‘A escada acabou’: especialista diz que nova geração estão mudando as regras do mercado de trabalho

Gary Bolles afirma que profissionais mais jovens buscam autonomia, aprendizado contínuo e ambientes saudáveis, trocando a carreira tradicional por trajetórias com múltiplos caminhos.
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A carreira profissional tradicional, marcada pela permanência em uma empresa e pela subida gradual de cargos, está perdendo espaço entre os trabalhadores mais jovens. Essa é a avaliação de Gary Bolles, especialista em futuro do trabalho e autor do livro The Next Rules of Work, que esteve em São Paulo para discutir as transformações no mercado profissional.

Durante sua quarta visita à capital paulista neste ano, Bolles afirmou que as mudanças vão além de uma diferença entre gerações. Para ele, os jovens que cresceram conectados à internet desenvolveram outra relação com informação, oportunidades e hierarquia. O especialista resumiu essa transformação ao dizer que não se trata apenas de uma nova geração, mas de uma “nova espécie de ser humano”.

A declaração foi feita durante o lançamento de um estudo sobre habilidades promovido pela plataforma de educação corporativa Unico Skill. Na avaliação de Bolles, a conectividade ampliou o acesso dos profissionais a informações e alternativas, mudando suas expectativas sobre emprego e desenvolvimento.

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Da carreira em escada ao mapa de trilhas

Uma das principais ideias defendidas por Bolles é que a carreira linear deixou de ser o único modelo possível. Em vez de avançar degrau por degrau dentro de uma mesma organização, os profissionais podem construir trajetórias com diferentes funções, projetos, empresas e fontes de renda.

“A escada acabou. A carreira agora é um mapa de trilhas”, resumiu o especialista.

Na prática, esse modelo pode incluir um emprego formal combinado com projetos independentes, trabalhos temporários, iniciativas empreendedoras ou atividades desenvolvidas fora do expediente. A combinação de diferentes experiências também pode ser uma forma de ampliar competências e reduzir a dependência de uma única oportunidade profissional.

Segundo Bolles, a instabilidade percebida no mercado contribui para que parte dos trabalhadores procure alternativas em vez de concentrar toda a carreira em uma empresa. O modelo, no entanto, também exige planejamento financeiro, atualização constante e capacidade de lidar com períodos de incerteza.

Por que jovens estão menos dispostos a tolerar chefes autoritários?

Para o especialista, profissionais das gerações Z e Y, também conhecida como millennials, tendem a questionar com mais rapidez ambientes de trabalho que consideram incompatíveis com seus valores e expectativas.

Bolles compara esse comportamento ao de gerações anteriores, que frequentemente aceitavam estruturas hierárquicas rígidas e condições insatisfatórias em troca da expectativa de estabilidade. Para muitos trabalhadores mais jovens, essa promessa já não parece garantida.

A possibilidade de buscar vagas, comparar empresas e acompanhar oportunidades pela internet também amplia a percepção de alternativas. Com isso, organizações que oferecem pouca autonomia, escassas oportunidades de aprendizado ou ambientes considerados tóxicos podem enfrentar dificuldades para atrair e manter profissionais.

Isso não significa que todos os jovens tenham as mesmas prioridades ou que a flexibilidade seja acessível a qualquer trabalhador. Renda, responsabilidades familiares, qualificação e condições econômicas influenciam diretamente a liberdade para mudar de emprego ou acumular atividades.

O que o especialista destaca sobre os brasileiros?

Bolles afirmou que mantém o Brasil em sua agenda de visitas por enxergar entre os profissionais brasileiros uma disposição para aprender, explorar novos setores e buscar oportunidades. Ele descreveu essa postura como uma mentalidade “ancorada na esperança”.

Na visão do autor, a disposição para desenvolver novas habilidades pode se tornar uma vantagem em um mercado no qual as exigências profissionais mudam com rapidez. A formação inicial continua relevante, mas precisa ser acompanhada por atualização e aprendizagem ao longo da carreira.

Esse cenário ajuda a explicar o interesse crescente de empresas por programas de educação corporativa, capacitação digital e desenvolvimento de competências. Para os trabalhadores, aprender novas ferramentas e demonstrar capacidade de resolver problemas pode abrir caminhos para mudar de área ou assumir novas funções.

Gary Bolles construiu a própria carreira fora do caminho tradicional

A trajetória do especialista tem relação direta com as ideias que defende. Bolles é filho de Richard Nelson Bolles, autor do conhecido guia de orientação profissional Qual é a Cor do Seu Paraquedas?

Segundo o relato apresentado em sua trajetória profissional, Gary não concluiu um diploma universitário formal e passou por 27 empregos nos primeiros dez anos de carreira. Hoje, identifica-se com o grupo chamado STAR, sigla em inglês para profissionais que desenvolveram suas habilidades por caminhos alternativos — Skilled Through Alternative Routes.

O conceito reúne pessoas que adquiriram competências por meio de experiências práticas, formação técnica, cursos e outros percursos que não necessariamente passam por um diploma universitário tradicional. A ideia é reconhecer habilidades demonstráveis, sem considerar apenas o histórico acadêmico do candidato.

O que muda para as empresas?

O modelo descrito por Bolles exige que empresas repensem a forma de contratar, desenvolver e reter talentos. Planos de carreira exclusivamente verticais podem não responder às expectativas de profissionais que buscam mobilidade entre áreas, projetos variados e oportunidades frequentes de aprendizado.

Entre as alternativas estão programas de capacitação contínua, mobilidade interna, maior autonomia na execução das tarefas e critérios de progressão que valorizem competências demonstradas. A qualidade da liderança e do ambiente de trabalho também pode influenciar a decisão de permanecer ou procurar outra oportunidade.

Para governos e instituições de ensino, a transformação reforça a importância de ampliar o acesso à requalificação profissional. Cursos modulares, formação técnica e iniciativas de atualização podem ajudar trabalhadores de diferentes idades a acompanhar mudanças tecnológicas e novas exigências de mercado.

Flexibilidade também traz desafios

Embora trajetórias profissionais diversificadas possam ampliar as possibilidades de escolha, elas não eliminam os riscos. A alternância entre empregos e projetos pode significar renda variável, períodos sem trabalho e maior responsabilidade individual pelo planejamento financeiro e pela atualização das competências.

O acesso desigual à internet, à formação e às redes de contatos também pode ampliar a distância entre quem consegue aproveitar as novas oportunidades e quem enfrenta barreiras para se requalificar. Por isso, a adaptação ao novo mercado depende não apenas de iniciativa individual, mas também de oportunidades concretas de formação e inclusão.

Conselho aos jovens: encontre um problema para resolver

Ao falar sobre o início da vida profissional, Bolles questionou a pressão para que os jovens encontrem desde cedo um propósito definitivo. Em vez de buscar uma resposta única sobre o que fazer pelo resto da vida, ele sugere identificar problemas que despertem interesse e desenvolver capacidade para solucioná-los.

“Apaixone-se por um problema e fique tão bom em resolvê-lo que as pessoas serão obrigadas a te pagar”, afirmou o especialista.

A recomendação é concentrar esforços em desafios concretos, desenvolver habilidades úteis e aprofundar conhecimentos ao longo do tempo. Essa abordagem permite que o profissional mude de empresa, função ou setor sem perder de vista a experiência acumulada.

A mensagem central de Bolles é que a carreira já não precisa seguir uma única rota. Em um mercado em transformação, a capacidade de aprender, resolver problemas e adaptar competências pode ser tão importante quanto o cargo ocupado ou o nome da empresa no currículo.

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