Um ano após megaoperação com 122 mortos, crianças da Penha vivem com medo e têm estudos prejudicados

Relatos de professores, psicólogos e assistentes sociais mostram que a violência ainda afeta a rotina de crianças e adolescentes, que enfrentam dificuldades para frequentar escolas e atividades de lazer
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Um ano após a megaoperação policial que deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, crianças e adolescentes ainda convivem com os efeitos da violência. O medo de novos tiroteios, as dificuldades para frequentar a escola e a insegurança para sair de casa fazem parte da rotina de famílias que vivem na região.

A ação, realizada em 28 de outubro de 2025, mobilizou cerca de 2.500 policiais civis e militares e terminou com 117 civis e cinco agentes de segurança mortos. Considerada a operação policial mais letal da história do estado, a ofensiva tinha como objetivo atingir integrantes do Comando Vermelho (CV).

Segundo relatos de profissionais que atuam nas comunidades, reunidos em reportagem do g1 publicada nesta quinta-feira (29), os impactos permanecem mesmo depois do encerramento dos confrontos. Entre as consequências estão sintomas de ansiedade, dificuldades de concentração, interrupção das atividades escolares e receio de circular por determinados locais.

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Projeto social perdeu alunos após operação

Na Vila Cruzeiro, o professor de Matemática Marcelo Martins acompanha de perto os efeitos da violência na educação. Ele é fundador do projeto social Estudando para Vencer, que oferece preparação gratuita para vestibulares e escolas técnicas.

A megaoperação aconteceu poucos dias antes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2025, comprometendo a preparação dos estudantes. As aulas e revisões previstas para aquele período foram canceladas, e as atividades do projeto só foram retomadas em março deste ano.

Segundo o professor, a iniciativa costumava iniciar o ano com aproximadamente 200 interessados. Em 2026, o número caiu para cerca de 50. Marcelo pondera, no entanto, que ainda não é possível estabelecer uma relação direta entre a redução e a operação policial.

Outro problema é a dificuldade dos estudantes para conciliar a preparação para as provas com a necessidade de trabalhar e ajudar no orçamento familiar. Os confrontos também dificultam a realização de aulas noturnas, já que muitas famílias temem que os jovens permaneçam nas ruas durante a noite.

Medo de sair de casa e ansiedade entre adolescentes

A psicóloga Thaís Marques, moradora do Complexo da Penha, acompanha remotamente quatro pré-adolescentes, com idades entre 12 e 14 anos, que vivem na região.

Segundo a profissional, os atendimentos começaram após a megaoperação e revelaram mudanças no comportamento dos jovens, incluindo medo de frequentar a escola, participar de atividades recreativas e passar por determinados lugares.

Entre os sintomas identificados estão ansiedade e hipervigilância, condição caracterizada por um estado de atenção excessiva diante da possibilidade de uma ameaça.

Thaís também observa que a exposição recorrente à violência pode comprometer a autoestima das crianças e dos adolescentes. A insegurança, somada a situações de desigualdade social e racismo, interfere na maneira como esses jovens enxergam suas próprias oportunidades.

A psicóloga explica que muitas famílias acabam adotando orientações de proteção para evitar riscos durante operações e abordagens policiais. Segundo ela, continuar frequentando a escola ou trabalhando não significa que os moradores tenham superado o medo.

Escolas continuam afetadas pela violência

O impacto sobre a educação também aparece em levantamentos da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

No Complexo do Alemão, o número de escolas municipais que precisaram suspender as atividades ao menos uma vez devido a operações policiais ou confrontos passou de 25 para 29, um aumento de 16% na comparação entre os períodos de outubro de 2024 a setembro de 2025 e outubro de 2025 a setembro de 2026.

Na Penha, 16 unidades escolares foram afetadas em cada um dos dois períodos analisados.

Os dados não representam a quantidade total de dias sem aulas, mas mostram que a violência continuou interferindo no funcionamento das instituições de ensino.

Um estudo do UNICEF, em parceria com o Instituto Fogo Cruzado e pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), também identificou que episódios de violência armada prejudicam os deslocamentos de crianças e adolescentes, dificultando o acesso à educação e a outros serviços públicos.

Famílias procuram atendimento psicológico e assistência

A assistente social Evelin Dias, integrante da Frente Penha, afirma que a violência também provocou mudanças na rotina e nas condições financeiras de famílias atingidas pela operação.

Segundo ela, parte dos moradores perdeu parentes que contribuíam para o sustento da casa. Outras famílias passaram a procurar apoio para lidar com o sofrimento psicológico e obter informações sobre as mortes.

Entre crianças e adolescentes atendidos por iniciativas comunitárias, foram observados comportamentos como agitação, tristeza, isolamento e dificuldade de concentração.

A Frente Penha mantém uma equipe com profissionais de psicologia, serviço social, psicopedagogia e saúde para oferecer acolhimento itinerante à população.

Evelin avalia, porém, que a assistência disponibilizada pelo poder público ainda é insuficiente para atender à demanda das comunidades.

Mortes continuam sob investigação

Um ano depois da Operação Contenção, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) continua investigando as circunstâncias das 122 mortes.

A instituição informou que já apresentou 12 denúncias contra 28 policiais militares por diferentes crimes e irregularidades identificados durante a ofensiva.

As investigações incluem imagens de câmeras corporais, laudos periciais e depoimentos de agentes de segurança e familiares das vítimas.

Enquanto as apurações avançam, moradores e organizações comunitárias cobram políticas públicas de segurança, educação, saúde e assistência social para atender às famílias atingidas e reduzir a exposição de crianças e adolescentes à violência.

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