O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma resposta oficial após os Estados Unidos anunciarem a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. Nos bastidores do Palácio do Planalto, a decisão é vista como um movimento de forte impacto político e econômico, especialmente em meio à corrida eleitoral de 2026.
Segundo integrantes do governo, a nota que será divulgada pelo Planalto deve reforçar a cooperação internacional no combate ao crime organizado, mas também demonstrar preocupação com possíveis consequências financeiras da medida, incluindo efeitos indiretos sobre operações bancárias e mecanismos de pagamento como o Pix.
A decisão foi anunciada pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que confirmou que PCC e CV passarão a ser enquadrados como Organizações Terroristas Estrangeiras e também como Terroristas Globais Especialmente Designados a partir de 5 de junho.
Dentro do governo brasileiro, o principal temor é que a medida abra espaço para sanções financeiras internacionais, aumento do controle sobre transações bancárias e possíveis impactos sobre empresas que, direta ou indiretamente, tenham relações comerciais com pessoas ou organizações investigadas por ligação com as facções.
A repercussão política também preocupa o Planalto. O anúncio ocorreu logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, onde ele se reuniu com Donald Trump e Marco Rubio. Aliados do parlamentar passaram a tratar a classificação das facções como uma vitória política da direita brasileira e uma demonstração de alinhamento entre o bolsonarismo e o governo americano.
Nos bastidores, integrantes do governo Lula avaliam que o tema pode se transformar em uma das principais pautas da disputa presidencial deste ano. A segurança pública já vinha sendo apontada por pesquisas e estrategistas como uma das áreas mais sensíveis para o eleitorado brasileiro.
O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, adotou tom cauteloso ao comentar o anúncio. Segundo ele, o Brasil apoia a cooperação internacional para combater lavagem de dinheiro, tráfico de armas e crime organizado, mas rejeita qualquer interpretação que possa servir de justificativa para intervenções externas.
O governo brasileiro argumenta que PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas voltadas ao lucro e não grupos com motivação ideológica ou política, ponto central utilizado pela legislação americana para enquadramentos relacionados ao terrorismo.
Especialistas ouvidos por veículos internacionais afirmam que o maior efeito da decisão não será militar, mas financeiro. A nova classificação amplia mecanismos de bloqueio de bens, rastreamento internacional de recursos e punições contra pessoas, empresas e instituições financeiras que mantenham relações com integrantes ligados às facções.
Atualmente, PCC e Comando Vermelho são considerados os maiores grupos criminosos do Brasil, com atuação em diversos estados e conexões internacionais ligadas ao tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro. Estimativas apontam que as duas organizações somam dezenas de milhares de integrantes e mantêm operações em vários países da América Latina e da Europa.
Com a medida entrando oficialmente em vigor nos próximos dias, o governo Lula tenta construir uma resposta que preserve a cooperação internacional contra o crime organizado sem ampliar o desgaste diplomático com Washington nem fortalecer ainda mais o discurso político da oposição sobre segurança pública.