Na Palma da Mão: Novo aplicativo quer mudar o destino de crianças “invisíveis” na fila da adoção

Criado por uma jornalista no Paraná e agora nacionalizado pelo CNJ, o A.Dot aposta em perfis humanizados, com vídeos e relatos de rotina, para superar barreiras geográficas e incentivar adoções tardias.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O sonho de ter uma família muitas vezes esbarra em um relógio implacável para milhares de crianças e adolescentes nos abrigos brasileiros. Na fila tradicional de adoção, quanto mais o tempo passa, menores parecem ser as chances, já que a maioria dos pretendentes ainda busca bebês ou crianças muito pequenas.

Foi justamente ao perceber que milhares de jovens acabavam “invisíveis” nesse sistema que a jornalista Adriana Milczevsky teve uma ideia transformadora: criar o A.Dot, considerado o primeiro aplicativo de adoção do Brasil.

A proposta partiu da premissa de que essas crianças precisavam ser vistas de forma real, e não apenas como números em extensos processos judiciais. Idealizado por Adriana, o projeto nasceu no Paraná e saiu do papel graças a uma força-tarefa que uniu o Tribunal de Justiça do Estado (TJPR), grupos de apoio à adoção e diversos voluntários engajados com a causa.

O sucesso da iniciativa regional para humanizar o processo chamou a atenção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que na última segunda-feira (25) — Dia Nacional da Adoção — lançou a ferramenta em âmbito federal, integrando-a à “busca ativa” do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA).

A força da humanização: vídeos, fotos e rotinas

O grande trunfo do A.Dot é a quebra da frieza burocrática. O aplicativo substitui a rigidez do papel por um ambiente interativo onde os pretendentes, devidamente habilitados, podem conhecer a essência de quem aguarda por um lar.

A plataforma utiliza fotos, vídeos curtos, perfis humanizados e descrições detalhadas da personalidade e da rotina das crianças e adolescentes. A ideia é que um sorriso, um depoimento sincero ou um simples detalhe do dia a dia despertem o afeto e a conexão genuína de uma nova família.

O foco é criar pontes concretas para o público que mais sofre com a espera: crianças mais velhas, adolescentes, grupos de irmãos e jovens com deficiências ou necessidades específicas de saúde. Os números do CNJ revelam a urgência da missão. Atualmente, há 1.801 crianças e adolescentes aptos exclusivamente para a busca ativa no país.

Mais de 90% têm mais de oito anos de idade e mais de 60% possuem pelo menos um irmão. O aplicativo estreou nacionalmente já com 1.787 perfis disponíveis na tela do celular.

Segurança, sigilo e alcance nacional

Lidar com histórias de vulnerabilidade exige extrema cautela. Por isso, a inclusão de qualquer jovem na plataforma depende de rigorosa autorização judicial. O acesso à tecnologia é feito com o login do portal Gov.br, e o uso exige um compromisso inegociável dos pretendentes com a preservação da imagem, da intimidade e da identidade das crianças.

Durante o lançamento, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do CNJ, ministro Edson Fachin, destacou o equilíbrio da ferramenta. “Esse aplicativo permite que pretendentes devidamente habilitados tenham acesso seguro a informações autorizadas, inclusive conteúdo audiovisual, contribuindo para decisões mais conscientes e responsáveis”, pontuou.

 

A estratégia de oferecer uma “visibilidade ética e protegida” já se mostra vital para a manutenção dos laços familiares: segundo os dados do sistema, 65% das adoções por busca ativa conseguem preservar irmãos juntos, um dos maiores gargalos do modelo convencional.

Com a tecnologia encurtando distâncias e conectando corações, o A.Dot deixa de ser apenas um aplicativo para se consolidar como um instrumento de empatia, oferecendo um recomeço real a quem, por tanto tempo, foi invisível

Conheça a emocionante história de Tarsila e Davi.

Eles se conheceram quando Davi tinha apenas 8 anos. Um ano depois, a adoção foi oficializada, marcando o início de uma nova etapa na vida dos dois. Hoje, aos 11 anos, Davi celebra essa trajetória de amor, acolhimento e família.

Assista ao depoimento:

Carregar Comentários