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O resultado eleitoral surpreendeu parte do mercado financeiro. Lula venceu o segundo turno com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% do senador Flávio Bolsonaro (PL), segundo os dados divulgados após a apuração.
Nas semanas anteriores à votação, pesquisas eleitorais apontavam vantagem de Flávio Bolsonaro. Com a vitória do petista, investidores passaram a reavaliar as perspectivas para a política econômica, as contas públicas e a trajetória dos juros no próximo mandato.
Por que a Bolsa caiu e o dólar subiu?
A reação do mercado está relacionada às expectativas dos investidores sobre as decisões econômicas do próximo governo. Entre as principais preocupações estão o controle das despesas públicas, a evolução da dívida do país e o cumprimento das metas fiscais.
Quando aumenta a percepção de risco sobre a economia, investidores podem reduzir a exposição a ativos brasileiros e buscar alternativas consideradas mais seguras. Esse movimento pode pressionar a Bolsa e elevar a cotação do dólar, embora os preços também sejam influenciados por fatores internacionais e pelas expectativas para os juros.
O analista Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, afirmou que a condução da política fiscal será um dos principais pontos observados pelo mercado durante o quarto mandato de Lula. A trajetória da dívida pública, o controle dos gastos e a credibilidade das metas fiscais estão entre os fatores que podem influenciar a confiança dos investidores.
O economista-chefe da Lev DTVM, Jason Vieira, também apontou a possibilidade de medidas para recuperar a confiança do mercado, incluindo discussões sobre a revisão de despesas obrigatórias e o cumprimento das metas fiscais.
O que é o circuit breaker?
O circuit breaker é um mecanismo utilizado pela B3 para interromper temporariamente as negociações quando o Ibovespa registra uma queda muito acentuada. O objetivo é reduzir a pressão durante movimentos extremos e permitir que os participantes do mercado reavaliem suas posições.

Pelas regras usuais da Bolsa, uma queda de 10% em relação ao fechamento anterior provoca a interrupção das operações por 30 minutos. Em uma nova etapa de queda, o mecanismo pode ser acionado novamente conforme os limites previstos nas regras aplicáveis.
Nesta segunda-feira, a B3 anunciou um limite específico de 20% para uma segunda interrupção. A medida foi adotada em meio à forte volatilidade registrada durante o pregão.
Juros futuros disparam e aumentam preocupação
Além da queda das ações e da alta do dólar, os contratos de juros futuros registraram forte avanço. Essas taxas refletem as expectativas dos investidores sobre os juros nos próximos meses e anos e são influenciadas pelas perspectivas para a inflação, a política monetária e as contas públicas.
Por volta das 10h, os contratos com vencimento em janeiro de 2027 subiam de 13,475% para 13,898% ao ano. Para janeiro de 2029, a taxa avançava de 12,595% para 15,03%. Já os contratos para janeiro de 2035 passaram de 12,68% para 15,375% ao ano.
A alta dos juros futuros não representa um aumento imediato da taxa Selic nem das taxas cobradas pelos bancos. Entretanto, se persistir, poderá encarecer empréstimos e financiamentos e elevar o custo de captação das empresas.
Tesouro recompra títulos públicos
Em meio à turbulência, o Tesouro Nacional realizou uma operação de recompra de títulos públicos prefixados que movimentou aproximadamente R$ 7,1 bilhões, segundo as informações divulgadas pelo g1.
A recompra consiste na aquisição, pelo governo, de títulos que estavam nas mãos dos investidores. A operação pode ajudar a reduzir desequilíbrios no mercado, embora seu efeito dependa das condições de negociação e do volume envolvido.
Mercados internacionais também registram perdas
A turbulência atingiu também os ativos brasileiros negociados no exterior. O fundo de índice EWZ, negociado em Nova York e utilizado por investidores para acompanhar ações brasileiras, registrava forte queda antes da abertura dos mercados americanos, de acordo com os dados citados pelo g1.
Na Argentina, o índice de ações MSCI Merval também recuava durante o pregão. O movimento acompanhou a pressão sobre os mercados brasileiros, importantes para a economia argentina.
Além das repercussões eleitorais, investidores monitoravam a evolução dos preços do petróleo e as tensões entre Estados Unidos e Irã, assim como as decisões de política monetária esperadas de bancos centrais, incluindo o Federal Reserve, dos Estados Unidos.
Mercado acompanha desdobramentos políticos
Outro fator de incerteza citado por analistas foi a possibilidade de questionamentos judiciais sobre o processo eleitoral. Após a derrota, Flávio Bolsonaro afirmou que tentaria contestar o resultado da votação.
Eventuais disputas judiciais podem ampliar a incerteza entre investidores, mas a existência de questionamentos não significa que o resultado eleitoral será alterado. Qualquer avaliação sobre o efeito desse cenário depende dos desdobramentos concretos e das decisões das autoridades competentes.
A última vez que a B3 havia acionado o circuit breaker antes do episódio desta segunda-feira foi durante a pandemia de Covid-19, em 2020, quando a Bolsa sofreu fortes quedas em meio à crise global.
O comportamento dos mercados nos próximos dias dependerá da evolução das expectativas para a política econômica, dos indicadores divulgados e das decisões do governo. Investidores também devem acompanhar as projeções reunidas no Boletim Focus e os próximos movimentos dos bancos centrais.