A pacata ilha de Parintins, no coração da Floresta Amazônica, se transforma a partir desta semana no epicentro da cultura popular brasileira. Entre os dias 26, 27 e 28 de junho, a arena do Bumbódromo sedia a 59ª edição do Festival dos Bois-Bumbás Caprichoso e Garantido, considerado o maior festival folclórico a céu aberto do planeta. A cidade, localizada a cerca de 420 quilômetros de Manaus por via fluvial, já respira a rivalidade histórica que atrai olhares do mundo inteiro para o interior do Amazonas.
A apuração do NC News com as autoridades locais mostra que o impacto econômico do evento é avassalador para a região. O Governo do Amazonas estima que o município receberá um contingente de quase 120 mil turistas ao longo dos três dias de festa. O fluxo de visitantes deve injetar nada menos que R$ 220 milhões na economia parintinense, gerando renda direta para trabalhadores que passam o ano inteiro se preparando para o espetáculo.
Como funciona a disputa e a ordem das apresentações?
O espetáculo na arena é uma competição levada extremamente a sério. Durante três noites seguidas, os bois Caprichoso (representado pela cor azul) e Garantido (representado pela cor vermelha) protagonizam apresentações monumentais de cerca de duas horas cada. O corpo de jurados avalia rigidamente 21 itens coletivos e individuais, que incluem desde a força das toadas e a precisão das coreografias até a grandiosidade das alegorias articuladas que ganham vida na arena.
Para a edição de 2026, a ordem dos bois na passarela do Bumbódromo já foi oficialmente definida. O Boi Caprichoso terá a missão de abrir as três noites de espetáculo, defendendo o tema “Caprichoso: Brinquedo que Canta seu Chão”, uma exaltação às suas raízes operárias e à identidade cabocla. Já o Boi Garantido fechará as noites de apresentação com o tema “Parintins: Portal do Encantamento”, uma grande homenagem à Ilha Tupinambarana e aos mistérios do imaginário amazônico.
Qual o impacto financeiro para a população local?
Conforme dados divulgados pela Prefeitura de Parintins, o festival gerou um verdadeiro boom no mercado de trabalho da cidade. O número de vagas de empregos temporários triplicou nas últimas semanas, puxado principalmente pelos setores de hotelaria, gastronomia e receptivo turístico. Quem deixou para procurar hospedagem na última hora encontrou cenários de lotação esgotada: 100% dos quartos de hotéis e pousadas da ilha estão reservados há meses.
“Essa não é uma paixão que dura apenas três noites. O Festival de Parintins começa muito antes de junho. Durante todo o ano, artistas, músicos, costureiras, soldadores, escultores e brincantes trabalham para colocar de pé um dos maiores espetáculos culturais do Brasil, fundamental para a economia do nosso município”, destacou o prefeito de Parintins, Mateus Assayag.
Como a cidade se divide entre o azul e o vermelho?
A paixão do povo parintinense pelos bois-bumbás ultrapassa as paredes do Bumbódromo e molda a geografia e a rotina do município. A cidade é literalmente dividida ao meio em dois grandes redutos geográficos. De um lado fica a Baixa do São José, território histórico e coração do boi Garantido. Do outro lado está o bairro da Francesa, o reduto tradicional onde pulsa a comunidade do boi Caprichoso.
Essa divisão é tão marcante que afeta até mesmo o comportamento de grandes marcas e empresas multinacionais presentes na ilha. Durante a semana do festival, estabelecimentos comerciais, agências bancárias e produtos de consumo mudam suas embalagens e fachadas originais, dividindo-se em versões azuis e vermelhas para respeitar a torcida do cliente e evitar o boicote de torcedores apaixonados.
O que acontece agora e próximos passos?
Com as gigantescas alegorias de ferro e parintins (espuma e tecido) já posicionadas na área de concentração externa do Bumbódromo, as equipes técnicas realizam os últimos ajustes de iluminação e mecânica nos guindastes. Os galpões de arte dão por encerrada a fase de produção e passam o bastão para os blocos de dança e músicos.
Os portões do Bumbódromo serão abertos ao público no final da tarde desta sexta-feira, dando início à contagem regressiva para o espetáculo. A segurança pública e os sistemas de transporte fluvial e aéreo vindos de Manaus foram severamente reforçados para garantir a circulação pacífica de torcedores e turistas até a apuração das notas, que definirá o grande campeão na segunda-feira subsequente.
Entenda o Contexto
O Festival de Parintins nasceu na década de 1960 como uma brincadeira de rua que unificou diferentes tradições do auto do boi, trazidas por migrantes do Nordeste e fundidas à rica mitologia dos povos indígenas da Amazônia. Ao longo das décadas, a festa deixou de ser um folguedo local para se transformar em uma das indústrias criativas mais potentes do país, exportando técnicas de cenografia utilizadas inclusive nos carnavais de São Paulo e do Rio de Janeiro. A relevância do festival reside na sua capacidade de gerar sustentabilidade financeira isolada no interior da floresta e projetar o orgulho da identidade amazônica. Os próximos desdobramentos consolidam Parintins como um roteiro turístico internacional obrigatório e um pilar de preservação da memória viva do patrimônio imaterial do Brasil.