A carta divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após sua chegada aos Estados Unidos provocou reações de políticos, partidos e autoridades brasileiras. O documento, publicado na quarta-feira (28), contesta a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais de 2026 sem apresentar provas de fraude. Até mesmo aliados do senador se distanciaram das acusações e defenderam o reconhecimento do resultado oficial.
Entre as manifestações estão as do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e do senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial de Flávio.
A repercussão ocorre enquanto a Polícia Federal investiga como o parlamentar deixou o Brasil, apesar de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que proibia sua saída do país.
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Aliados de Flávio Bolsonaro se distanciam das acusações de fraude
O governador Tarcísio de Freitas, que apoiou Flávio durante a disputa presidencial, defendeu o respeito à decisão dos eleitores. Embora tenha reconhecido a insatisfação do senador com o resultado, afirmou que o processo eleitoral deve ser considerado encerrado.
A manifestação sinalizou uma diferença entre a posição adotada pelo governador e o discurso apresentado por Flávio no documento divulgado nos Estados Unidos.
Rogério Marinho também evitou endossar as acusações. O senador afirmou que nem ele nem o PL poderiam sustentar a existência de fraude eleitoral sem elementos que comprovassem a irregularidade.
Marinho já havia demonstrado surpresa com a saída do ex-candidato do Brasil. Segundo ele, integrantes do partido discutiam a possibilidade de Flávio assumir a liderança da oposição ao governo Lula após receber quase 60 milhões de votos no segundo turno.
A decisão de viajar para os Estados Unidos, sem comunicar previamente alguns de seus principais aliados, alterou esse planejamento político.
Valdemar Costa Neto critica carta divulgada nos Estados Unidos
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também manifestou insatisfação com o documento apresentado pelo senador.
Após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, em Brasília, Valdemar afirmou que não havia gostado da carta e defendeu que a legenda continuasse suas atividades políticas normalmente.
O dirigente declarou ainda que Jair Bolsonaro não havia sido informado antecipadamente sobre a decisão de Flávio de deixar o país.
As manifestações mostram que a reação ao documento não ficou restrita a adversários políticos. Integrantes do próprio campo conservador passaram a questionar a estratégia adotada pelo senador depois da derrota eleitoral.
Flávio se declarou presidente eleito antes de alterar documento
A primeira versão da carta apresentava Flávio Bolsonaro como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, apesar da vitória de Lula reconhecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Pouco depois, o texto foi modificado. A expressão que atribuía ao senador a condição de presidente eleito foi substituída pela denominação de líder do Brasil.
O documento também passou por uma alteração visual. A versão inicial utilizava um brasão antigo, com a inscrição Estados Unidos do Brazil. Posteriormente, o símbolo foi substituído pelo brasão oficial da República Federativa do Brasil.
Mesmo após as mudanças, Flávio manteve críticas ao sistema eleitoral e à atuação do Judiciário.
O senador questionou especialmente a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que determinou a prorrogação do horário de votação no segundo turno, realizado em 25 de outubro.
A medida permitiu que eleitores votassem até as 19h. O parlamentar alegou que a determinação comprometeu a legitimidade do processo, mas não apresentou provas capazes de demonstrar fraude ou alteração do resultado.
Autoridades eleitorais reafirmam validade da vitória de Lula
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que as eleições ocorreram dentro da legalidade e que o resultado divulgado corresponde à votação registrada nas urnas.
O MDB e o União Brasil também reconheceram o resultado eleitoral, enquanto representantes de diferentes partidos defenderam o respeito às instituições.
No segundo turno, Lula recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%.
A diferença foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos.
A Organização dos Estados Americanos (OEA), que acompanhou o processo eleitoral brasileiro, também reconheceu a integridade dos dados oficiais.
Embora tenha apontado preocupações sobre decisões judiciais individuais e a prorrogação do horário de votação, a missão internacional informou não haver dúvidas sobre a confiabilidade dos números divulgados pela Justiça Eleitoral.
Saída de Flávio Bolsonaro é investigada pela Polícia Federal
Além da controvérsia provocada pela carta, a viagem do senador aos Estados Unidos permanece sob investigação.
Segundo a Polícia Federal, Flávio deixou o território brasileiro pela fronteira com a Argentina na noite de terça-feira (27). De lá, embarcou em uma aeronave particular e chegou a Miami na manhã seguinte, acompanhado da esposa e das duas filhas.
A corporação informou que não encontrou registros oficiais de passagem do senador por postos brasileiros de controle migratório durante o deslocamento.
Antes da viagem, Alexandre de Moraes havia determinado que Flávio entregasse seus passaportes e não deixasse o país. A decisão foi adotada após solicitação da Polícia Federal, que apontou risco de fuga em investigações envolvendo o parlamentar.
Os passaportes brasileiros do senador foram cancelados, e um alerta migratório foi inserido nos sistemas de controle de fronteira.
Flávio é investigado em procedimentos relacionados a suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Ele nega irregularidades e afirma ser alvo de perseguição política.
A Polícia Federal esclareceu que o descumprimento de restrições relacionadas a documentos de viagem não transforma automaticamente uma pessoa em foragida nem autoriza, por si só, a prisão.
Carta também repercute fora do Brasil
No documento divulgado após chegar aos Estados Unidos, Flávio agradeceu aos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, pelo apoio recebido durante sua saída do território brasileiro.
A manifestação ganhou destaque na imprensa internacional por questionar o resultado da eleição presidencial brasileira e por anunciar a intenção de liderar a oposição a partir do exterior.
Nos Estados Unidos, integrantes democratas do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados criticaram o tratamento oferecido pelo governo Trump ao senador brasileiro.
No Brasil, o presidente Lula também comentou a saída de Flávio e classificou a decisão como vergonhosa, defendendo o cumprimento das determinações judiciais.
Já aliados do parlamentar sustentam que a viagem ocorreu em razão do que consideram perseguição política e afirmam que ele pretende continuar participando do debate público brasileiro.
Próximos passos
A Polícia Federal deverá continuar apurando as circunstâncias da viagem e encaminhar as informações relevantes ao Supremo Tribunal Federal.
No campo político, o PL enfrenta discussões sobre como organizar a oposição ao próximo mandato de Lula e qual será o papel de Flávio Bolsonaro nesse processo.
O senador anunciou que pretende manter sua atuação política a partir dos Estados Unidos, mas ainda não há definição sobre quando poderá retornar ao Brasil.
Enquanto isso, o resultado das eleições presidenciais permanece reconhecido pela Justiça Eleitoral, e as acusações de fraude apresentadas por Flávio seguem sem comprovação.