A influenciadora digital Malévola Alves, de 22 anos, e a amiga Bruna Mercatelli desembarcaram no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, por volta das 22h30 de quinta-feira (22), após passarem dois dias presas no Egito. As brasileiras foram detidas sob acusação de comportamento obsceno em espaços públicos e conseguiram retornar ao país depois de serem liberadas mediante pagamento de fiança.
O retorno foi registrado em vídeo pelas próprias influenciadoras, que comemoraram a chegada ao Brasil depois dos momentos de tensão vividos no exterior. As duas relataram dificuldades durante a detenção, incluindo falta de acesso a água, alimentação e comunicação com familiares.
Em uma gravação divulgada após o desembarque, Malévola demonstrou alívio por estar novamente em território brasileiro e agradeceu o apoio recebido. A influenciadora também afirmou que não pretende retornar ao Egito, enquanto sua defesa anunciou que buscará providências diante das denúncias de abusos e transfobia.
Malévola diz que foi obrigada a ficar nua em prisão no Egito: “Me senti um lixo”
Malévola comemora chegada ao Brasil após prisão no Egito
Malévola, cujo nome de registro é Mariana Alves Gadelha Pereira, desembarcou em Guarulhos acompanhada de Bruna Mercatelli. As duas haviam sido presas na terça-feira (20), na cidade de Alexandria, durante uma viagem turística ao Egito.
Após a chegada, as influenciadoras gravaram um vídeo para comunicar aos seguidores que estavam em segurança.
“Finalmente chegamos ao Brasil.”
A declaração foi feita por Malévola, que também demonstrou gratidão pela recepção recebida no país.
“Ser recebida com tanto carinho pelos brasileiros é incrível. Acho que igual os brasileiros não tem.”
Apesar da comemoração, a influenciadora afirmou que a experiência no Egito deixou marcas e descartou a possibilidade de retornar ao país.
“Eu não volto para o Egito de maneira alguma.”
Malévola também voltou a mencionar as condições enfrentadas durante o período em que esteve sob custódia das autoridades egípcias.
Influenciadoras relatam falta de água, comida e condições precárias
Segundo Malévola, ela e Bruna enfrentaram dificuldades durante a detenção e permaneceram por aproximadamente 24 horas em uma sala na cidade de Alexandria.
A influenciadora afirmou que as duas ficaram sentadas em cadeiras de ferro e não tiveram acesso adequado a necessidades básicas.
“A gente tá sem celular, a gente não teve acesso a comida, a gente não teve acesso a água… foram 24 horas numa sala, sentadas numa cadeira de ferro ali em Alexandria.”
Bruna Mercatelli também relatou situações semelhantes. Em publicações nas redes sociais, afirmou que passou a madrugada sem conseguir dormir e enfrentou momentos de medo e insegurança.
De acordo com o relato da amiga de Malévola, as brasileiras foram transportadas em um veículo policial fechado e precisaram aguardar durante horas até conseguirem seguir viagem.
As denúncias foram apresentadas pelas influenciadoras. Até o momento, não há confirmação independente de todas as circunstâncias relatadas durante a detenção.
Malévola denuncia transfobia e diz que foi obrigada a tirar a roupa
Antes mesmo de retornar ao Brasil, Malévola publicou vídeos emocionada, nos quais acusou agentes egípcios de tratamento discriminatório em razão de sua identidade de gênero.
A influenciadora, que é uma mulher trans, afirmou que policiais exigiram que ela retirasse as roupas para verificar seu sexo.
“Eu tive que ficar pelada. Me levaram para uma sala, eu tive que ficar pelada para eles verem se eu era mulher mesmo. E eles viram que eu era mulher, pediram desculpa depois, mas eu me senti um lixo.”
Segundo Malévola, o comportamento dos agentes mudou após o procedimento. Ela relatou que passou a receber água e alimentação e que os policiais começaram a tratá-la de maneira mais respeitosa.
A brasileira também afirmou ter sofrido crises de ansiedade e pânico após o episódio.
Bruna Mercatelli, que também é uma mulher trans, relatou medo durante a abordagem e preocupação com a possibilidade de sofrer violência.
As declarações representam os relatos das influenciadoras. As autoridades egípcias não tiveram suas versões específicas sobre essas denúncias confirmadas nas informações divulgadas até esta sexta-feira (23).
