Dois alunos de Medicina, ambos de 19 anos, são investigados pelo Centro Universitário Imepac, em Araguari, no Triângulo Mineiro, após enviarem mensagens ofensivas contra colegas bolsistas em um grupo de WhatsApp. Os ataques ocorreram na noite de domingo, 25 de outubro, depois da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais.
As ofensas foram direcionadas principalmente a alunos beneficiários do Programa Universidade para Todos (Prouni) e do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), incluindo estudantes que vendem alimentos e outros produtos para ajudar a custear a graduação e as despesas pessoais.
Os áudios foram encaminhados por volta das 21h50 no grupo da turma. Nas gravações, os dois estudantes utilizaram palavrões para atacar colegas e eleitores do PT.
Em uma das mensagens, um aluno mandou os beneficiários dividirem a bolsa com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Outros comentários atacavam diretamente estudantes que comercializam trufas dentro da faculdade.
O episódio levou ao registro de um boletim de ocorrência por difamação na quarta-feira, 28, e à abertura de um processo administrativo disciplinar pela instituição de ensino.
Bolsista que vende trufas relata humilhação
Uma estudante de 21 anos, natural de Uberlândia, relatou ter sido diretamente atingida pelas ofensas. A jovem ingressou no curso de Medicina no início de 2026 e vende trufas para ajudar a pagar as despesas em Araguari.
Ela contou que não havia declarado publicamente sua preferência política durante a campanha eleitoral e que mantinha uma convivência respeitosa com os colegas. “Eu me senti muito humilhada”, afirmou a estudante, que preferiu não se identificar.
Segundo a jovem, mensagens ofensivas contra eleitores do PT já circulavam no grupo antes das eleições. Entretanto, os ataques se intensificaram após a confirmação da vitória de Lula.
A estudante relatou que chorou depois de ouvir os áudios e procurou apoio da família e do namorado. Para ela, as mensagens revelam preconceito contra alunos que dependem de políticas públicas para conseguir cursar Medicina.
Outra bolsista também afirmou ter se sentido ofendida e defendeu a adoção de medidas disciplinares pela faculdade.
Faculdade abre processo disciplinar
Após a repercussão do caso, o Centro Universitário Imepac informou que instaurou um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para investigar a conduta dos estudantes envolvidos.
Em comunicado publicado nas redes sociais, a instituição repudiou manifestações de intolerância e discriminação motivadas por preferências políticas ou condições socioeconômicas.
A faculdade afirmou que a apuração seguirá as normas internas e garantirá o direito de defesa dos envolvidos. Também informou que disponibilizou canais de acolhimento e suporte aos estudantes atingidos.
O Diretório Acadêmico Diogo Guimarães também publicou uma nota de repúdio às manifestações.
Caso foi registrado na Polícia Civil
Um boletim de ocorrência por difamação foi registrado na manhã de quarta-feira, 28, contra os responsáveis pelas mensagens. A Polícia Civil ainda não havia informado se seria instaurado um inquérito para investigar o episódio.
O Imepac também não havia esclarecido quais punições administrativas poderiam ser aplicadas ou se a expulsão dos envolvidos estava entre as medidas consideradas. Os nomes dos estudantes não foram divulgados.