Soberania: indústria química defende agenda estratégica para fortalecer autonomia produtiva do Brasil

Presente em praticamente todas as cadeias produtivas da economia, segmento movimenta US$ 167,8 bilhões por ano e é apontado como peça-chave para segurança econômica do país
Redação NC News
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Em um cenário global marcado por disputas geopolíticas, reorganização das cadeias produtivas, restrições comerciais e crescente busca por autonomia industrial, a indústria química brasileira tem reforçado seu papel como um dos pilares da soberania nacional. Para a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), que representa mais de 150 empresas do setor, o fortalecimento da capacidade produtiva do país tornou-se uma questão estratégica para garantir segurança econômica, competitividade, inovação e desenvolvimento sustentável.

 

A avaliação ganha força em um contexto em que diversas economias passaram a rever sua dependência de fornecedores externos após os impactos provocados pela pelos conflitos internacionais, taxações e pelas sucessivas interrupções logísticas observadas nos últimos meses. O debate global deixou de se concentrar apenas no custo de produção e passou a considerar a capacidade de os países garantirem acesso a insumos, tecnologias e produtos considerados essenciais para sua população e sua economia.

A indústria química ocupa posição singular, já que seus produtos e insumos estão presentes em praticamente todas as atividades produtivas, desde a fabricação de fertilizantes, defensivos agrícolas, medicamentos e equipamentos hospitalares até setores como construção civil, saneamento, energia, mobilidade, defesa, eletrônicos e tecnologias ligadas à transição energética.

“A indústria química é uma infraestrutura estratégica para o desenvolvimento nacional. Quando falamos em soberania, normalmente pensamos em território, recursos naturais ou capacidade militar. Mas soberania também significa ter condições de produzir aquilo que sustenta a economia, abastece a população e garante competitividade ao país. Sem uma indústria química forte, essa autonomia fica comprometida”, afirma André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Abiquim.

 

Base da economia moderna

 

A relevância da indústria química pode ser medida por seus indicadores econômicos. O setor movimenta aproximadamente US$ 167,8 bilhões por ano, responde por 9,7% do PIB da indústria de transformação brasileira e sustenta cerca de 2 milhões de empregos diretos e indiretos em todo o país.

Além disso, é o terceiro maior segmento industrial em arrecadação federal, contribuindo com aproximadamente R$ 41,9 bilhões por ano em tributos. Para a Abiquim, esses números evidenciam que a química não é apenas mais um setor industrial, mas uma atividade estruturante, capaz de impulsionar a competitividade de cadeias produtivas inteiras.

“É impossível pensar em agricultura moderna, saúde, mobilidade, energia limpa, infraestrutura ou inovação tecnológica sem a participação da química. Ela está presente em praticamente tudo o que produzimos e consumimos. Por isso, fortalecer essa indústria significa fortalecer o conjunto da economia brasileira”, destaca Cordeiro.

 

Dependência externa preocupa

Apesar de sua relevância estratégica, a indústria química nacional convive com um crescente avanço das importações. Atualmente, aproximadamente metade dos produtos químicos consumidos no Brasil é proveniente do exterior, tornando o país mais vulnerável a oscilações geopolíticas, interrupções logísticas e movimentos internacionais de proteção industrial.

O resultado dessa dependência aparece na balança comercial do setor, que acumula um déficit superior a US$ 50 bilhões anuais, um dos maiores entre os segmentos industriais brasileiros. Segundo a Abiquim, a situação expõe uma contradição relevante: embora o Brasil possua um dos maiores mercados consumidores do mundo e um parque industrial consolidado, parcela significativa da demanda nacional vem sendo suprida por produtos importados.

 

Ociosidade e potencial de expansão

A entidade destaca que a indústria química brasileira possui capacidade instalada para ampliar sua participação no abastecimento do mercado doméstico. Atualmente, o setor opera com cerca de 40% de ociosidade, o que representa uma importante reserva produtiva capaz de responder ao crescimento da demanda e reduzir a dependência externa sem a necessidade de construir novas plantas industriais no curto prazo.

Para a Associação, essa capacidade instalada constitui um ativo estratégico para o país, especialmente em um ambiente global cada vez mais marcado pela busca por resiliência e segurança das cadeias produtivas. “O Brasil já possui conhecimento técnico, infraestrutura industrial e capacidade produtiva instalada. O desafio é criar condições de competitividade que permitam utilizar esse potencial de forma plena e sustentável”, afirma o presidente-executivo da entidade.

 

Competitividade ainda é desafio

Apesar de suas vantagens estruturais, a indústria química brasileira enfrenta obstáculos que afetam sua competitividade internacional. Entre eles estão os elevados custos de matérias-primas e energia, especialmente do gás natural, principal insumo da atividade. Segundo dados do setor, o preço do gás no Brasil pode chegar a ser até três vezes superior ao observado em mercados concorrentes, como os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo em que busca recuperar competitividade, a indústria química brasileira reúne condições diferenciadas para ocupar posição estratégica na nova economia global de baixo carbono. O país possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com 82,9% da geração proveniente de fontes renováveis, percentual significativamente superior ao observado nas principais economias industrializadas.

Essa característica permite que produtos fabricados no Brasil apresentem menor intensidade de emissões em comparação a concorrentes internacionais, fator cada vez mais valorizado por mercados, investidores e consumidores.

 

Agenda para o futuro

A entidade defende uma agenda de longo prazo voltada ao fortalecimento da competitividade industrial, à ampliação dos investimentos, à modernização regulatória e ao estímulo à inovação. Entre as iniciativas em discussão está o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), concebido para ampliar a competitividade do setor e impulsionar investimentos no país.

Estudos da Abiquim apontam que o programa tem potencial para gerar R$ 112 bilhões adicionais ao PIB, criar aproximadamente 1,7 milhão de empregos e elevar a arrecadação pública em cerca de R$ 65,5 bilhões entre 2027 e 2031.

“A indústria química tem todas as condições para ser protagonista de uma nova etapa de desenvolvimento do Brasil. Temos mercado, capacidade produtiva, conhecimento técnico e vantagens ambientais relevantes. O que precisamos é de uma estratégia consistente que transforme esse potencial em crescimento, inovação e geração de riqueza para o país”, afirma Cordeiro.

 

Soberania produtiva como projeto nacional

 

Para a Abiquim, a discussão sobre soberania não deve ser restrita a questões de defesa ou segurança territorial. Em um mundo cada vez mais interdependente e competitivo, a capacidade de produzir localmente insumos estratégicos tornou-se um componente fundamental da autonomia nacional.

“Soberania é a capacidade de decidir o próprio futuro. E isso depende diretamente da força da nossa base produtiva. A indústria química está na origem de praticamente todas as cadeias econômicas e pode contribuir decisivamente para que o Brasil avance em direção a um modelo de desenvolvimento mais competitivo, inovador e sustentável”, conclui André Passos Cordeiro.

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