O debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), na noite de sexta-feira (23), virou também um grande teste ao vivo para a checagem de fatos: Fato ou Fake e Aos Fatos publicaram verificações em tempo real das falas dos candidatos, classificando dados, correções e distorções enquanto o eleitor ainda assistia ao programa.

LEIA TAMBÉM
Flávio Bolsonaro faz motociata em BH na véspera do segundo turno das eleições
Como funcionou a checagem durante o debate
O Fato ou Fake mobilizou mais de 30 jornalistas de redações do Grupo Globo para acompanhar o debate da TV Globo desde o primeiro minuto. Segundo o serviço, “repórteres e editores acompanham o debate ao vivo e selecionam as declarações que podem ser verificadas com base em dados e informações objetivas”. Opiniões e ataques pessoais ficaram de fora.
Com apoio de tecnologia de transcrição automática, toda a fala de Lula e Flávio foi transformada em texto em tempo real, “palavra por palavra”, para evitar erros de interpretação. As frases selecionadas eram distribuídas entre repórteres, que tinham a missão de checar rapidamente ou aprofundar a apuração, recorrendo a dados oficiais, documentos públicos e especialistas.
As análises foram publicadas primeiro no g1 e nos sites de O Globo, Valor Econômico, Extra e CBN, e atualizadas ao longo da madrugada. “As primeiras checagens serão publicadas durante o debate no g1 e nos sites dos jornais”, informou o projeto antes do encontro. Cada verificação trazia “o passo a passo da apuração, com transparência sobre as fontes consultadas”.
Para o público, o resultado aparecia nos selos já conhecidos: #FATO para afirmações confirmadas, #NÃOÉBEMASSIM para declarações imprecisas ou fora de contexto e #FAKE para informações falsas. Entre as falas de Flávio Bolsonaro, houve exemplos enquadrados nas três categorias, de dados econômicos a políticas sociais.
Depois do programa na TV aberta, a GloboNews exibiu um especial reunindo as checagens feitas pela equipe do Fato ou Fake, ampliando o alcance das correções e contextualizações apresentadas durante a noite.
O papel do Aos Fatos e da tecnologia Escriba
Paralelamente, o Aos Fatos também acompanhou o debate em tempo real. A equipe utilizou o Escriba, ferramenta própria de transcrição automática que converte áudio e vídeo em texto em alta velocidade e com detecção de falantes, para gerar a base das análises.
As verificações eram publicadas à medida que repórteres e editores concluíam a checagem, com possibilidade de revisão posterior: “As verificações podem ser modificadas para inclusão ou atualização de informações nas horas posteriores ao debate”, informou o coletivo. Contestações enviadas pelas assessorias dos candidatos foram avaliadas e, quando necessário, incorporadas às atualizações.
Entre os pontos destacados pelo Aos Fatos estão correções sobre números de obras paralisadas, dados sociais e econômicos e episódios citados pelos candidatos. Uma declaração que inflou o número de obras paradas foi rebatida com o dado consolidado: atualmente são 4.215 obras paralisadas, segundo o Tribunal de Contas da União, e não mais de 11.500, como dito no palco.
Também foram checadas falas sobre inclusão digital — com a informação de que 21,3 mil pontos de internet haviam sido instalados até o fim de 2022 — e sobre programas sociais, como o Auxílio Brasil, que chegou ao valor de R$ 600 apenas no fim do governo anterior, e não durante todo o período, como sugeriu Flávio em uma de suas respostas.
Entenda o contexto
A checagem em tempo real já vinha sendo usada em debates e entrevistas recentes, mas o embate direto entre Lula e Flávio Bolsonaro, a dois dias do segundo turno, ampliou a visibilidade do formato. A combinação de disputa acirrada, forte presença digital das campanhas e preocupação com desinformação criou terreno para uma cobertura em que a verificação virou protagonista.
Nesta eleição, os serviços especializados também incorporaram ferramentas para acelerar a transcrição de vídeos, cruzar dados públicos e identificar conteúdo manipulado por inteligência artificial, como imagens adulteradas envolvendo os candidatos que circularam nas redes.
Quais declarações dos candidatos foram corrigidas
As equipes de checagem miraram afirmações centrais usadas pelos candidatos para atacar o adversário ou exaltar a própria gestão. Em vários casos, os serviços classificaram as falas como imprecisas ou falsas, mesmo quando continham um núcleo de verdade.