Por que Malévola e Bruna foram presas no Egito?
A prisão aconteceu na terça-feira (20), em Alexandria, depois que vídeos gravados pelas brasileiras durante a viagem passaram a ser investigados pelas autoridades locais.
Segundo o Ministério do Interior do Egito, as gravações mostrariam gestos de conotação sexual, comportamentos considerados obscenos e possíveis situações de assédio contra pessoas nas ruas.
Em alguns dos vídeos divulgados nas redes sociais, as influenciadoras aparecem interagindo com homens durante passeios turísticos.
O governo egípcio afirmou que as brasileiras teriam produzido e publicado as gravações para aumentar o número de visualizações em seus perfis.
Malévola, por outro lado, contestou as acusações e declarou que as interações aconteceram com o consentimento das pessoas envolvidas.
A influenciadora também afirmou que ela e suas acompanhantes teriam sofrido episódios de assédio durante a viagem.
As acusações apresentadas pelas autoridades egípcias não representam uma condenação judicial. A investigação sobre os vídeos pode continuar mesmo após a liberação das brasileiras.
Brasileiras foram liberadas após pagamento de fiança
Malévola e Bruna foram soltas na quarta-feira (21), depois do pagamento de fiança às autoridades egípcias.
Em declarações feitas após o desembarque, as influenciadoras afirmaram que pagaram juntas aproximadamente R$ 8 mil para conseguir a liberação.
Informações divulgadas anteriormente pela defesa mencionavam valores diferentes, próximos de R$ 10 mil. A divergência pode estar relacionada aos valores informados em momentos distintos e à conversão da moeda egípcia.
O advogado Jonatha Carvalho Matos, responsável pela defesa, explicou que as brasileiras poderão responder ao processo em liberdade.
A liberação permitiu que as duas deixassem o Egito e retornassem ao Brasil, mas não significa necessariamente o encerramento da investigação.
Outro problema relatado pela defesa envolve o aparelho celular de Malévola, que teria permanecido apreendido pelas autoridades egípcias.
Segundo o advogado, o telefone não foi devolvido antes da viagem de retorno.
Defesa pretende acionar o Itamaraty e organismos internacionais
Com o retorno das brasileiras, a defesa informou que pretende buscar providências para investigar as denúncias de abusos e discriminação apresentadas pelas influenciadoras.
O advogado Jonatha Carvalho Matos afirmou que pretende solicitar a atuação do Ministério das Relações Exteriores, responsável pela diplomacia brasileira, e avaliar medidas junto a organismos internacionais de direitos humanos.
“A gente pretende acionar o Itamaraty para tomar as medidas cabíveis de forma diplomática, e dependendo até Comissão Internacional de Direitos Humanos, da pessoa LGBT e tudo mais.”
A intenção é que os relatos sejam analisados e que eventuais responsabilidades sejam apuradas pelas autoridades competentes.
O caso envolve questões relacionadas à legislação egípcia, aos direitos de cidadãos brasileiros no exterior e às denúncias de tratamento discriminatório contra pessoas trans.
Embora o Egito não criminalize expressamente a identidade de gênero trans, organizações internacionais de direitos humanos denunciam o uso de normas relacionadas à moralidade pública em investigações e processos envolvendo pessoas LGBTQIA+.
No episódio envolvendo Malévola e Bruna, o governo egípcio atribuiu oficialmente a detenção aos vídeos publicados nas redes sociais.
Próximos passos
Após o desembarque em São Paulo, Malévola Alves e Bruna Mercatelli estão novamente em território brasileiro, encerrando o período de incerteza sobre a possibilidade de deixar o Egito.
A defesa deverá avaliar as medidas jurídicas e diplomáticas relacionadas às denúncias de abusos e transfobia, além de acompanhar eventuais desdobramentos do processo instaurado pelas autoridades egípcias.
Até esta sexta-feira (23), não havia confirmação de que o Itamaraty tivesse iniciado uma investigação específica sobre os relatos apresentados pelas influenciadoras.
O retorno ao Brasil encerra a etapa de detenção e liberação das duas brasileiras, mas as acusações investigadas no Egito e as denúncias contra os agentes locais ainda podem ter novos desdobramentos.