O quinto dia do julgamento pela morte de Henry Borel foi marcado por um dos depoimentos mais aguardados do processo. Pai do menino, Leniel Borel prestou depoimento ao Tribunal do Júri do Rio de Janeiro nesta sexta-feira (29) e afirmou acreditar que a morte do filho pode ter sido premeditada.
Durante o relato, Leniel revisitou os últimos dias de convivência com Henry e descreveu situações que, segundo ele, só ganharam um novo significado após a conclusão das investigações. Uma das principais suspeitas levantadas por ele envolve a insistência para que o menino retornasse ao apartamento onde vivia com a mãe, Monique Medeiros, e o então companheiro dela, o ex-vereador Dr. Jairinho.
Segundo o pai da criança, comportamentos que antes pareciam comuns passaram a ser interpretados de forma diferente diante das informações reveladas ao longo do processo. Em plenário, ele afirmou que hoje vê indícios de planejamento nos acontecimentos que antecederam a morte do filho.
A declaração levou a magistrada responsável pelo julgamento a observar que essa interpretação não havia sido apresentada por Leniel em depoimentos anteriores prestados durante a investigação.
Últimos momentos com o filho
Em um dos momentos mais emocionantes da audiência, Leniel relembrou o último fim de semana ao lado de Henry. Ele contou que buscou o menino e percebeu marcas no nariz e um hematoma em uma das pernas. Ao questionar a criança sobre os ferimentos, disse ter recebido respostas vagas, sem uma explicação clara para as lesões.
Ainda segundo o depoimento, o fim de semana transcorreu normalmente. Pai e filho participaram de atividades de lazer, incluindo passeio em shopping, encontro familiar e uma festa infantil. Leniel afirmou que, naquele período, Henry brincou, se divertiu e não demonstrou qualquer sinal aparente de problema de saúde.
Outro trecho que chamou atenção dos jurados ocorreu quando Leniel descreveu a volta do menino para a casa da mãe.
De acordo com o relato, Henry demonstrou resistência ao saber que retornaria ao apartamento onde Monique morava com Jairinho. O pai afirmou que a criança ficou nervosa, não queria sair de seu colo e chegou a dizer que a mãe “não era boa”.
Leniel contou ainda que precisou convencer o filho a voltar, prometendo que eles procurariam um novo lugar para morar no futuro. Segundo ele, apenas após essa conversa Henry aceitou deixar o local.
O pai também afirmou que, após a separação do casal, começou a perceber que o menino demonstrava desconforto sempre que precisava retornar ao condomínio onde a mãe residia.
Relacionamento e descoberta de Jairinho
Durante o depoimento, Leniel também falou sobre a relação que manteve com Monique Medeiros. Ele relatou que os dois se conheceram em 2011, se casaram no ano seguinte e tiveram Henry em 2016.
Segundo ele, a separação aconteceu em outubro de 2020, após a descoberta de mensagens no celular da então esposa. Posteriormente, afirmou ter identificado que as conversas eram com Jairinho, que viria a assumir relacionamento com Monique.
Réus deixaram o plenário
Monique Medeiros e Dr. Jairinho não acompanharam o depoimento de Leniel até o fim.
De acordo com informações apresentadas durante o julgamento, Jairinho foi dispensado da sessão, enquanto Monique recebeu atendimento médico após a exibição de fotografias do corpo do filho e também deixou o plenário.
O julgamento também contou com depoimentos de especialistas que participaram da investigação.
Os peritos sustentaram que os ferimentos identificados em Henry ocorreram quando a criança ainda estava viva e descartaram a hipótese de que as lesões tenham sido provocadas por procedimentos de reanimação realizados por equipes médicas.
Os laudos apontam que a morte foi causada por hemorragia interna decorrente de uma grave laceração hepática associada a múltiplos traumatismos. Segundo os especialistas, os ferimentos são incompatíveis com acidente doméstico.
Relembre o caso
Henry Borel morreu na madrugada de 8 de março de 2021, aos 4 anos, após ser levado ao Hospital Barra D’Or, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
As investigações concluíram que a criança apresentava diversas lesões pelo corpo e que a morte foi resultado de agressões. O caso provocou repercussão nacional e levou à criação da Lei Henry Borel, que ampliou mecanismos de proteção a crianças e adolescentes vítimas de violência.
Dr. Jairinho responde por homicídio qualificado e tortura. Monique Medeiros é acusada de participação no crime e de descumprimento do dever de proteção do filho. Ambos negam envolvimento na morte da criança.
O julgamento segue em andamento no II Tribunal do Júri do Rio de Janeiro.