Cinco bairros da zona leste de São Paulo apresentaram uma mudança no comportamento eleitoral entre 2024 e 2026. Regiões que deram vantagem a Pablo Marçal (PRTB) na disputa pela Prefeitura da capital passaram a registrar mais votos para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno da eleição presidencial deste ano.
A mudança ocorreu em Ermelino Matarazzo, São Miguel Paulista, Itaquera, Parque do Carmo e Teotônio Vilela. Nessas localidades, Lula ficou à frente de Flávio Bolsonaro (PL), apesar de Marçal, que disputou a prefeitura em 2024, apoiar o senador na corrida presidencial.
O resultado mostra que parte do eleitorado da periferia não segue necessariamente uma divisão rígida entre direita e esquerda. Questões como emprego, renda, empreendedorismo, serviços públicos e a trajetória dos candidatos podem influenciar as escolhas de uma eleição para outra.
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Por que esses bairros mudam de preferência política?
As cinco regiões fazem parte do que pesquisadores classificam como “periferia de transição”. São áreas que passaram por transformações econômicas e sociais, mas ainda convivem com desigualdades e dificuldades de acesso a serviços.
O cientista social Tiaraju D’Andrea, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que esses bairros reúnem moradores com diferentes expectativas econômicas e políticas.
De um lado, há eleitores que valorizam programas sociais, investimentos públicos e medidas de combate à desigualdade. De outro, também existe identificação com propostas ligadas ao empreendedorismo, ao consumo e à possibilidade de crescimento financeiro individual.
Essa combinação ajuda a explicar por que candidatos de campos políticos distintos conseguem conquistar apoio nas mesmas regiões.
“São regiões que se beneficiaram do acesso a políticas públicas do Lula e do PT, mas têm o discurso meritocrático muito forte.”

Diferenças dentro da própria zona leste
O comportamento eleitoral não é uniforme na região. Bairros mais próximos do centro, como Mooca, Tatuapé, Vila Formosa e Vila Prudente, apresentaram maior apoio a Marçal em 2024 e a Flávio Bolsonaro em 2026.
Já localidades mais afastadas, como Cidade Tiradentes, São Mateus, Guaianases, Jardim Helena e Itaim Paulista, mantiveram maior votação em candidatos associados à esquerda nas duas disputas.
Entre esses dois grupos estão os chamados bairros pêndulo, nos quais a preferência eleitoral pode variar conforme o candidato, o cargo em disputa e as propostas apresentadas.
Eleitores dizem avaliar o trabalho dos candidatos
A líder comunitária Cida Vieira, de 50 anos, moradora do Parque do Carmo, representa parte desse comportamento. Em entrevista ao UOL, ela explicou que não escolhe candidatos exclusivamente pela posição ideológica.
“Voto em quem tem experiência e coloca as promessas em prática, independentemente de ser de esquerda ou de direita.”
Cida relatou que chegou a demonstrar simpatia por Pablo Marçal durante a eleição municipal de 2024, mas mudou de opinião após episódios da campanha, incluindo o confronto com José Luiz Datena em um debate.
Na eleição presidencial de 2026, decidiu apoiar Lula ao considerar a experiência política do presidente e os investimentos realizados por administrações petistas na periferia paulistana.
O relato ilustra como a avaliação pessoal dos candidatos e a memória de políticas públicas podem influenciar decisões que não seguem uma identificação partidária permanente.

O que os resultados revelam sobre a eleição de 2026?
No primeiro turno presidencial, Lula obteve 46,58% dos votos válidos na capital paulista, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 42,13%. No estado de São Paulo, o resultado foi diferente: o senador alcançou 51,93%, contra 38,20% do petista.
Essa diferença entre a capital e o conjunto do estado evidencia a diversidade do eleitorado paulista e a importância de analisar os resultados por região.
Os números dos cinco bairros também mostram que a preferência por um candidato em uma eleição municipal não determina automaticamente o voto em uma disputa presidencial.
Periferia ganha espaço na disputa do segundo turno
Com a eleição presidencial avançando para o segundo turno, os resultados dessas regiões ajudam a compreender a distribuição dos votos na maior cidade do país.
As campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro têm diante de si um eleitorado com diferentes prioridades e experiências políticas. Questões como custo de vida, segurança, oportunidades de trabalho e acesso a serviços públicos fazem parte das preocupações presentes nesses territórios.
O comportamento dos cinco bairros reforça que as periferias paulistanas não formam um bloco eleitoral único. Mesmo em regiões próximas, as escolhas podem variar significativamente conforme o contexto de cada eleição.
