A recente filiação do vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth, ao MDB provocou um abalo sísmico nos bastidores políticos do estado. O movimento não é apenas uma troca de sigla partidária, mas a consolidação de uma nova aliança estratégica do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que passa a escantear o PSD de Gilberto Kassab para priorizar o partido do prefeito da capital, Ricardo Nunes.
A manobra desenha o cenário não apenas para a disputa à reeleição neste ano, mas também pavimenta o caminho da direita para as eleições de 2030.
O acordo para 2030
Se a chapa Tarcísio-Ramuth for reeleita agora em 2026, o plano de fundo envolve a desincompatibilização do governador em 2030 para disputar a Presidência da República ou o Senado.
Nesse cenário, Ramuth assumiria o Palácio dos Bandeirantes já como um representante do MDB, com a missão de “esquentar a cadeira” e apoiar o próprio Ricardo Nunes na corrida ao governo estadual. A aliança reforça os laços criados em 2024, quando Tarcísio foi peça-chave para a vitória de Nunes na capital. Em troca, o MDB — liderado nacionalmente por Baleia Rossi e Michel Temer — deve garantir suporte irrestrito ao projeto nacional do atual governador.
Menos dependência do Bolsonarismo
A costura política tem um segundo objetivo claro: reduzir a dependência de Tarcísio em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a Valdemar Costa Neto, presidente do PL.
Ao fortalecer sua base com a capilaridade do MDB e encorpar seu próprio partido (o Republicanos) com nomes de peso no interior, como o ex-governador Rodrigo Garcia e o ex-deputado Vaz de Lima, Tarcísio constrói uma alternativa de centro-direita mais autônoma e pragmática para o seu futuro político.
O dilema de Kassab
O grande perdedor do arranjo é Gilberto Kassab. O presidente do PSD, que apostou alto em Tarcísio em 2022, tem reclamado a interlocutores de “abandono”. O acordo original, segundo bastidores, previa que o próprio Kassab substituísse Ramuth na chapa de vice neste ano.
Apesar da insatisfação, Kassab encontra-se sem margem para manobras radicais. Romper com Tarcísio para apoiar o PT de Fernando Haddad é inviável, já que sua base de prefeitos e deputados em São Paulo rejeita a esquerda. Resta ao PSD engolir o recuo e tentar se manter na órbita governista para garantir a eleição de uma bancada robusta no Legislativo.