O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, enfrenta na segunda quinzena de junho de 2026 a contestação aberta de colegas sobre seu modo de comandar a corte. Em meio a crises sucessivas, ministros veem na liderança reservada do magistrado um fator de desgaste interno justamente quando o tribunal tenta aprovar uma nova súmula vinculante para conter as chamadas pautas-bomba no Congresso.
Liderança por WhatsApp e conflitos em aberto
Ministros descrevem um presidente distante, que privilegia mensagens longas e formais em grupos de WhatsApp e encontros protocolares na sede do tribunal. A avaliação de cinco magistrados, ouvidos sob reserva pela coluna de Bela Megale, é de que essa presença discreta deixa vácuos em momentos de confronto direto entre colegas.
Um deles resume o incômodo ao apontar que o presidente não leva a conversa para fora do gabinete. “Ele realiza os almoços protocolares na Presidência. Mas esse tipo de desavença se resolve em outro ambiente. Tem que fazer um encontro em casa, reunir os ministros para tomar um uísque, conversar”, afirma o integrante do STF.
A comparação com a gestão anterior é inevitável. Luís Roberto Barroso, que deixa a presidência em 2025, promove jantares e encontros informais para costurar votos e amortecer choques. Fachin, no comando desde o início de 2026, mantém uma postura mais solene e distante. O contraste fica evidente no episódio mais recente de tensão: o embate público entre Gilmar Mendes e André Mendonça no caso Banco Master.
O conflito, ligado a suspeitas de pagamentos de R$ 80 milhões em dois anos do Banco Master ao escritório da esposa de Alexandre de Moraes e a negócios de Dias Toffoli com fundo ligado à instituição, expõe o desgaste interno. Colegas cobram do presidente uma mediação mais visível para evitar que divergências transbordem para entrevistas e despachos cruzados.
Código de ética sob fogo e críticas em rede nacional
No dia 22 de junho, no programa Roda Viva, da TV Cultura, o decano Gilmar Mendes transforma em público o incômodo com a forma como Fachin conduz a agenda interna. O alvo direto é o projeto de código de ética, apresentado pelo presidente como bandeira de sua gestão e entregue à relatoria de Cármen Lúcia em fevereiro.
Gilmar afirma que houve um “entusiasmo juvenil” em torno do “código do Fachin” e diz que a proposta nasce sem diálogo suficiente dentro da própria corte. “Ele se reuniu talvez mais com pessoas que o aconselharam, aqui de São Paulo, e menos com os colegas”, critica o ministro, ao comentar a forma como a minuta é construída.
O decano também questiona o timing da iniciativa, apresentada no auge das suspeitas envolvendo Toffoli e Moraes no caso Master. “Obviamente que isso não ia reunir o colegiado, não ia reunir votos”, afirma. Em seguida, sugere aguardar um cenário menos inflamado para eventual votação. Ainda assim, tenta afastar a imagem de adversário direto do projeto. “Não tenho medo de código de ética coisa nenhuma”, diz, ao defender regras de transparência, mas sem vincular o tema à crise em torno de colegas específicos.
As declarações chegam às vésperas da celebração dos 24 anos de Gilmar no STF, completados em 18 de junho de 2026, e reforçam seu papel de voz mais experimentada da casa. No mesmo programa, o ministro volta a criticar o relator André Mendonça no caso Master, chamando de “erro crasso” a negociação de delação diretamente com os advogados do banqueiro Daniel Vorcaro.
O decano usa o episódio para questionar o próprio modelo de delações no país. “Não temos doutrina sobre isso. Tanto é que há um grupo razoável de advogados que se recusa a trabalhar a ideia de delação”, afirma, sugerindo que o Brasil ainda tateia na adaptação do instrumento ao seu sistema jurídico.
Súmula contra pautas-bomba e disputa pelo protagonismo fiscal
Enquanto enfrenta críticas ao seu estilo de comando, Fachin dá andamento a uma das iniciativas mais ambiciosas da gestão: a súmula vinculante contra pautas-bomba, proposta por Gilmar Mendes. O edital que torna pública a minuta é publicado no dia 22 de junho e abre um prazo de 20 dias para manifestações de interessados, seguido de outros 5 dias para respostas adicionais.
