O mercado global de algodão iniciou o ano de 2026 sob o signo do desequilíbrio. De acordo com o novo relatório da consultoria internacional StoneX, divulgado nesta quarta-feira (25), a abundância de fibra no cenário internacional tem limitado a reação dos preços, mesmo diante da volatilidade causada pelo conflito no Irã. O Brasil, que se consolidou como o maior exportador mundial da commodity, agora monitora de perto o avanço da colheita no Centro-Oeste para equilibrar as vendas externas com as exigências de uma indústria têxtil nacional que busca qualidade, mas enfrenta restrições financeiras.

Protagonismo brasileiro e pressão nos preços
A StoneX e a consultoria Trading Economics divulgaram, nesta quarta-feira, análises que apontam para uma manutenção da pressão sobre os preços do algodão no mercado global em 2026. O fenômeno é explicado por sucessivas revisões para cima na produção mundial, com destaque para a performance recorde da safra brasileira, que injetou cerca de 3 milhões de toneladas no comércio exterior no último ciclo. Apesar da queda nas taxas de juros e da melhoria nas relações comerciais entre grandes potências, as cotações em Nova York (ICE) seguem estagnadas na casa dos 67 centavos de dólar por libra-peso. Para o produtor brasileiro, o desafio agora é gerir a nova safra 2026/27, projetada em 3,74 milhões de toneladas, em um ambiente de custos logísticos elevados e incertezas geopolíticas no Oriente Médio.

Mudança estrutural e o fator Brasil
O mercado de algodão passa por uma fase de reprecificação. Segundo Raphael Bulascoschi, analista da StoneX, os preços deixaram de responder a fatores cíclicos (como política monetária) para refletir fundamentos estruturais: há muito algodão disponível.
Nesse cenário, o Brasil redesenhou o fluxo global. Na safra 2025/26, o país colheu 4,15 milhões de toneladas, garantindo a liderança nas exportações. Embora a Safras & Mercado projete uma queda de 11,5% para o ciclo atual (2026/27), o volume ainda é considerado robusto o suficiente para manter a oferta aquecida, especialmente na América do Sul.
Geopolítica e a disputa com o sintético
A guerra no Oriente Médio adicionou uma camada de cautela. O risco de interrupções nos embarques e o encarecimento da energia e do transporte fazem com que importadores adotem uma postura de espera.
Outro ponto de atenção é a relação direta do algodão com o petróleo. A fibra natural concorre diretamente com o poliéster (sintético derivado do petróleo).
- Petróleo caro: O custo do poliéster sobe, tornando o algodão mais competitivo.
- Petróleo barato: As fibras sintéticas ganham mercado por serem mais acessíveis, reduzindo a demanda pela pluma natural.
Estoques e Cautela
Até o dia 18 de março, os estoques certificados pela ICE registraram queda para pouco mais de 115 mil fardos. Esse aperto pontual oferece um suporte mínimo às cotações, impedindo quedas mais drásticas, mas não é suficiente para uma reversão de tendência. O sentimento geral entre os compradores é de “esperar para ver”, monitorando como os fundamentos de oferta e os riscos de guerra ditarão o ritmo dos próximos meses.