O último debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado na sexta-feira (23), na TV Globo, teve declarações sobre obras públicas que exigem correção ou contextualização. Durante o confronto, os candidatos apresentaram números diferentes sobre empreendimentos paralisados no Brasil. Uma verificação da Agência Lupa identificou divergências entre as afirmações e os levantamentos do Tribunal de Contas da União (TCU).
Lula afirmou que recebeu aproximadamente 6 mil obras paralisadas do governo de Jair Bolsonaro. Flávio, por sua vez, mencionou mais de 11.500 empreendimentos interrompidos durante a atual administração. A checagem mostrou que os números se referem a períodos diferentes e que a quantidade de obras paradas não pode ser atribuída automaticamente ao presidente que estava no cargo no momento do levantamento.
Checagem aponta dados imprecisos de Lula e Flávio sobre obras no debate da Globo
Lula subestimou número de obras paralisadas
Durante a discussão sobre infraestrutura, Lula afirmou que havia herdado cerca de 6 mil obras paralisadas da administração anterior.
Segundo a checagem da Agência Lupa, os registros do Tribunal de Contas da União apontavam aproximadamente 8,6 mil empreendimentos paralisados em agosto de 2022, além de 22,5 mil obras ativas.
O número apresentado pelo presidente ficou abaixo daquele registrado no levantamento utilizado pela organização de checagem.
A diferença também exige atenção à data de referência. Os dados de agosto de 2022 não representam necessariamente a situação exata encontrada pelo governo Lula em janeiro de 2023.
Flávio citou mais de 11.500 obras interrompidas
Flávio Bolsonaro também utilizou informações atribuídas ao Tribunal de Contas da União para questionar os investimentos federais.
O senador afirmou que o governo Lula acumulava mais de 11.500 obras paralisadas.
O levantamento citado registrava 11.944 empreendimentos interrompidos em 2024. Entretanto, esse total reunia projetos financiados com recursos federais, incluindo obras iniciadas em administrações anteriores.
Por isso, a existência de uma obra paralisada durante determinado governo não significa, necessariamente, que a interrupção tenha ocorrido naquela gestão.
A checagem identificou que a declaração precisava de contexto para evitar uma interpretação equivocada dos números.
Dados de 2026 apresentam outro cenário
O painel do Tribunal de Contas da União também apresenta levantamentos mais recentes sobre a situação das obras públicas.
Em abril de 2026, o sistema registrava 4.215 obras paralisadas e aproximadamente 22,4 mil empreendimentos em andamento.
Os números são diferentes daqueles apresentados pelos candidatos no debate.
Essa variação pode refletir mudanças na situação dos projetos, atualizações cadastrais e diferenças entre os períodos analisados.
Uma obra pode ser retomada, concluída ou ter sua situação administrativa modificada ao longo do tempo.
A comparação entre governos exige, portanto, informações adicionais sobre a data de início dos empreendimentos, o momento da paralisação e os critérios utilizados para classificar cada projeto.
Debate também teve acusações sobre outros assuntos
Além das obras públicas, Lula e Flávio discutiram economia, salário mínimo, impostos, endividamento das famílias, saúde, segurança pública e apostas eletrônicas.
Os candidatos também trocaram acusações relacionadas a investigações, movimentações financeiras e pessoas próximas às respectivas campanhas.
Durante o encontro, Lula voltou a propor a abertura de sigilos bancários, enquanto Flávio apresentou questionamentos sobre relações financeiras atribuídas ao presidente.
Essas acusações precisam ser diferenciadas de fatos comprovados. A apresentação de uma suspeita durante o debate não significa que tenha ocorrido uma irregularidade.
Por que a checagem das declarações é importante?
Dados oficiais podem ser apresentados corretamente em termos numéricos e, ainda assim, produzir interpretações incompletas quando são retirados de seu contexto.
No caso das obras públicas, por exemplo, é necessário identificar o período do levantamento, a origem dos recursos, a situação dos contratos e o momento em que cada empreendimento foi interrompido.
Também é importante distinguir declarações políticas de informações verificáveis.
Uma afirmação sobre a quantidade de obras paralisadas pode ser confrontada com registros administrativos. Já avaliações sobre prioridades de governo e propostas para o futuro pertencem ao campo do debate político.
A verificação permite esclarecer essas diferenças sem substituir a análise que cada eleitor faz das propostas apresentadas.
Último debate antes do segundo turno
O encontro de sexta-feira foi realizado nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, com mediação do jornalista César Tralli.
O debate foi dividido em quatro blocos e considerações finais. Os candidatos tiveram a oportunidade de apresentar propostas, responder a questionamentos e discutir temas nacionais.
Este foi o último confronto televisivo previsto entre Lula e Flávio Bolsonaro antes do segundo turno das eleições presidenciais.
A votação acontece neste domingo, 25 de outubro, das 8h às 17h, pelo horário de Brasília.
O resultado será definido pelos votos válidos registrados nas urnas e pela apuração oficial da Justiça Eleitoral.