Em sabatina no SBT Brasil nesta segunda-feira (19/10), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou que vai formalizar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido para abrir seu sigilo bancário, civil, jurídico e telefônico e o de toda a família, incluindo o filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, alvo de investigação da Polícia Federal por tráfico de influência, e condicionou a efetivação da medida a um gesto igual do adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Lula diz que só quebra sigilo se Flávio fizer o mesmo
A entrevista começou por volta das 19h40 e é conduzida pelas jornalistas Basília Rodrigues, Marina Demori e Simone Queiroz. Logo no início, Lula usou o espaço em rede nacional para tentar virar o jogo na reta final do segundo turno e reposicionar o debate sobre investigações envolvendo sua família.
“Eu vou formalizar junto ao TSE e ao STF a intenção de abrir meu sigilo bancário, civil, jurídico e telefônico, assim como o de toda minha família”, declarou o presidente. Em seguida, impôs a contrapartida: “A condição para a quebra efetiva do sigilo é que Flávio Bolsonaro faça o mesmo movimento”.
O coordenador da campanha petista, senador Camilo Santana, já havia antecipado que o documento preparado pela equipe jurídica só terá efeito prático se o adversário concordar em abrir seus próprios sigilos. A estratégia mira diretamente Flávio, que foi convidado para sabatina no mesmo programa na quarta-feira (21/10), mas ainda não confirmou presença.
Lula também voltou a citar supostas incongruências de Flávio Bolsonaro em relação a Daniel Vorcaro, apontado por investigadores como articulador de fraudes financeiras bilionárias, e usou o caso para reforçar o discurso de que todos os candidatos deveriam se submeter ao mesmo nível de transparência.
A reta final do 2º turno e a aposta na transparência
A sabatina vai ao ar a apenas seis dias do segundo turno presidencial e é tratada pelo Planalto como uma das últimas oportunidades de exposição em TV aberta e plataformas digitais antes da votação. A entrevista é exibida pelo SBT Brasil, retransmitida pela TV Alterosa em Minas Gerais e pelo canal de notícias da emissora em TV por assinatura e streaming.
Nos bastidores, aliados avaliam que o anúncio de abertura de sigilo próprio e da família pode ajudar Lula a desgastar o adversário e a reforçar a narrativa de que não teme investigações, mesmo com Lulinha sob apuração da PF. A medida, porém, também expõe o entorno do presidente a um nível mais alto de escrutínio público e jurídico.
A pressão agora recai sobre Flávio Bolsonaro. Se aceitar o desafio, o senador e sua família também terão a vida financeira e telefônica detalhada em documentos oficiais. Se recusar, corre o risco de ser alvo de críticas por falta de transparência nos últimos dias da campanha.
Lula nega uso eleitoral de benefícios e cita perdão a MEIs
Questionado sobre o pacote de medidas econômicas anunciado nas últimas semanas, Lula rejeitou a acusação de que teria usado o poder de caneta para fins eleitorais. O presidente foi cobrado a explicar o reajuste do Bolsa Família, o transporte público gratuito proposto para fins de semana e o programa de perdão de dívidas de microempreendedores individuais.
Em relação ao Desenrola MEI, Lula afirmou que o governo decidiu perdoar quase R$ 15 bilhões em dívidas classificadas como irrecuperáveis, beneficiando cerca de 4 milhões de microempreendedores. Ele também citou o aumento do teto de faturamento da categoria. “Eu não vou deixar de dar um benefício que eu posso dar, porque tem eleição”, disse.
Sobre o Bolsa Família, disse que a equipe econômica encontrou espaço no orçamento para repor a inflação acumulada no benefício, adiada, segundo ele, por causa dos adicionais pagos a famílias com crianças. “Eu fiquei muito nervoso, porque reposição de inflação é obrigação em qualquer lugar do mundo”, afirmou.
Lula insistiu que os projetos aprovados após o primeiro turno já tramitavam no Congresso antes da votação de 4 de outubro e que havia pedido celeridade aos presidentes da Câmara e do Senado independentemente do cenário eleitoral.
Segurança pública, maioridade penal e novo ministério
Na área de segurança, o presidente manteve a linha apresentada em outras entrevistas. Defendeu reduzir a maioridade penal para 16 anos, mas apenas em casos de crimes hediondos, e voltou a apoiar as saídas temporárias de presos com bom comportamento, com exceções para condenados por crimes mais graves.
Lula confirmou ainda a intenção de recriar o Ministério da Segurança Pública após a aprovação da chamada PEC da Segurança, que reorganiza competências na área. Segundo ele, a proposta seguirá na pauta “independentemente do resultado eleitoral”, em recado de continuidade caso seja reeleito ou de pressão sobre um eventual novo governo.
O presidente procurou se afastar do discurso de endurecimento generalizado, argumentando que políticas de segurança devem combinar repressão qualificada, investimento em investigação e programas sociais voltados para juventude em áreas mais vulneráveis.
Reforma do Judiciário e mandatos no STF
Lula também retomou a defesa de uma reforma do sistema de Justiça. Entre as mudanças, mencionou a possibilidade de instituir mandatos para ministros do Supremo Tribunal Federal e ampliar a participação da sociedade na escolha dos integrantes da Corte.
Segundo o presidente, a ideia não é “enfraquecer o Supremo”, mas discutir regras mais claras para nomeações futuras e mandatos com prazo definido, tema que divide juristas e parlamentares e tende a provocar embates no Congresso caso avance.
Ele repetiu o desafio para que tanto ele quanto Flávio Bolsonaro autorizem a quebra formal dos sigilos bancário e telefônico de seus familiares, como parte de uma agenda mais ampla de transparência e responsabilização de autoridades.
Desempenho no 1º turno e mobilização regional
Ao falar sobre o resultado do primeiro turno, Lula reconheceu que esperava uma vitória já na primeira etapa, mas negou ter subestimado o adversário ou a força da direita. Disse que, passado o baque inicial, percebeu um aumento da mobilização de apoiadores nas ruas.
“O povo está assumindo a responsabilidade da campanha, sobretudo porque o povo quer garantir a continuidade do processo democrático”, afirmou. Ele comparou a frustração deste ano com a de outra eleição em que também foi ao segundo turno. “Eu fui no meu comitê, tinha muita delegação de estrangeira, todo mundo de cabeça baixa, eu fui obrigado a fazer um discurso para levantar a moral da minha tropa”, relatou, ao lembrar de experiência anterior.
Lula admitiu perdas em redutos onde esperava melhor desempenho e traçou como prioridades recuperar votos no Sul, vencer em Minas Gerais e reduzir a vantagem de Flávio Bolsonaro em São Paulo. “Nós podemos ganhar as eleições em Minas Gerais, nós podemos diminuir a diferença aqui em São Paulo e, se isso acontecer, nós ganhamos a eleição”, disse.
A entrevista segue ao vivo em TV aberta, canais de assinatura e plataformas digitais do SBT News, enquanto a campanha aguarda a decisão de Flávio Bolsonaro sobre ir ou não à sabatina marcada para quarta-feira e sobre aceitar o desafio de abrir seus sigilos na reta final da disputa.