Cifrões nos bastidores: Produtora diz que filme sobre Bolsonaro custou R$ 75 milhões, mas laudo omite elo com repasses de Daniel Vorcaro

Produção teve custos no Brasil e nos Estados Unidos; prefeitura de SP também abriu investigação para apurar possível uso de recursos públicos na produção do longa
Redação NC News
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Os bastidores da produção cinematográfica que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro transformaram-se no epicentro de uma complexa investigação policial e municipal. A produtora Go UP Entertainment declarou formalmente à Justiça que o longa-metragem “Dark Horse” custou o montante total de R$ 75 milhões (o equivalente a US$ 13,39 milhões). A revelação dos valores põe ainda mais combustível no inquérito que tenta descobrir a real rota do dinheiro utilizado na obra.

A prestação de contas foi anexada ao processo que apura supostas irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e a ONG Instituto Conhecer Brasil para a instalação de 5 mil pontos de internet pública. A linha de investigação central busca confirmar se houve desvio de finalidade, já que a empresária Karina Ferreira da Gama é proprietária tanto da ONG quanto da produtora do filme.

[INSERIR IMAGEM: REPRODUÇÃO DO LAUDO PARTICULAR ENVIADO À JUSTIÇA]

Defesa alega origem privada, mas laudo ignora Flávio Bolsonaro

Para tentar rebater as suspeitas de uso de verba pública dos contratos de wi-fi, a defesa de Karina da Gama apresentou um laudo pericial particular assinado pelo perito Anísio Costa Castelo Branco. O documento assegura que os ingressos financeiros que sustentaram o filme possuem “origem privada, comprovada por contratos de investimentos, extratos bancários e documentos de remessa”.

No entanto, o relatório técnico trouxe omissões de peso que chamaram a atenção das autoridades:

  • Omissão dos contratos: O laudo não detalha quem são os investidores privados citados e nem anexa os contratos de investimento;

  • Silêncio sobre o caso Vorcaro: O documento não faz qualquer menção aos cerca de R$ 61 milhões que teriam sido pagos a Flávio Bolsonaro pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do antigo Banco Master.

A polêmica ganha força neste sábado (13), data em que completa-se exatamente um mês desde o vazamento dos áudios em que o senador Flávio Bolsonaro aparece cobrando repasses financeiros de Vorcaro de forma explícita. Em mensagem gravada em 8 de setembro de 2025, o parlamentar cobrava agilidade: “Tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme”.

O elo nos EUA: Fundo ligado a aliado de Eduardo Bolsonaro

Outro ponto que desperta a atenção da Polícia Civil e da opinião pública é a estrutura internacional montada para o financiamento da película. Segundo a defesa, os US$ 13,39 milhões foram aportados por um fundo de investimento sediado nos Estados Unidos, chamado Havengate Development Fund LP.

O fundo em questão está diretamente atrelado ao advogado Paulo Calixto, conhecido aliado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. Curiosamente, o currículo profissional de Calixto não apresenta qualquer tipo de experiência prévia nos setores financeiro ou de cinema. Ele é amplamente conhecido por atuar na área de migração e em processos voltados ao visto EB-5, modalidade que concede residência permanente a investidores estrangeiros nos EUA.

Do orçamento total declarado, a produtora apontou que a maior fatia foi consumida fora do país: R$ 54 milhões foram gastos no exterior e R$ 20,9 milhões foram injetados em território nacional.

Prefeitura e Polícia Civil fecham cerco em força-tarefa

Diante da gravidade dos fatos publicados pela imprensa, o caso agora corre sob estrito segredo de Justiça. Paralelamente ao trabalho da polícia, a Controladoria Geral do Município de São Paulo abriu a sua própria frente de auditoria para passar um pente fino nos repasses da internet pública.

A corregedora-geral paulistana, Carolina Magnani Hiromoto, enviou um ofício formal ao delegado responsável pelo caso, Luis Augusto Castilho Storni, solicitando o compartilhamento de todas as provas, depoimentos e quebras de sigilo obtidos no inquérito policial. O pedido de cooperação mútua foi aceito pela polícia, e a controladoria municipal também colocou os seus procedimentos sob sigilo para evitar vazamentos que possam atrapalhar a coleta de novas provas.

O que acontece agora?

Com o processo blindado pelo segredo de Justiça, os próximos passos envolvem a convocação dos peritos, da empresária Karina da Gama e dos operadores financeiros do fundo americano para prestarem depoimentos oficiais. A comissão de fiscalização da Câmara Municipal também acompanha os desdobramentos, cobrando o ressarcimento aos cofres públicos caso fique comprovado que o sinal de internet do trabalhador paulistano foi usado para financiar obra cinematográfica privada. O NC News acompanha de perto os desdobramentos em São Paulo.

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