A inteligência artificial está mudando a rotina de profissionais sem necessariamente alterar seus cargos ou contratos de trabalho. Atividades que antes ocupavam boa parte do expediente estão sendo automatizadas ou reorganizadas, exigindo novas competências de quem permanece na mesma função.
Segundo reportagem da StartSe baseada no Relatório Global da Força de Trabalho da Workday, a transformação das funções tem avançado mais do que a eliminação de vagas. O estudo reúne dados de empresas que utilizam a plataforma da companhia e uma pesquisa global com 6.001 profissionais e líderes.
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Empresas esperam aumentar a produtividade com IA
De acordo com os números apresentados pela reportagem, 40% dos líderes consultados esperam que a inteligência artificial permita ampliar a produtividade dos funcionários atuais. Outros 28% esperam reduzir o tamanho das equipes com o uso da tecnologia.
Os dados sugerem que, em muitas organizações, a principal mudança pode estar no modo como o trabalho é realizado. Profissionais continuam em seus cargos, mas passam a executar tarefas diferentes ou a trabalhar com ferramentas que alteram etapas inteiras de seus processos.
Conhecer ferramentas de IA já não é suficiente
O levantamento também aponta uma mudança nas habilidades procuradas pelo mercado. A demanda por conhecimentos básicos de inteligência artificial, como a elaboração de comandos simples, teria atingido o pico em janeiro de 2026 e recuado 25% depois disso.
Em sentido oposto, a procura por habilidades práticas — como desenvolver ferramentas, automatizar fluxos de trabalho e aplicar engenharia de IA — cresceu 51% entre setembro de 2025 e julho de 2026, conforme dados de aproximadamente 550 grandes empregadores citados pela StartSe.
A tendência reforça a importância de ir além do uso básico de assistentes digitais. Empresas e profissionais precisam aprender a aplicar a tecnologia em problemas concretos, avaliar resultados e redesenhar processos de forma responsável.
Capacitação profissional ainda é um desafio
A reportagem destaca uma diferença entre a percepção dos trabalhadores sobre as habilidades necessárias e o apoio recebido das empresas. Segundo o relatório da Workday, 79% dos profissionais dizem saber quais competências precisam desenvolver, mas apenas 66% afirmam receber ajuda do empregador para isso.
Outro estudo citado no artigo aponta desigualdade no acesso ao treinamento em IA. Entre trabalhadores sem cargos de gestão, 64% não teriam recebido capacitação ou teriam participado apenas de uma introdução breve. Entre integrantes da alta gestão, o índice seria de 26%.
Essa diferença pode dificultar a adoção da tecnologia no dia a dia. Sem orientação e treinamento adequados, os funcionários podem ter dificuldade para identificar usos relevantes da IA, enquanto as lideranças precisam criar condições para que o aprendizado alcance toda a equipe.
Carreiras não acompanham o ritmo das mudanças
O relatório também indica obstáculos à mobilidade profissional dentro das empresas. Segundo os dados citados pela StartSe, as movimentações internas para novas funções caíram em 57% dos empregadores em comparação com o ano anterior, enquanto as taxas de promoção permaneceram praticamente estáveis.
O cenário cria um descompasso: as tarefas e competências exigidas mudam, mas os caminhos tradicionais de crescimento profissional nem sempre acompanham essa evolução. Para reduzir essa distância, as empresas precisam reconhecer novas habilidades e criar oportunidades para que os funcionários assumam responsabilidades diferentes.
Uso de IA traz otimismo e insegurança
Entre os profissionais que usam inteligência artificial em quase todas as atividades, 62% acreditam que a tecnologia pode reduzir o valor de suas habilidades atuais. Ao mesmo tempo, 76% esperam que a IA abra novas oportunidades de carreira, segundo os números apresentados no artigo.
Os resultados mostram que a adoção da tecnologia pode provocar sentimentos contraditórios: receio de perder relevância e expectativa de encontrar novas possibilidades de atuação. Nesse contexto, a preparação dos gestores é importante para orientar as equipes, incentivar a aprendizagem e esclarecer como as funções devem evoluir.
O que empresas e profissionais podem fazer
Para as empresas, o desafio é substituir treinamentos restritos ao básico por experiências práticas, como automatizar tarefas reais e redesenhar processos. Também é importante atualizar trilhas de carreira e oferecer oportunidades para que as novas competências sejam aplicadas no trabalho.
Para os profissionais, desenvolver familiaridade com ferramentas de IA é apenas o começo. Aprender a resolver problemas, avaliar a qualidade das respostas, identificar limites da tecnologia e integrar soluções aos processos de trabalho pode ajudar a acompanhar as mudanças.
A principal mensagem do levantamento é que o cargo, por si só, já não descreve tudo o que uma pessoa faz. Com a expansão da inteligência artificial, a capacidade de aprender e adaptar atividades pode se tornar tão importante quanto a experiência acumulada na função.