Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegam ao segundo turno da eleição presidencial separados por menos de dois pontos percentuais e sob pressão para ampliar bases em estados-chave como São Paulo e recuperar parte dos mais de 33 milhões de eleitores que se abstiveram no primeiro turno.
Flávio na frente, Lula tenta reagir
Com 100% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro fechou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Lula, que somou 45,16%. Augusto Cury (Avante) apareceu em seguida, com 2,89%.
O resultado consolidou a polarização entre PL e PT e abriu uma corrida por apoios, tempo de TV e presença em debates. Nenhum dos dois principais candidatos ultrapassou os 50% dos votos válidos, o que levou a disputa ao segundo turno marcado para daqui a menos de três semanas.
A abstenção passou de 33 milhões de eleitores, o maior número desde 1998, e virou alerta nas duas campanhas, que agora montam estratégias específicas para tentar trazer de volta às urnas quem ficou em casa no domingo.
Debates em negociação e tom da campanha
Coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, o senador Rogério Marinho afirmou que o candidato pretende enfrentar Lula em debates nesta nova fase. “Estamos avaliando os pedidos que foram feitos de debates. O Flávio quer debater com o presidente Lula”, disse. Segundo ele, até esta quarta-feira devem ser definidos quais convites serão aceitos.
No primeiro turno, os principais presidenciáveis evitaram confrontos diretos, e o esperado debate na TV Globo acabou cancelado depois de decisões judiciais que alteraram as regras do encontro.
Do lado petista, Lula elevou o tom contra o Supremo Tribunal Federal e contra o adversário. Em reunião de campanha transmitida pela internet, o presidente disse que sua candidatura “está carregando nas costas uma coisa muito grave que é a promiscuidade que ficou estabelecida na Suprema Corte brasileira depois dessas denúncias” envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, preso em investigações recentes.
Lula também voltou a se apresentar como candidato “antissistema” e mirou diretamente o rival. “Aqui só tem um candidato que é antissistema, que somos nós”, afirmou, classificando Flávio Bolsonaro como “a cara do sistema”.
Apesar de ter ido ao segundo turno, o petista admitiu frustração com o desempenho. “Vocês pensam que eu não fiquei decepcionado [com o resultado das eleições]? Toda eleição eu fico decepcionado, porque todas eu quero ganhar no primeiro turno”, disse.
Campanhas redesenham estratégia
À frente na contagem, Flávio Bolsonaro aposta em consolidar apoios de governadores e ex-candidatos à Presidência e em explorar o desgaste de Lula. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), deve ser uma das principais vitrines do PL nessa fase, especialmente para tentar ampliar a margem no maior colégio eleitoral do país.
Ronaldo Caiado (PSD), quinto colocado na disputa presidencial, e Romeu Zema (Novo), que obteve 0,27% dos votos, também entraram no radar dos dois finalistas. Em vídeo, Zema já declarou voto em Flávio Bolsonaro, afirmando que “não vai ficar em cima do muro” e que “vota contra o PT”.
Lula, por sua vez, mira uma reabilitação no Nordeste, onde perdeu terreno em relação a eleições anteriores, e busca melhorar o desempenho em São Paulo e Minas Gerais. A campanha planeja aumentar a participação do vice, Geraldo Alckmin, para dialogar com o eleitorado de centro e setores empresariais que cobram moderação e previsibilidade econômica.
Na narrativa petista, o foco será reduzir rejeição, recuperar votos de candidatos derrotados no primeiro turno e reverter a abstenção, sobretudo entre eleitores de baixa renda.
Reação internacional e sinalização econômica
Do exterior, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, celebrou o desempenho do candidato do PL. A jornalistas, na saída da Casa Branca, ele classificou a vantagem de Flávio como um marco. “É uma grande vitória, bem apertada, mas uma grande, grande vitória. Incrível”, disse, prevendo um segundo turno “muito acirrado”.
O ex-candidato Augusto Cury, que terminou o primeiro turno com 2,89%, agradeceu os votos em vídeo nas redes e evitou declarar apoio. Ele aproveitou para mandar um recado aos finalistas: “Torço para aqueles que foram para o segundo turno possam ser responsáveis fiscalmente. Possam amar o Brasil e possam aproveitar os meus projetos”.
A fala reforça a cobrança por compromisso com responsabilidade fiscal e estabilidade institucional, ponto central para investidores e empresários que acompanham a disputa, especialmente diante das promessas de Lula de promover uma reforma do Judiciário e do discurso de contestação ao sistema político e judicial.
Congresso mais à direita e com mais mulheres
Além da corrida presidencial, a votação deste domingo renovou dois terços do Senado. Foram eleitos 54 novos senadores, com o PL emergindo como principal força na Casa. O partido de Flávio Bolsonaro conquistou 19 cadeiras nessa eleição e passa a controlar uma bancada de 28 senadores, a maior do Congresso. MDB e PT vieram em seguida, com 7 e 6 novos senadores, respectivamente.
No campo da representação feminina, o pleito registrou recordes. Doze mulheres foram eleitas para o Senado e 109 para a Câmara dos Deputados, o equivalente a 21% do total de parlamentares da Casa. Na Câmara, o PL foi o partido que mais elegeu mulheres em números absolutos: 22 deputadas entre 121 eleitos.
Embora a direita tenha ampliado o número de mulheres eleitas, pesquisadores destacam que, proporcionalmente, legendas de esquerda ainda reúnem as bancadas femininas mais numerosas em relação ao total de cadeiras de cada partido. Analistas apontam também o papel de Michelle Bolsonaro na construção de uma estratégia específica do PL para atrair e apoiar candidaturas femininas.
Entenda o contexto
O cenário que se desenha para o segundo turno é de forte polarização e Congresso mais à direita. Com uma bancada robusta no Senado, o PL tende a ter papel central nas negociações de projetos econômicos e reformas estruturais, caso Flávio Bolsonaro seja eleito. Em caso de vitória de Lula, a construção de maiorias legislativas pode ser mais complexa e exigir alianças amplas.
Desde a redemocratização, viradas entre primeiro e segundo turno na disputa presidencial são consideradas raras e difíceis. Lula entra nesta etapa em situação desafiadora: precisa reduzir a vantagem do adversário, reconquistar votos em redutos onde foi derrotado e diminuir a abstenção em faixas do eleitorado tradicionalmente mais próximas ao PT.
Ao mesmo tempo, a elevada taxa de eleitores que não compareceram às urnas abre uma janela de incerteza. A forma como as campanhas vão abordar esse grupo — seja pela mobilização nas periferias urbanas, seja pelo apelo a um voto “útil” de centro — pode definir o resultado final.
Pesquisa Datafolha vai medir largada do 2º turno
A primeira pesquisa Datafolha desta nova fase da campanha está prevista para ser divulgada na quinta-feira. O levantamento terá 2.520 entrevistas e margem de erro de dois pontos percentuais.
O resultado deve indicar se a vantagem de Flávio Bolsonaro se mantém, se encolhe ou se amplia na largada do segundo turno e servirá de termômetro para o ajuste das estratégias das duas campanhas nos próximos dias, às vésperas da definição do próximo presidente da República.