Uma descoberta científica em navios afundados durante a Segunda Guerra Mundial pode abrir novos caminhos para combater a poluição dos oceanos. Pesquisadores encontraram comunidades de bactérias no combustível que vaza de duas embarcações japonesas naufragadas há mais de 80 anos na Lagoa de Chuuk, na Micronésia, no Oceano Pacífico. Entre os microrganismos identificados estão grupos conhecidos pela capacidade de decompor substâncias presentes no petróleo.
O estudo, publicado na quarta-feira (21) na revista científica Marine Pollution Bulletin, analisou amostras de combustível e da região de contato entre óleo e água do mar. Os cientistas identificaram 1.505 classificações bacterianas em nível de espécie. Apesar do potencial ambiental da descoberta, a pesquisa ainda não demonstrou que esses microrganismos estejam efetivamente degradando o combustível encontrado nos naufrágios.
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O que os cientistas encontraram nos navios da Segunda Guerra Mundial?
A pesquisa foi conduzida por uma equipe liderada pela microbiologista Awei Bainivalu, da Universidade do Pacífico Sul, em Fiji. Os pesquisadores investigaram dois navios japoneses que permanecem no fundo da Lagoa de Chuuk desde 1944.
As embarcações são o Shinkoku Maru, um navio-tanque utilizado para transportar combustível, e o Kiyosumi Maru, originalmente destinado ao transporte de passageiros e cargas e posteriormente convertido para uso militar.
Ambos foram afundados durante ataques aéreos norte-americanos na Segunda Guerra Mundial. Mesmo depois de oito décadas, parte do combustível armazenado nos tanques continua escapando para o ambiente marinho.
Os cientistas coletaram amostras dos dois navios e analisaram a composição química do petróleo, além do material genético dos microrganismos presentes.
O resultado revelou comunidades bacterianas diversificadas, inclusive em um ambiente que contém compostos potencialmente tóxicos para diversas formas de vida.
Pesquisa identificou mais de 1.500 classificações bacterianas
Por meio de técnicas de sequenciamento de DNA, os pesquisadores identificaram microrganismos distribuídos em 42 filos, 107 classes, 249 ordens, 432 famílias e 1.047 gêneros.
No nível de espécie, foram registradas 1.505 classificações bacterianas nas amostras analisadas.
Entre os grupos encontrados estão bactérias dos gêneros Ralstonia, Sphingomonas e Corynebacterium, que incluem espécies capazes de utilizar hidrocarbonetos do petróleo como fonte de carbono e energia.
Esses compostos químicos estão presentes em combustíveis fósseis e podem causar danos à fauna e à flora marinhas quando liberados no ambiente.
A presença dessas bactérias sugere que comunidades microbianas conseguem sobreviver em locais submetidos à contaminação por petróleo durante longos períodos.
Como bactérias podem ajudar a combater a poluição por petróleo?
Algumas bactérias possuem mecanismos metabólicos que permitem transformar determinados hidrocarbonetos em substâncias mais simples.
Esse processo pode ser aproveitado em uma técnica conhecida como biorremediação, que utiliza microrganismos para reduzir a presença de contaminantes no solo e na água.
Na prática, determinadas espécies bacterianas conseguem utilizar componentes do petróleo como fonte de nutrientes, contribuindo para sua degradação.
O interesse dos cientistas está em compreender se as comunidades encontradas nos naufrágios podem oferecer informações úteis para desenvolver métodos de descontaminação em ambientes marinhos.
Entretanto, a presença de bactérias com potencial para degradar hidrocarbonetos não significa que elas sejam capazes de eliminar todo o petróleo ou neutralizar seus efeitos ambientais.
Estudo ainda não comprovou que bactérias estejam consumindo combustível
Apesar da descoberta, os próprios pesquisadores destacam uma limitação importante: o trabalho identificou a presença dos microrganismos, mas não mediu diretamente a degradação do petróleo por essas bactérias.
Isso significa que ainda não é possível afirmar que as comunidades encontradas estejam efetivamente consumindo o combustível nas condições observadas.
Os cientistas também perceberam diferenças entre as bactérias presentes no óleo e aquelas encontradas na região em que o combustível entra em contato com a água do mar.
Essa variação sugere que as condições ambientais podem influenciar quais microrganismos conseguem sobreviver e se desenvolver em cada local.
Novos estudos serão necessários para verificar a atividade metabólica das bactérias, identificar quais compostos conseguem decompor e avaliar se essa capacidade pode ser aplicada em projetos de descontaminação.
Navios afundados há 80 anos ainda representam risco ambiental
A Lagoa de Chuuk abriga dezenas de embarcações japonesas destruídas durante a Operação Hailstone, ofensiva militar norte-americana realizada em fevereiro de 1944.
Na época, a região funcionava como uma importante base naval japonesa no Oceano Pacífico.
Os destroços permaneceram submersos por décadas, mas a deterioração das estruturas metálicas pode abrir novas passagens para a saída de combustível armazenado nos tanques.
O problema é especialmente preocupante porque esses vazamentos podem atingir recifes de corais, áreas de reprodução de peixes e ecossistemas dos quais dependem comunidades costeiras.
Além dos hidrocarbonetos, embarcações antigas podem liberar metais e outros contaminantes associados às atividades militares.
Por isso, pesquisadores defendem o monitoramento contínuo dos naufrágios e a avaliação dos riscos ambientais provocados pelo envelhecimento das estruturas.
Micronésia já enfrentou emergência ambiental por vazamento de navio
O risco não é apenas uma possibilidade futura. Em setembro de 2025, os Estados Federados da Micronésia declararam emergência ambiental após um vazamento de óleo associado ao navio japonês Rio de Janeiro Maru, também afundado durante a Segunda Guerra Mundial.
O combustível atingiu áreas próximas da Lagoa de Chuuk e provocou preocupação com a contaminação da água, dos recursos pesqueiros e dos ecossistemas costeiros.
Na ocasião, autoridades do país solicitaram apoio internacional para enfrentar os impactos ambientais e avaliar outros naufrágios potencialmente poluentes.
O episódio reforçou a necessidade de desenvolver estratégias para reduzir os riscos representados pelos destroços militares que permanecem no fundo do Pacífico.
Descoberta pode abrir caminho para novas tecnologias ambientais
Os resultados da pesquisa oferecem uma base para compreender como comunidades bacterianas se adaptam à presença prolongada de combustíveis no ambiente marinho.
Os próximos passos deverão envolver análises sobre a capacidade real de degradação dos microrganismos e as condições necessárias para que esse processo ocorra.
Se os pesquisadores confirmarem que determinadas bactérias conseguem decompor os hidrocarbonetos de maneira eficiente, as descobertas poderão contribuir para futuras estratégias de biorremediação.
Por enquanto, o estudo representa um avanço no conhecimento científico sobre a vida microbiana em ambientes contaminados, mas não uma solução comprovada para os vazamentos.
O desafio permanece: evitar que navios afundados há mais de oito décadas continuem liberando substâncias tóxicas nos oceanos.