
Clodovil Hernandes, estilista e apresentador conhecido por décadas de atuação na televisão brasileira, também transformou a fama em votos. Em 2006, ele foi eleito deputado federal por São Paulo com 493.951 votos, uma das maiores votações daquela eleição no estado.
A passagem de Clodovil pela Câmara dos Deputados foi marcada pelo estilo irreverente e por declarações que frequentemente repercutiam fora do Congresso. Ele exerceu o mandato até 2009, quando morreu aos 71 anos após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).
A eleição de Clodovil tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos de celebridades que conseguiram converter uma carreira consolidada no entretenimento em uma votação expressiva para o Legislativo.

Tiririca transformou humor em mais de 1 milhão de votos
Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, protagonizou uma das candidaturas de celebridades mais bem-sucedidas da história recente.
Já conhecido nacionalmente como humorista e pelo sucesso de “Florentina”, ele disputou uma vaga de deputado federal por São Paulo em 2010.
Com uma campanha marcada pelo humor e pelo slogan “Pior que tá não fica”, Tiririca recebeu cerca de 1,35 milhão de votos e terminou como o deputado federal mais votado do país naquela eleição.
A estreia não foi um episódio isolado. Tiririca voltou às urnas e conseguiu renovar o mandato, transformando a candidatura inicialmente tratada como uma curiosidade eleitoral em uma trajetória efetiva no Congresso.

Romário e Bebeto trocaram os gramados pelo terno.
Campeão mundial com a Seleção Brasileira em 1994 e um dos maiores atacantes da história do futebol brasileiro, Romário também transformou a popularidade esportiva em votos. Em 2010, foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com 146.859 votos.
Quatro anos depois, deu um passo maior. Romário concorreu ao Senado pelo Rio e venceu a disputa, consolidando uma carreira política que ultrapassou a condição de ex-jogador famoso candidato a um cargo público.
Já o companheiro de Romário no ataque da Seleção Brasileira campeã mundial em 1994, Bebeto seguiu caminho semelhante.
Depois de encerrar a carreira no futebol, o ex-atacante entrou para a política fluminense e foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro. O tetracampeão conseguiu renovar o mandato e passou a integrar o grupo de ex-jogadores que transformaram a popularidade conquistada nos gramados em uma carreira eleitoral.
Romário e Bebeto marcaram história como uma das maiores duplas do futebol brasileiro, mas se tornaram rivais ideológicos na política.

Sergio Reis conquistou cadeira na Câmara
A música sertaneja também teve representantes nas urnas. Sergio Reis, cantor conhecido nacionalmente por uma carreira iniciada ainda nos anos 1960, disputou uma vaga de deputado federal por São Paulo em 2014.
O cantor recebeu 45.330 votos e foi eleito para a Câmara dos Deputados.
Sua eleição ocorreu em uma disputa marcada pela força de grandes puxadores de votos em São Paulo. Naquele ano, Celso Russomanno e Tiririca ultrapassaram a marca de 1 milhão de votos cada um.

Frank Aguiar passou dos palcos para a política
Frank Aguiar, conhecido pela carreira musical e pelo apelido de “Cãozinho dos Teclados”, também construiu uma trajetória eleitoral.
O cantor entrou para a política em São Paulo, foi eleito deputado federal e posteriormente chegou à Vice-Prefeitura de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.
Sua trajetória tornou-se outro exemplo de artista que não apenas concorreu a uma eleição, mas permaneceu por anos envolvido diretamente com a vida partidária.
Netinho de Paula também disputou eleições
Cantor, apresentador e integrante do grupo Negritude Júnior, Netinho de Paula levou a popularidade conquistada na música e na televisão para as urnas.
Ele foi eleito vereador na cidade de São Paulo e, posteriormente, disputou outros cargos, incluindo uma vaga no Senado.
A passagem pela política colocou o artista entre os nomes do entretenimento que buscaram construir uma trajetória eleitoral para além da primeira candidatura.

