O avanço de Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno, com 47,03% contra 45,16% dos votos válidos, acentua o peso da economia no segundo turno e obriga as campanhas a falar diretamente ao bolso do eleitor, avalia o sociólogo e cientista político Antonio Lavareda.
Economia no centro da disputa
Na análise feita durante a cobertura do CNN Eleições, logo após a divulgação do resultado, Lavareda afirmou que o desempenho das urnas reflete uma insatisfação expressiva com a condução econômica do país. Segundo ele, o governo não conseguiu converter ações e indicadores em sensação de melhora concreta.
Para o cientista político, o Planalto esbarrou sobretudo na percepção popular: o governo, diz, “patinou” na tentativa de modificar essa leitura negativa. A avaliação já aparecia em pesquisas de opinião e agora, sustenta, se materializa no placar apertado do primeiro turno.
Esse diagnóstico projeta uma campanha de segundo turno fortemente ancorada na economia. Lavareda destaca que temas como “inflação, preços dos alimentos, emprego, renda, poder de compra, juros e situação das contas públicas tendem a permanecer no centro do debate porque possuem impacto direto sobre a vida cotidiana do eleitor”.

Discurso de mudança favorece Flávio
Um dos pontos centrais da leitura de Lavareda é o uso da palavra “mudança” pela campanha de Flávio Bolsonaro. Em um cenário de insatisfação econômica, o apelo por renovação ganha força adicional, especialmente quando o adversário é o presidente em exercício.
Segundo o sociólogo, Flávio tende a canalizar o voto de descontentamento, falando a quem sente a pressão da inflação no supermercado, o aperto no orçamento doméstico e a dificuldade no mercado de trabalho. A narrativa de que o atual governo não conseguiu entregar melhora na vida real abre espaço para a oposição prometer correção de rumos.
Na prática, isso significa uma campanha focada em preços, emprego e crédito, com promessas de controle da inflação, recuperação do poder de compra e alívio no custo do endividamento, em um ambiente de juros altos e contas públicas pressionadas.
Desafio de Lula é prometer mudança sendo governo
Do lado governista, Lavareda vê um obstáculo de comunicação mais complexo. Ele resume esse dilema ao afirmar que “o desafio do candidato à reeleição passa, portanto, por convencer o eleitor de que um governo já instalado também pode representar mudanças para os próximos quatro anos”.
A comparação com a disputa travada por Dilma Rousseff em 2014 surgiu na análise como referência: assim como então, o candidato que busca renovar o mandato precisa mostrar que um novo ciclo é possível sem trocar o comando do país. Agora, porém, o ambiente econômico é considerado mais adverso, o que torna a tarefa de Lula mais difícil.
Para tentar reverter a leitura negativa, a campanha do presidente deve reforçar propostas de recuperação de renda, ampliação de programas sociais, estímulos ao emprego e medidas para segurar preços, buscando convencer o eleitorado de que o segundo mandato será diferente do primeiro na área econômica.

Segundo turno mais duro e pautado pelo bolso
Na visão de Lavareda, o peso da economia tende a acirrar a disputa em segmentos diretamente afetados pelo ciclo recente: famílias de baixa renda afetadas pela alta dos alimentos, trabalhadores informais e desempregados, pequenos negócios pressionados por juros elevados e consumidores endividados.
Esses grupos, que sentem com mais força o vaivém da inflação e do crédito, podem definir o resultado final. As campanhas se preparam para intensificar anúncios de medidas concretas – de reajustes salariais a políticas de combate à carestia – tentando transformar promessas em expectativa real de melhora.
Com o placar do primeiro turno apertado e a economia no centro do debate, a tendência é de um segundo turno disputado voto a voto, em que a capacidade de cada candidato de convencer o eleitor de que conseguirá melhorar o dia a dia da população será decisiva para o desfecho eleitoral e para os rumos da política econômica nos próximos anos.