Canetas emagrecedoras podem proteger o coração mesmo sem perda de peso, aponta estudo

Pesquisa com semaglutida identificou benefícios contra alterações ligadas à insuficiência cardíaca em testes com animais; resultados ainda precisam ser confirmados em humanos.
Redação NC News
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Um novo estudo científico identificou que a semaglutida, princípio ativo de canetas emagrecedoras como Ozempic e Wegovy, pode oferecer proteção ao coração mesmo quando não provoca perda significativa de peso. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Ciências da Saúde Cedars-Sinai, nos Estados Unidos, encontrou melhorias no funcionamento cardíaco em experimentos com ratos e miniporcos.

Os resultados foram publicados na revista científica European Heart Journal e indicam que o medicamento pode atuar sobre mecanismos ligados à insuficiência cardíaca, independentemente do emagrecimento. Nos animais estudados, os pesquisadores observaram redução da rigidez do coração, do aumento anormal do músculo cardíaco e do acúmulo de gordura em tecidos.

Apesar dos resultados promissores, a investigação ainda está na fase pré-clínica. Isso significa que os efeitos específicos encontrados com doses que não provocam emagrecimento precisam ser confirmados em seres humanos antes de serem incorporados a novas recomendações de tratamento.

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Como as canetas emagrecedoras podem proteger o coração?

A semaglutida pertence à classe dos agonistas do receptor GLP-1, medicamentos que imitam a ação de um hormônio intestinal relacionado ao controle da glicose, à sensação de saciedade e à regulação do apetite.

Embora esses medicamentos sejam conhecidos principalmente pelo tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, pesquisas anteriores já haviam identificado benefícios cardiovasculares em determinados grupos de pacientes.

O novo trabalho buscou responder a uma questão importante: a proteção ao coração acontece apenas porque o paciente emagrece ou o medicamento também pode produzir benefícios por outros mecanismos?

Para investigar essa possibilidade, os cientistas administraram doses de semaglutida que não provocavam perda significativa de peso em animais com alterações semelhantes às observadas em pessoas com insuficiência cardíaca associada à obesidade.

Os resultados indicaram melhorias na estrutura e no funcionamento do coração, mesmo sem mudanças relevantes no peso corporal.

Pesquisa encontrou redução da rigidez cardíaca e da gordura

Nos experimentos com ratos, a semaglutida reduziu em aproximadamente 60% um indicador de pressão dentro do ventrículo esquerdo, associado à dificuldade de relaxamento e enchimento do coração.

Os pesquisadores também observaram redução de cerca de 30% no aumento anormal do músculo cardíaco, além de diminuição da fibrose, processo caracterizado pela formação excessiva de tecido cicatricial.

Resultados semelhantes foram encontrados nos miniporcos, que apresentam características cardiovasculares consideradas úteis para pesquisas sobre doenças humanas.

Outro achado importante foi a redução do acúmulo de gordura no coração e no fígado. Essas alterações ocorreram sem diminuição significativa do peso total dos animais.

Os resultados sugerem que a semaglutida pode modificar processos metabólicos e inflamatórios associados ao comprometimento cardíaco, embora os mecanismos exatos ainda precisem ser esclarecidos.

O que é insuficiência cardíaca e por que a descoberta importa?

A insuficiência cardíaca é uma condição em que o coração não consegue bombear sangue ou se encher adequadamente para atender às necessidades do organismo.

Entre os sintomas mais comuns estão falta de ar, cansaço excessivo, inchaço nas pernas e dificuldade para realizar atividades físicas.

O estudo investigou especificamente a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Nessa condição, o coração mantém uma capacidade relativamente normal de expulsar o sangue, mas apresenta dificuldades para relaxar e se encher entre os batimentos.

A doença é frequentemente associada a fatores como obesidade, hipertensão arterial e diabetes tipo 2.

A possibilidade de utilizar medicamentos que atuem diretamente sobre alterações cardíacas, sem depender exclusivamente da redução do peso corporal, representa uma nova linha de investigação para o tratamento desses pacientes.

Pesquisadores avaliam possibilidade de usar doses menores

Um dos aspectos que mais interessaram aos cientistas foi a resposta observada com doses que não produziram emagrecimento significativo.

A descoberta abre caminho para investigar se doses menores de medicamentos da classe GLP-1 poderiam oferecer benefícios cardiovasculares com menor incidência de efeitos adversos.

Entre as reações mais conhecidas desses medicamentos estão náuseas, vômitos, diarreia e outros desconfortos gastrointestinais, especialmente durante o início do tratamento e o aumento das doses.

David Lefer, diretor de pesquisa translacional do Departamento de Cirurgia Cardíaca do Smidt Heart Institute, no Cedars-Sinai, destacou a importância dos resultados para futuras investigações.

A pesquisadora Traci Goodchild, também envolvida no estudo, destacou que os resultados abrem a possibilidade de investigar tratamentos com doses menores, capazes de preservar benefícios cardiovasculares e reduzir efeitos colaterais.

No entanto, os cientistas ressaltam que ainda não é possível determinar quais doses seriam eficazes e seguras em pessoas com insuficiência cardíaca.

Estudos anteriores já apontavam benefícios em pacientes

Os resultados se somam a evidências clínicas que vêm sendo produzidas sobre o uso da semaglutida em pessoas com obesidade e problemas cardiovasculares.

Um estudo publicado anteriormente no New England Journal of Medicine, com 616 participantes que tinham insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, obesidade e diabetes tipo 2, identificou melhora dos sintomas e da capacidade de realizar atividades físicas entre os pacientes tratados com semaglutida.

Outras pesquisas também encontraram associações entre o uso de medicamentos como semaglutida e tirzepatida e a redução de determinados eventos relacionados à insuficiência cardíaca.

A diferença é que o novo estudo procurou investigar mecanismos de proteção que não dependessem da perda de peso, utilizando modelos experimentais para separar esses efeitos.

Esses resultados não significam que todas as canetas emagrecedoras tenham os mesmos benefícios, nem que os medicamentos possam ser utilizados indiscriminadamente para prevenir doenças cardíacas.

Próximos passos

Os pesquisadores defendem a realização de novos estudos para verificar se os efeitos observados nos animais também acontecem em humanos e quais mecanismos estão envolvidos na proteção cardiovascular.

Outra etapa será investigar se doses menores de semaglutida podem trazer benefícios clínicos relevantes sem provocar perda de peso expressiva.

Até que essas questões sejam esclarecidas, os resultados não justificam mudanças na dose dos medicamentos nem seu uso por conta própria para proteger o coração.

A semaglutida deve continuar sendo utilizada conforme as indicações aprovadas e com acompanhamento médico, considerando o histórico de saúde, os riscos e as necessidades de cada paciente.

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