Nos temas econômicos, uma declaração de que a dívida bruta do governo teria atingido níveis inéditos foi confirmada: a dívida chegou a 11 trilhões de reais neste ano. Já no campo social, os checadores destacaram que o número de pessoas em situação de rua dobrou no período recente: passou de 198,7 mil em dezembro de 2022 para 399 mil em setembro de 2026, dado usado pelos candidatos em acusações cruzadas.
Houve correções também em falas sobre segurança pública e violência contra a mulher. As verificações apontaram que, embora o país registre alta de feminicídios, o número de homicídios com vítimas mulheres caiu na atual gestão, nuance que não apareceu em algumas falas do palco.
Acusações envolvendo jogos de azar, milícias e casos criminais também foram para a lupa. Em uma das checagens, o Aos Fatos lembrou que as chamadas “bets” foram liberadas no país em 2018, em outro governo, e não na gestão petista. Em outra, destacou que há evidências de ligação de Flávio com milicianos, embora ele não seja formalmente investigado por envolvimento com esses grupos.
Em políticas públicas, a promessa de criar a Casa da Mulher Brasileira foi contextualizada: o programa já existe desde 2015. E ao comentar educação, o discurso de que o Brasil teria hoje a “pior nota de todas” no Pisa foi classificado como impreciso, já que o desempenho em matemática é um dos piores da série histórica, mas o de ciências é o melhor já registrado.
Troca de ataques, gafes e pedidos de desculpas
Para além dos números, a troca de provocações entre Lula e Flávio alimentou buscas e verificações específicas. Em um dos momentos mais comentados, Lula citou a plataforma de buscas, mas pronunciou o nome de forma que rapidamente virou meme nas redes, com o termo “Gugo”. Isso impulsionou pesquisas ligadas ao episódio.
Flávio explorou temas pessoais e de bastidor, questionando Lula sobre gastos com cartões corporativos e fazendo acusações envolvendo um de seus filhos, Lulinha. As falas levaram internautas a procurar detalhes sobre as despesas oficiais e processos citados, enquanto checadores destrincharam o que era fato comprovado, o que ainda está sob investigação e o que foi exagerado no embate.
Outro momento de forte reação ocorreu quando Flávio afirmou que Lula “dava com uma mão e tirava com os nove dedos”, menção ao acidente de trabalho em que o petista perdeu parte da mão esquerda. A frase rendeu críticas imediatas e, diante da repercussão, o candidato acabou pedindo desculpas ainda durante o encontro.
‘Gugo’, cartão corporativo e curiosidades: o que bombou nas buscas
Enquanto o debate transcorria, o interesse por checagens e informações de contexto explodiu nos mecanismos de busca. Termos ligados diretamente ao programa e às verificações, como “checagem de fatos debate”, “quem ganhou o debate da Globo” e “Gugo”, somaram mais de 1 milhão de buscas no Google Trends.
Também houve um salto nas pesquisas por temas mencionados pelos candidatos, mas pouco explicados no ao vivo. Consultas sobre “gastos com cartão corporativo” dispararam, assim como buscas sobre a atuação de Lula na Constituinte de 1988 e sobre curiosidades pessoais do petista. Expressões como “como Lula perdeu o dedo” e “Lula votou contra a Constituição de 1988” acumularam mais de 20 mil pesquisas.
Dados sobre programas sociais, dívida pública, situação de rua, violência e até disputas judiciais citadas de passagem pelos candidatos também entraram no radar dos eleitores, que usaram a internet para checar sozinhos, em paralelo ao trabalho dos serviços profissionais de verificação.
Impacto para o eleitor e para as próximas campanhas
A checagem em tempo real muda o peso de uma frase em debate nacional. Ao saber que uma declaração pode receber, em minutos, o selo #FATO, #NÃOÉBEMASSIM ou #FAKE, campanhas ficam sob escrutínio maior e tendem a calibrar números e promessas. Para o eleitor, o benefício é direto: reduzir o espaço para desinformação em um momento decisivo do processo eleitoral.
O modelo também impulsiona o jornalismo digital e o uso de tecnologia em redações. Ferramentas de transcrição, bancos de dados estruturados e análise automatizada de conteúdo se tornam parte do kit básico em noites de debate, ao lado de repórteres especializados em economia, segurança, políticas sociais e justiça.
Com a repercussão nas redes e a corrida por informações verificadas, a tendência é que emissoras e veículos consolidem o formato em futuros debates e ampliem o uso de soluções como o Escriba e plataformas internas de decupagem. Na prática, isso deve aumentar a pressão para que candidatos sustentem suas promessas em dados verificáveis e tornem o ambiente eleitoral mais responsável nas próximas disputas.