Candidaturas femininas disparam, mas mulheres ainda ocupam menos de 20% das vagas no Legislativo

Apesar de um aumento de 925% no número de candidatas em 24 anos, as cadeiras ocupadas na Câmara dos Deputados cresceram em um ritmo muito menor.
Redação NC News
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Pesquisadores apontam desigualdade financeira nos partidos e “candidaturas laranjas” como os principais entraves.

O número de mulheres dispostas a entrar na vida pública e disputar uma vaga na Câmara dos Deputados cresceu quase dez vezes entre 1998 e 2022. No entanto, esse salto de participação não se traduziu de forma proporcional na ocupação de cadeiras no Legislativo federal.

Os dados revelam o tamanho do gargalo: enquanto o total de candidatas à Câmara saltou de 358 (1998) para 3.668 (2022) — um aumento expressivo de cerca de 925% —, o número de deputadas federais eleitas passou de apenas 29 para 90 no mesmo período, uma alta de 210%.

Os números inéditos fazem parte do Portal da Classe Política, uma nova plataforma lançada nesta terça-feira (16) pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem), ligado à Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Longe da paridade e da cota

O balanço das eleições de 2022 mostra que as mulheres conquistaram 17,5% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 17,8% das vagas nas assembleias legislativas estaduais. Embora representem os maiores percentuais da série histórica, os números indicam que as mulheres ainda ocupam menos de um quinto da representação parlamentar do país.

O patamar de 18% está muito distante da paridade de gênero ideal (50%) e não reflete sequer o piso de 30% exigido por lei para o lançamento de candidaturas proporcionais.

Para os pesquisadores, a Lei das Cotas de Gênero (1997) e a Minirreforma Eleitoral (2009) foram fundamentais para impulsionar o número de candidaturas, mas a legislação, por si só, não garantiu condições equivalentes de competição nas urnas.

A barreira dentro dos partidos

O cientista político Nilton Sainz, pesquisador responsável pelo portal, aponta que o teto de vidro da política brasileira é sustentado pelos mecanismos de poder internos dos próprios partidos.

O principal obstáculo é o controle dos recursos de campanha. “Há um acesso muito desigual no financiamento. As mulheres recebem menos recursos e costumam receber os valores mais em materiais de campanha, enquanto homens recebem mais em dinheiro”, explica Sainz. Além disso, as mulheres são sistematicamente excluídas dos cargos de decisão partidária, o que impacta diretamente na visibilidade e no tempo de propaganda na televisão.

Outro fator que distorce os números são as chamadas “candidaturas laranjas” — mulheres registradas pelos partidos apenas para cumprir a cota legal de 30%, sem receberem apoio financeiro ou viabilidade real de disputa.
O impacto da ausência

A sub-representação tem consequências diretas na vida das brasileiras. A exclusão feminina dos espaços de poder silencia debates e reduz o orçamento destinado a políticas públicas essenciais.

“Vamos pegar o exemplo do combate à violência de gênero e ao feminicídio. Podemos citar outros temas como política de cuidados de saúde e criação de creches, que são questões prioritárias para as mulheres. Quando elas são excluídas, […] orçamentos para essas agendas podem ser diminuídos em relação a outras coisas que se tornam prioridades legislativas”, alerta o pesquisador.
Raio-X da política

Além do recorte de gênero, o recém-lançado Portal da Classe Política consolida dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 14 eleições (de 1998 a 2024). A ferramenta transforma a massa de dados em indicadores visuais e auditáveis, permitindo que qualquer cidadão analise o perfil, o patrimônio, o financiamento de campanhas e as taxas de reeleição de candidatos e partidos em níveis municipal, estadual e federal.

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