A proximidade do Mundial, que tem início nesta semana, acendeu um alerta vermelho para a segurança digital no Brasil. As tentativas de fraude envolvendo o torneio cresceram de forma expressiva, impulsionadas pela evolução tecnológica e por novos métodos de pagamento.
De acordo com um levantamento da provedora de segurança NordVPN, 34% dos brasileiros que utilizam a internet relataram ter sofrido algum tipo de contato com golpes ligados ao futebol entre 2024 e 2025. O número representa quase o dobro do registrado no ciclo do Mundial de 2022, quando a incidência era de 19%.
O reflexo desse aumento já lota os canais de defesa do consumidor. O Procon-SP registrou um salto exponencial nas queixas relacionadas ao Mundial nos últimos três meses: foram de apenas 19 reclamações em março para 156 em maio (um aumento de oito vezes).
O que mudou de 2022 para 2026?
A principal diferença no atual cenário de fraudes é a sofisticação e a velocidade de execução dos crimes. Especialistas apontam dois grandes vilões tecnológicos que facilitaram a vida dos golpistas:
Inteligência Artificial Generativa: Há quatro anos, criar sites falsos e campanhas de phishing exigia tempo e conhecimento técnico. Hoje, com a IA, páginas idênticas às oficiais são geradas em poucas horas. Além disso, as abordagens deixaram de ser genéricas e passaram a usar dados vazados (como CPF e e-mail) para criar mensagens altamente personalizadas e convincentes.
Para Gustavo Torrente, especialista em Inteligência Artificial e Cibersegurança, a ideia de que apenas pessoas desatentas caem em golpes não corresponde à realidade atual.
“A Copa do Mundo está chegando e os golpistas estão se aproveitando de velhas armadilhas, só que agora com o apoio de novas tecnologias”, afirma.
Segundo ele, a popularização da inteligência artificial reduziu drasticamente as barreiras para a criação de conteúdos fraudulentos. “Com a ascensão da inteligência artificial, ficou muito simples criar um texto, uma imagem, um vídeo e até mesmo um site. Isso aumentou a capacidade dos criminosos de enganar as vítimas com materiais muito mais convincentes.”
Armadilhas do PIX
Em 2022, o uso de cartões e boletos dava uma margem de tempo para o consumidor contestar a compra. Em 2026, o Pix dominou as fraudes. A instantaneidade e a irreversibilidade das transferências eliminam a janela de reação da vítima, dificultando a recuperação do dinheiro.
Torrente alerta que muitos dos golpes registrados durante o período pré-Mundial utilizam mecanismos já conhecidos, mas potencializados pela tecnologia.
“Sites falsos, produtos muito baratos e promoções irresistíveis são golpes antigos, mas que, com o apoio da tecnologia, continuam fazendo muitas vítimas”, explica.
O especialista recomenda atenção redobrada com links recebidos por aplicativos de mensagens e redes sociais.
“Sempre dê preferência para sites que você já conhece e acessa diretamente. Aquele link com uma oferta boa demais para ser verdade pode levar você a cair em um golpe”, diz.
Um dos exemplos citados por ele envolve produtos ligados ao Mundial. “Se um pacote de figurinhas custa R$ 7 e aparece uma promoção por R$ 4, isso pode parecer muito tentador, mas é um forte sinal de alerta.”
Sobre o Pix, Torrente ressalta que a ferramenta também passou a ser explorada por criminosos. “O Pix veio para facilitar a nossa vida, mas também facilitou a vida dos golpistas. Eles utilizam chaves falsas, QR Codes adulterados e outras estratégias para enganar as vítimas e dificultar a recuperação do dinheiro.”
O especialista conclui com um alerta para o período da Copa do Mundo: “Em tempos de Mundial, é importante desconfiar de promessas fáceis, vídeos suspeitos, notícias sem confirmação e ofertas milagrosas. Quando a emoção entra em campo, os golpistas costumam entrar junto.”
Onde os golpistas estão atacando?
A porta de entrada favorita para as fraudes continua sendo as redes sociais. Os criminosos criam marcas fictícias simulando ser parceiras oficiais do evento ou se infiltram em grupos legítimos de torcedores para aplicar golpes envolvendo apostas ilegais, ingressos falsos e produtos piratas.
O mercado paralelo de figurinhas e álbuns
O mundo físico também não escapou. O comércio de álbuns e figurinhas da Copa virou um grande foco de problemas em marketplaces e grupos de mensagens. Das 238 queixas registradas no Procon-SP entre março e maio, a divisão dos problemas com mercadorias físicas ficou assim:
- 115 casos: Não entrega ou atraso do produto.
- 34 casos: Oferta não cumprida ou venda enganosa (falsificações).
- 24 casos: Produtos incompletos ou diferentes do anunciado.
Como blindar o seu bolso: Checklist de Proteção
Para evitar cair no prejuízo em meio à febre da Copa do Mundo, órgãos de defesa do consumidor e especialistas em segurança cibernética recomendam táticas de prevenção rigorosas antes de fechar qualquer compra online:
- Cuidado com a “urgência”: Ignore gatilhos mentais comuns em golpes, como cronômetros em contagem regressiva ou preços absurdamente abaixo do mercado.
- Investigue o domínio: Utilize serviços como o WHOIS para checar a data de criação do site. Páginas criadas há menos de 30 dias são um forte sinal de fraude.
- Fuga de sites “Só Pix”: Lojas virtuais idôneas oferecem múltiplas formas de pagamento. Se o site só aceita Pix, desconfie, pois você perderá a chance de contestar o valor na operadora do cartão.
- Cheque o CNPJ: Verifique se o CNPJ exibido no rodapé do site realmente pertence ao setor de varejo. Golpistas costumam usar “CNPJs fantasmas” registrados como empresas de consultoria ou construção civil.
- Guarde as provas: Salve todos os anúncios, comprovantes de pagamento e prints de conversas. Caso seja vítima, registre imediatamente um boletim de ocorrência e uma reclamação no Procon mais próximo.