O Brasil entrou em uma nova fase de atenção para a dengue. O avanço de um El Niño forte, com possibilidade de atingir intensidade muito elevada nos próximos meses, levou autoridades de saúde e pesquisadores a reforçarem o alerta para a circulação de arboviroses, principalmente dengue e chikungunya.
Projeções do InfoDengue, da Fiocruz, indicam que o Brasil poderá registrar cerca de 1,7 milhão de casos de dengue em 2027. O número é uma estimativa produzida a partir de modelos epidemiológicos e pode sofrer alterações conforme as condições climáticas e a evolução da transmissão.
O cenário ganha importância porque o país vive atualmente uma situação diferente da observada nos anos mais críticos da doença. Até junho de 2026, foram registrados cerca de 392,8 mil casos de dengue, uma redução de 73% em relação ao mesmo período de 2025. Mesmo com a queda, a chegada de condições climáticas favoráveis ao mosquito pode mudar o comportamento da doença nos próximos meses.
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O fenômeno pode ganhar ainda mais força
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial e provoca alterações nos padrões de temperatura e chuva em diferentes regiões do planeta.
A preocupação aumentou nesta semana. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, elevou para 97% a probabilidade de um El Niño muito forte a partir do fim de setembro. Para o trimestre entre outubro e dezembro, a agência estima ainda 75% de possibilidade de um evento histórico, mais intenso que os registrados desde 1950.
No principal indicador utilizado para acompanhar o fenômeno, a região Niño 3.4, a temperatura das águas está 1,8°C acima da média, patamar classificado como forte.
No Brasil, o Inmet também acompanha a evolução do fenômeno e já havia apontado elevada possibilidade de que o El Niño chegasse a uma intensidade muito forte durante a primavera.
Por que o El Niño preocupa na dengue
A relação entre o fenômeno climático e a dengue não é automática. O El Niño não significa, por si só, que haverá uma explosão de casos em todo o país.
O problema está na combinação de fatores que pode surgir a partir das alterações climáticas. Temperaturas mais elevadas, mudanças no regime de chuvas e períodos de seca podem criar condições favoráveis à reprodução e à circulação do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zika.
Em algumas regiões, a chuva pode favorecer a formação de criadouros. Em outras, períodos de estiagem podem estimular o armazenamento de água, aumentando também os pontos onde o mosquito consegue se reproduzir.
É justamente por isso que o Ministério da Saúde orientou estados e municípios a reforçarem as ações de vigilância e controle das arboviroses.
Sudeste entra no centro da preocupação
Entre as regiões brasileiras, o Sudeste aparece como uma das áreas que podem sofrer impacto mais expressivo em um cenário de El Niño muito forte.
Modelagens apresentadas no monitoramento da Fiocruz apontam que a região pode registrar aproximadamente o dobro de casos de dengue em comparação com um cenário sem a influência do fenômeno durante determinado período.
O resultado, porém, representa uma projeção e não uma previsão definitiva. A quantidade de casos dependerá de uma série de fatores, como chuva, temperatura, presença do mosquito, imunidade da população, circulação dos diferentes sorotipos e velocidade das ações de controle.
São Paulo já convive com focos importantes da doença. Dados atualizados no início de setembro apontavam 81 municípios paulistas em situação de epidemia, embora o número esteja muito abaixo do registrado nos anos anteriores.
Brasil teve queda, mas alerta permanece
A redução observada em 2026 não significa que o problema esteja resolvido.
Além da dengue, os registros de chikungunya também apresentaram queda durante o ano. Ainda assim, a possibilidade de mudança das condições climáticas levou o governo federal a antecipar medidas de preparação para a próxima temporada.
A orientação envolve ampliar a vigilância, identificar rapidamente novos focos de transmissão e intensificar ações de combate ao mosquito.
A Fiocruz também ressalta que o El Niño aumenta riscos, mas não atua sozinho. A intensidade da transmissão dependerá da interação entre clima, população, vetor e medidas de prevenção.
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O que pode acontecer nos próximos meses
A primavera e o verão serão períodos decisivos para acompanhar a evolução do cenário.
Caso o El Niño avance para uma intensidade muito forte, diferentes regiões brasileiras poderão enfrentar alterações nos padrões de chuva e temperatura. Isso não significa que todas terão aumento de dengue na mesma proporção.
A própria dinâmica do fenômeno é regional. Por isso, pesquisadores trabalham com cenários e probabilidades, e não com uma quantidade definitiva de casos.
O ponto central do alerta é outro: o país precisa estar preparado antes que uma eventual alta de transmissão aconteça.
Com uma estimativa de cerca de 1,7 milhão de casos para 2027, a recomendação é que governos e população não esperem o avanço da doença para agir. Eliminar água parada, manter caixas-d’água fechadas e permitir o acesso dos agentes de endemias aos imóveis continuam sendo medidas importantes para reduzir os criadouros do mosquito.
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