Em 24 horas, Mogi registra duas mortes de pessoas em situação de rua

Mulher de 43 anos é a segunda morte registrada em Mogi das Cruzes. Município tem registrado baixas temperaturas nos últimos dias
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A combinação cruel entre a dependência química e as baixas temperaturas do inverno paulista acendeu o sinal de alerta máximo na Grande São Paulo. Na manhã de quinta-feira (25), uma mulher de 43 anos em situação de rua foi encontrada morta no centro de Mogi das Cruzes. O caso chocou a região por se consolidar como o segundo óbito registrado nas calçadas do município em um intervalo de apenas 24 horas. Na véspera, quarta-feira (24), um homem de 44 anos também perdeu a vida nas mesmas condições de vulnerabilidade.

De acordo com o relatório emitido pela Secretaria de Segurança Pública (SSP), o corpo da mulher foi localizado por transeuntes e não apresentava nenhum sinal visível de violência física. Equipes do Instituto de Criminalística e a perícia médica foram acionadas de imediato para isolar a área, e a ocorrência foi registrada no distrito policial local como “morte suspeita” até a conclusão dos laudos do Instituto Médico Legal (IML).

Histórico de recusas e o drama familiar de bastidores

Mogi das Cruzes tem enfrentado uma massa de ar frio intensa. Na manhã de quinta-feira, os termômetros da cidade bateram a mínima de 10,5°C, enquanto na noite anterior a temperatura já havia despencado para 12,6°C. Segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social, a vítima estava vivendo ao relento há cerca de seis meses, após o agravamento de seu quadro de dependência do álcool.

A prefeitura informou em nota oficial que a mulher possuía familiares no município e que os parentes tentavam de tudo para convencê-la a retornar para a casa, mas ela recusava o acolhimento. A rede de proteção social realizou 12 atendimentos nos últimos 60 dias, incluindo uma internação em hospital municipal devido ao agravamento de doenças crônicas, mas ela pediu alta por conta própria.

A última abordagem: Às 17h de quarta-feira, poucas horas antes de falecer, equipes da prefeitura localizaram a mulher nas ruas. Ela rejeitou a entrega de cobertores e o encaminhamento para o abrigo público, alegando que tinha roupas de frio suficientes e que pagaria uma pernoite em um hotel com recursos próprios.

Primeira morte: Homem passou 10 anos nas calçadas

O primeiro óbito foi registrado pela Polícia Militar por volta das 6h45 de quarta-feira. O homem de 44 anos que perdeu a vida mantinha uma rotina de quase uma década vivendo nas ruas de Mogi das Cruzes, motivado pelo rompimento de vínculos familiares decorrente da dependência química.

[INSERIR INFOGRÁFICO: COMO FUNCIONA A REDE DE ACOLHIMENTO EM MOGI]

Os registros da Assistência Social de bastidores mostram que o Estado tentou reinseri-lo por diversas vezes. Ao todo, constavam quase 400 atendimentos direcionados a ele ao longo dos anos. O homem chegou a ser acolhido de forma permanente por três vezes nas estruturas municipais, mas acabava fugindo dos abrigos para retornar ao vício. Na véspera de sua morte, uma vaga para pernoite em uma instituição parceira estava reservada exclusivamente para ele, mas não foi utilizada.

Operação Inverno e o desafio da adesão voluntária

Diante do duplo óbito, a gestão municipal reforçou as diretrizes táticas da chamada “Operação Inverno”, força-tarefa que permanece ativa de 1º de junho a 31 de agosto para proteger as populações das classes C and D em situação de extrema vulnerabilidade térmica.

A prefeitura ressaltou em nota enviada ao Metrópoles que, por determinação da legislação brasileira de direitos civis, a adesão aos serviços ofertados e o acolhimento nos abrigos ocorrem de forma estritamente espontânea por parte do cidadão. Os agentes de assistência social não possuem poder legal para recolher ninguém à força, o que transforma o trabalho de convencimento em uma missão complexa e diária de bastidores, dependendo da construção de laços de confiança com os dependentes para evitar novas perdas de vidas nas madrugadas mais frias do ano.

Entenda o Contexto

O registro de mortes sucessivas de pessoas em situação de rua durante os meses de inverno expõe os limites das políticas de assistência social baseadas exclusivamente na adesão voluntária do usuário em casos severos de dependência química e alcoolismo crônico. O vício em substâncias entorpecentes frequentemente compromete a capacidade de julgamento e percepção de risco do indivíduo, fazendo com que ele recuse agasalhos e abrigos aquecidos mesmo sob ameaça iminente de hipotermia. A relevância da Operação Inverno em Mogi das Cruzes reside na necessidade de criar estratégias ativas de redução de danos de bastidores que vão além da mera oferta de leitos, exigindo uma integração urgente com as redes de saúde mental e psiquiatria para garantir intervenções de proteção à vida antes que o frio extremo converta as calçadas das cidades em cenários de tragédias humanas evitáveis.

Carregar Comentários