Mulheres negras têm quase o dobro do risco de morrer na gravidez e no pós-parto, aponta estudo

Pesquisa com dados de duas décadas revela desigualdade racial persistente na saúde materna e acende alerta sobre falhas no atendimento a gestantes no Brasil
Redação NC News
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A cor da pele ainda influencia diretamente as chances de sobrevivência durante a gestação no Brasil. Um estudo nacional que analisou duas décadas de dados sobre mortalidade materna revelou que mulheres negras seguem enfrentando risco muito maior de morrer durante a gravidez, no parto ou no período pós-parto quando comparadas às mulheres brancas.

O levantamento identificou que, entre 2000 e 2020, o país registrou 40.907 mortes maternas. Desse total, quase 60% das vítimas eram mulheres pretas e pardas, evidenciando uma desigualdade que especialistas classificam como estrutural e persistente.

Os dados mostram que mulheres negras apresentam quase o dobro do risco de morte materna em relação às mulheres brancas, mesmo após anos de políticas públicas voltadas à redução desse tipo de óbito. Pesquisadores alertam que a diferença não está ligada a fatores biológicos, mas a questões sociais, econômicas e ao acesso desigual aos serviços de saúde.

A mortalidade materna considera os casos de morte ocorridos durante a gravidez ou até 42 dias após o término da gestação, quando relacionados a complicações ligadas ao período gestacional. Apesar da redução observada após os impactos da pandemia de Covid-19, os índices brasileiros continuam acima das metas internacionais e variam significativamente entre diferentes grupos populacionais.

Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece como objetivo reduzir a mortalidade materna para até 70 mortes a cada 100 mil nascidos vivos até 2030. Em 2024, o Brasil registrou índice de 57 mortes por 100 mil nascidos vivos, número que ainda preocupa especialistas da área.

Principais causas das mortes
Segundo o estudo, as principais causas dos óbitos maternos registrados nas últimas duas décadas foram:

condições obstétricas mal definidas: 29,9%;
hipertensão durante a gestação: 21,3%;
complicações no parto: 15,2%;
problemas no período pós-parto: 13,2%;
abortos: 7,8%.
Quase metade das mortes ocorreu justamente após o nascimento do bebê. O período pós-parto concentrou 46,9% dos casos, reforçando a necessidade de acompanhamento médico mesmo após a alta hospitalar.

Especialistas destacam que grande parte dessas mortes poderia ser evitada com diagnóstico precoce, acompanhamento adequado e atendimento rápido diante de complicações.

Mulheres indígenas também estão entre as mais vulneráveis
O estudo aponta que mulheres indígenas enfrentam situação ainda mais crítica. A mortalidade materna nesse grupo é mais de duas vezes superior à observada entre mulheres brancas.

Pesquisadores afirmam que o racismo estrutural influencia diretamente o acesso ao atendimento, a qualidade do acolhimento e até a forma como sintomas e queixas são interpretados pelos serviços de saúde.

Entre os problemas identificados estão:

  • início tardio do pré-natal;
  • dificuldade de acesso a unidades de saúde;
  • falhas no encaminhamento para serviços especializados;
  • menor identificação precoce de gestantes de risco;
  • barreiras sociais e econômicas.

Pré-natal ainda é desafio
Embora a cobertura do pré-natal seja considerada ampla no país, especialistas alertam que a qualidade do acompanhamento continua sendo um dos principais gargalos do sistema público.

Pelas recomendações médicas, uma gestante deveria realizar aproximadamente 15 a 16 consultas ao longo da gravidez. No Sistema Único de Saúde (SUS), porém, o acompanhamento costuma ocorrer com cerca de oito consultas. Além disso, muitas mulheres iniciam o pré-natal tardiamente ou deixam de realizar exames importantes para detectar riscos durante a gestação.

Fatores como falta de profissionais, dificuldade de transporte, infraestrutura precária e desigualdade social também contribuem para agravar o cenário.

Idade aumenta o risco
Outro dado que chamou atenção dos pesquisadores envolve a faixa etária das gestantes.

Entre mulheres pretas com mais de 40 anos, a taxa de mortalidade materna chegou a 301 mortes por 100 mil nascidos vivos. Entre mulheres brancas da mesma faixa etária, o índice ficou em 141 mortes por 100 mil nascidos vivos, menos da metade.

Especialistas defendem que os números reforçam a necessidade de políticas públicas mais direcionadas ao combate das desigualdades raciais na saúde.

Para pesquisadores envolvidos no estudo, reduzir a mortalidade materna exige não apenas melhorias médicas, mas também enfrentamento das desigualdades históricas que afetam mulheres negras e indígenas em todo o país.

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