Parasita da malária usa hormônio do sono para se multiplicar, revela estudo da USP

Pesquisadores brasileiros e franceses identificaram proteína que permite ao parasita reconhecer a melatonina; descoberta pode abrir caminho para novos medicamentos contra a doença.
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Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com cientistas franceses, descobriram como o parasita responsável pela forma mais grave da malária utiliza a melatonina, conhecida como hormônio do sono, para regular seu desenvolvimento no organismo humano. O estudo identificou uma proteína que permite ao microrganismo reconhecer esse hormônio e pode abrir caminho para a criação de novos medicamentos contra a doença.

A descoberta foi divulgada pelo Jornal da USP nesta terça-feira (13) e envolve o Plasmodium falciparum, uma das espécies de parasitas causadoras da malária. Os pesquisadores identificaram um receptor chamado PfSR1-MT, que responde à melatonina e participa dos mecanismos responsáveis pela sincronização do ciclo de multiplicação do parasita.

Parasita da malária usa hormônio do sono, revela estudo da USP

Os resultados também apontaram uma substância experimental capaz de interferir no desenvolvimento do microrganismo em laboratório. Apesar do avanço, ainda não se trata de um medicamento disponível para pacientes, e novas pesquisas serão necessárias para avaliar a segurança e a eficácia de possíveis tratamentos.

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Como o parasita da malária utiliza o hormônio do sono?

A melatonina é um hormônio produzido principalmente durante a noite e desempenha um papel importante na regulação do relógio biológico humano, especialmente no ciclo de sono e vigília.

Os cientistas descobriram que o Plasmodium falciparum consegue reconhecer a presença desse hormônio por meio de uma proteína localizada em sua estrutura. Essa interação desencadeia sinais celulares que ajudam a organizar o desenvolvimento do parasita dentro dos glóbulos vermelhos.

Ilustração mostra o ciclo de vida do parasita da malária, desde a transmissão pelo mosquito até sua multiplicação no fígado e no sangue humano.

O Plasmodium falciparum se multiplica em ciclos de aproximadamente 48 horas. Ao final desse período, as células sanguíneas infectadas se rompem, liberando novos parasitas na circulação.

Esse processo está relacionado aos episódios de febre que podem ocorrer de maneira periódica em pacientes com malária.

A descoberta ajuda a explicar como o microrganismo consegue sincronizar parte de seu desenvolvimento com sinais do organismo humano. Isso não significa, porém, que dormir ou produzir melatonina provoque a doença. A malária é transmitida principalmente pela picada de mosquitos infectados.

Pesquisa começou há mais de duas décadas

O trabalho é resultado de uma investigação científica iniciada há cerca de 26 anos, quando pesquisadores da USP observaram que a melatonina influenciava o desenvolvimento e a sincronização dos parasitas em culturas celulares.

Na época, os cientistas ainda não sabiam exatamente como o microrganismo reconhecia o hormônio.

Com o avanço das técnicas de biologia molecular, o grupo passou a investigar proteínas que poderiam atuar como receptores. A pesquisa mais recente, realizada em colaboração com a Université Paris Cité, na França, analisou duas candidatas.

Os experimentos identificaram a proteína PfSR1-MT como um receptor capaz de se ligar à melatonina e desencadear respostas celulares, incluindo alterações na sinalização de cálcio.

A identificação desse mecanismo representa um avanço para compreender a biologia do parasita e investigar formas de interromper seu desenvolvimento.

Substância experimental pode ajudar no desenvolvimento de medicamentos

Uma das etapas da pesquisa envolveu testes com uma substância sintética chamada ARL34.

Nos experimentos, o composto conseguiu se ligar ao receptor PfSR1-MT e interferir na multiplicação do parasita, além de prejudicar o desenvolvimento de formas envolvidas na transmissão da doença.

Outro resultado considerado importante foi a seletividade observada nos testes: a substância atuou sobre o receptor do parasita sem ativar os receptores humanos de melatonina avaliados pelos pesquisadores.

Essa característica sugere a possibilidade de desenvolver tratamentos direcionados a estruturas específicas do microrganismo.

Entretanto, os resultados ainda são experimentais. Não há comprovação de que a substância seja segura ou eficaz em seres humanos, e ela não deve ser utilizada como tratamento contra a malária.

A descoberta ganha importância diante da preocupação científica com a resistência de parasitas a medicamentos já utilizados no combate à doença.

O que é a malária e quais são os sintomas?

A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos principalmente pela picada de fêmeas infectadas do mosquito Anopheles, conhecido popularmente como mosquito-prego.

Após a infecção, os parasitas passam por diferentes etapas de desenvolvimento no organismo, incluindo o fígado e as células sanguíneas.

Entre os sintomas mais comuns estão febre, calafrios, dor de cabeça, fraqueza, cansaço e dores no corpo. Em situações graves, a doença pode provocar anemia intensa, alterações neurológicas, dificuldades respiratórias e comprometimento de órgãos.

O Plasmodium falciparum está associado a algumas das manifestações mais graves da malária, especialmente quando o diagnóstico e o tratamento são realizados tardiamente.

Por isso, pessoas que apresentam febre após permanecerem em regiões com transmissão da doença devem procurar atendimento de saúde e informar o histórico de viagem ou exposição.

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diagnóstico e tratamento gratuitos para a malária.

Brasil registrou menor número de casos em quase 50 anos

A descoberta ocorre em um momento de avanços no combate à malária no Brasil.

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em agosto de 2026, o país registrou 118.037 casos de transmissão local em 2025, o menor número desde 1978.

O resultado representa uma redução de aproximadamente 15% em relação ao ano anterior. As mortes também diminuíram, passando de 56 em 2024 para 39 em 2025, uma queda de cerca de 30%.

A maior parte dos registros brasileiros está concentrada na região amazônica, onde fatores ambientais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde ainda representam desafios para o controle da doença.

O Brasil também ampliou o uso da tafenoquina, medicamento administrado em dose única para determinados pacientes com malária causada pelo Plasmodium vivax, espécie diferente daquela investigada no estudo sobre a melatonina.

A redução dos casos não significa que a doença tenha sido eliminada. A vigilância, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado continuam sendo fundamentais.

Próximos passos

Com a identificação do receptor de melatonina no Plasmodium falciparum, os pesquisadores poderão aprofundar os estudos sobre substâncias capazes de interferir nessa comunicação entre o parasita e o organismo humano.

O próximo desafio será avaliar melhor a ação dos compostos experimentais, investigar possíveis efeitos adversos e determinar se o mecanismo pode ser explorado de maneira segura em futuros medicamentos.

A pesquisa amplia o conhecimento sobre o funcionamento do parasita, mas não altera, neste momento, as orientações de prevenção, diagnóstico ou tratamento da malária.

O estudo foi publicado na revista científica Current Research in Microbial Sciences e contou com a participação de pesquisadores brasileiros e franceses.

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