Stepan Nercessian chegou à Câmara dos Deputados
O ator Stepan Nercessian também conciliou durante parte da carreira o meio artístico com a política.
Depois de décadas de atuação no cinema, na televisão e no teatro, ele foi eleito para cargos legislativos e chegou à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro.
A trajetória de Stepan representa uma geração anterior à explosão das redes sociais, quando a televisão e o cinema eram as principais vitrines nacionais para artistas que posteriormente buscavam votos.
Jean Wyllys saiu do BBB para a Câmara
A televisão também abriu caminho para um fenômeno que se tornaria cada vez mais comum: participantes de reality shows tentando uma carreira eleitoral.
Jean Wyllys ficou conhecido nacionalmente depois de vencer o Big Brother Brasil 5, em 2005.
Anos depois, entrou para a política partidária e foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2010. Posteriormente, conseguiu a reeleição e passou a ter atuação nacional no Congresso.
O caso mostrou que a exposição proporcionada por um reality show também poderia se transformar em reconhecimento eleitoral.

Marcelinho Carioca tentou levar a fama no futebol para as urnas
Ídolo do Corinthians e um dos jogadores mais populares do futebol brasileiro nos anos 1990 e 2000, Marcelinho Carioca também decidiu experimentar a política.
Depois de encerrar a carreira nos gramados, disputou eleições em São Paulo, entrando para a extensa lista de ex-atletas que tentaram converter a relação construída com torcedores em votos.
Vampeta também tentou entrar para a política
Outro campeão mundial que colocou o nome nas urnas foi Vampeta.
Conhecido pela carreira no Corinthians e por fazer parte do elenco da Seleção Brasileira campeã da Copa do Mundo de 2002, o ex-volante decidiu concorrer a um cargo político depois de deixar os gramados.
Assim como ocorreu com outros nomes famosos, a projeção conquistada no futebol garantiu visibilidade à candidatura, mas não foi suficiente para assegurar uma trajetória eleitoral semelhante à de Romário.
Popó também se candidatou
O esporte fora dos gramados também forneceu candidatos. Acelino Freitas, o Popó, quatro vezes campeão mundial de boxe, entrou na política depois de construir uma das carreiras mais vitoriosas do esporte brasileiro.
O ex-boxeador foi eleito deputado federal pela Bahia, levando para o Congresso um nome conhecido internacionalmente por sua trajetória nos ringues.
Ratinho chegou a disputar cargo político antes de se consolidar na TV
Carlos Massa, o Ratinho, também teve uma ligação direta com a política antes de se tornar um dos apresentadores mais conhecidos da televisão brasileira.
Sua trajetória pública passou por disputas eleitorais e pela atuação política no Paraná antes da consolidação nacional na televisão.
Anos depois, a relação da família com a política continuaria por meio de Ratinho Junior, que construiu carreira própria e chegou ao governo do Paraná.

Fama abre portas, mas não garante mandato
As experiências acumuladas ao longo de décadas mostram que reconhecimento público pode representar uma vantagem importante no início de uma campanha.
Artistas, atletas e apresentadores chegam às urnas com algo que candidatos desconhecidos precisam trabalhar durante anos para conseguir: nome conhecido, exposição na mídia e identificação imediata com parte do eleitorado.
Mas a história também registra inúmeras candidaturas de celebridades que não conseguiram se eleger. Em 2014, por exemplo, nomes como Dr. Rey, Mulher Pêra, Sula Miranda, Kid Bengala, Ricardo Macchi e ex-participantes do BBB estiveram entre os famosos que disputaram cargos sem conquistar mandato.
Das celebridades da TV aos influenciadores
A principal mudança ao longo dos anos está na origem da fama.
Durante décadas, televisão, rádio, música e futebol produziram a maior parte das celebridades que chegavam às urnas. Com a popularização da internet, esse espaço passou a ser dividido com influenciadores, youtubers e personalidades que construíram milhões de seguidores sem depender dos meios tradicionais.
A lógica, no entanto, permanece semelhante: transformar reconhecimento público em voto.
De Silvio Santos a Tiririca, de Romário aos participantes de reality shows, a história eleitoral brasileira mostra que a fronteira entre entretenimento, esporte e política nunca foi completamente rígida — e continua produzindo candidatos a cada nova eleição.