A ideia é simples na forma e profunda no impacto. A súmula interpretaria de forma rígida o artigo 113 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal. Na prática, impediria que o Congresso aprove projetos que criem despesas obrigatórias ou ampliem renúncias de receita sem apresentar, de antemão, estimativa detalhada do impacto sobre o orçamento.
Se aprovada, a súmula passa a ter efeito obrigatório sobre todo o poder público. Hoje, o STF mantém 61 súmulas vinculantes em vigor, sendo a última aprovada em setembro de 2025. Para que a nova regra entre na lista, Fachin precisa articular pelo menos dois terços dos votos dos colegas, o que equivale a 8 ministros em um plenário completo, ou 7 na composição atual.
No governo, a proposta é vista como reforço importante ao Ministério da Fazenda, chefiado por Dario Durigan. O ministro sugere ajustes no texto para abarcar casos em que o Legislativo obriga o Executivo a criar programas ou ampliar gastos sem indicar fontes de custeio. A súmula daria ao Planalto mais munição para barrar projetos com forte apelo político, mas que pressionam o déficit público.
No Congresso, o clima é de cautela. Parlamentares enxergam na medida um freio ao poder de formular políticas de impacto imediato, especialmente em anos eleitorais. A eventual aprovação da súmula tende a deslocar para o STF a palavra final sobre quais propostas podem ou não prosperar, ampliando o protagonismo da corte em temas fiscais sensíveis.
Liberdade de expressão, ativismo e desgaste da imagem
As tensões em torno da liderança de Fachin se somam ao debate recorrente sobre o alcance das decisões individuais de ministros em temas políticos. No caso mais recente, Kassio Nunes Marques, também ministro do STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, suspende a divulgação de uma pesquisa Atlas/Bloomberg a pedido do senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio.
O levantamento on-line incorpora áudios de conversas entre o parlamentar e o banqueiro Daniel Vorcaro, o que motiva a reação de Flávio. A decisão monocrática provoca desconforto entre colegas. Gilmar antecipa que o entendimento não deve resistir ao crivo do plenário. “Já até adivinho que haverá reclamações aos borbotões no Supremo, alegando, no mínimo, a tal da ADPF 130, da liberdade de expressão. Certamente, não é uma jurisprudência que vai se manter”, afirma.
O episódio reforça a percepção de que o Supremo permanece no centro do tabuleiro político, ora como escudo da liberdade de expressão, ora como alvo de acusações de ativismo. Fachin herda esse cenário de desgaste, marcado por ações sobre pandemia, impeachment de ministros e conflitos com o Congresso. Sua aposta em códigos de conduta e súmulas fiscais busca sinalizar institucionalidade, mas esbarra na necessidade de articulação miúda, voto a voto.
Um STF em busca de coesão
Os próximos meses serão decisivos para medir a capacidade de Fachin de reverter a imagem de “presidente por WhatsApp” e construir maioria em temas estruturais. A tramitação da súmula contra pautas-bomba tende a concentrar pressões do governo, do Congresso e de grupos econômicos, exigindo conversas reservadas e gestos de liderança mais visíveis.
Dentro do tribunal, a resistência ao código de ética e as críticas do decano expõem fraturas que vão além de estilos pessoais. A corte tenta, ao mesmo tempo, preservar sua autonomia, responder a crises de imagem e delimitar sua intervenção em assuntos políticos. O sucesso ou fracasso da gestão Fachin nesse equilíbrio deve influenciar não apenas o destino da súmula, mas o modo como o STF atravessa o ciclo eleitoral de 2026 e reconstrói sua relação com a sociedade.
Quem colocou Edson Fachin no STF?
Edson Fachin é indicado ao Supremo pela então presidente Dilma Rousseff, em 2015, após aprovação de seu nome pelo Senado Federal.
Qual foi o ministro do Supremo que não era formado em Direito?
Na história recente do STF, todos os ministros são formados em Direito. Já houve, no Império e nas primeiras décadas da República, exceções fora do atual modelo.
Quem libertou Lula?
A saída de Luiz Inácio Lula da Silva da prisão, em novembro de 2019, decorre de decisão colegiada do STF sobre prisão após segunda instância, não de um único ministro.
O que aconteceu com o ministro Edson Fachin?
Fachin assume a presidência do STF em 2026 e passa a ser alvo de críticas internas por seu estilo reservado de liderança, em meio a crises e decisões de alto impacto.