Careca do INSS denuncia pressão e cela degradante na Papuda

Denúncias revelam condições precárias e pressão por delação na penitenciária da Papuda, com atenção do STF e PGR.
Redação NC News
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O empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, relata desde junho de 2026 pressão por delação premiada e condições degradantes de encarceramento na Papuda. As denúncias levam o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a cobrar explicações da administração prisional e colocam a Procuradoria-Geral da República (PGR) em alerta para possível investigação.

Pressão, cela acesa 24 horas e STF em campo

As queixas chegam ao Supremo em meio à Operação Sem Desconto, que apura um esquema de R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS entre 2019 e 2024. O lobista, apontado como peça central do caso, diz viver em uma cela menor que a anterior, sem ventilação adequada, sem entrada de luz solar e com iluminação artificial acesa 24 horas por dia.

Em 24 de junho de 2026, a defesa pede formalmente a transferência de cela, alegando risco à saúde física e mental do preso. Os advogados descrevem um ambiente sufocante, sem circulação de ar, e sustentam que o tratamento viola normas de direitos humanos e padrões mínimos de custódia.

As condições de encarceramento se somam à denúncia de uma abordagem considerada irregular. Em 19 de junho, dois policiais penais retiram o empresário da cela para questioná-lo, sem aviso prévio, sobre a posse de um protetor labial e sobre eventual interesse em delatar. Nada disso ocorre na presença dos advogados.

Protetor labial com cannabis acende alerta na Papuda

A versão oficial da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Distrito Federal (Seape) segue outro roteiro. Segundo a pasta, a origem do episódio está na apreensão, dias antes, de um protetor labial com inscrições de “ácido hialurônico e cannabis”, encontrado durante revista de rotina na ala de vulneráveis da Papuda, onde Antunes está custodiado.

O produto, afirma a secretaria, viola as normas internas do presídio. A apreensão leva à abertura de uma ocorrência administrativa para apurar como o item chegou até a cela. Nesse contexto, o Núcleo de Inteligência Penitenciária conduz uma conversa com o preso.

Em manifestação enviada ao STF, a Seape afirma que a abordagem tem caráter “exclusivamente informacional e preventivo”, ligada à atividade de inteligência, sem intenção de pressionar por colaboração. “A Secretaria de Administração Penitenciária do DF negou que policiais pressionaram Antônio Carlos Camilo Antunes, o ‘Careca do INSS’, para delação na Papuda”, registra o órgão.

O governo do DF sustenta que a diligência “não se confundiu com interrogatório disciplinar, investigação criminal, ato de polícia judiciária ou produção de prova para fins de persecução penal”, mas serviu apenas para mapear fragilidades de segurança do complexo.

Defesa fala em insistência por delação e violações de garantias

O relato da defesa vai na direção oposta. Na petição enviada a Mendonça, os advogados descrevem uma abordagem surpresa, sem agendamento, focada não apenas no protetor labial. “Além da estranheza de haver questionamento prévio não agendado e sem a presença da sua defesa, na mesma oportunidade os Policiais Penais questionaram –e insistiram com o peticionário– sobre o seu interesse em realizar delação premiada”, afirma o documento.

Para a defesa, houve um ato de natureza inquisitorial disfarçado de conversa de rotina, com objetivo de medir a disposição do empresário em colaborar com as investigações da Operação Sem Desconto. A ausência de advogados torna, na visão dos representantes, a iniciativa ilegal e intimidatória.

As queixas não se limitam ao episódio de 19 de junho. O conjunto de relatos inclui a descrição minuciosa da cela atual, apontada como significativamente menor que a anterior e sem ventilação adequada. A luz artificial permanece acesa dia e noite, sem qualquer ciclo de claridade e escuridão, o que, segundo a defesa, agrava quadros de ansiedade e insônia.

Os advogados classificam o cenário como “condições degradantes” e pedem ao Supremo providências para resguardar a integridade física e psíquica do custodiado, hoje um dos personagens centrais de um caso bilionário e de alta repercussão política e social.

Reação do STF e primeiros movimentos da PGR

A gravidade das alegações leva André Mendonça a agir em 22 de junho de 2026. Em decisão enviada à direção da Papuda e à Seape, o ministro afirma que “a realização de atos de caráter inquisitivo sem observância das garantias mínimas do custodiado, notadamente a prévia ciência e a presença da defesa, demanda apuração imediata pelo Juízo”.

Mendonça determina que a unidade prisional esclareça, em detalhes, como se deu a abordagem e identifique os agentes envolvidos, caso confirmados os fatos narrados pela defesa. O ministro também comunica formalmente a PGR, que passa a avaliar a abertura de um procedimento específico para investigar eventual abuso de autoridade.

Enquanto tenta conter o desgaste, a Seape anuncia a abertura de um Procedimento de Investigação Preliminar, sob responsabilidade da Gerência Correicional, para examinar a conduta dos servidores na diligência. A secretaria promete “máxima transparência”, mas mantém a linha de que não houve qualquer pedido de delação ou pressão indevida.

A PGR, por sua vez, acompanha os desdobramentos e estuda instaurar investigação própria. Se o fizer, poderá sugerir medidas disciplinares ou penais contra eventuais responsáveis, além de recomendar ajustes estruturais na Papuda para cumprir regras mínimas de tratamento a presos.

O que as denúncias revelam sobre o sistema e os próximos passos

As acusações de Careca do INSS expõem, em escala nacional, a rotina muitas vezes invisível das prisões brasileiras. A descrição de cela sem ventilação, com luz acesa 24 horas, aciona alertas de entidades de direitos humanos e coloca pressão sobre o governo do Distrito Federal para rever protocolos e infraestrutura.

No campo jurídico, a discussão sobre a suposta pressão por delação sem defesa presente atinge diretamente a credibilidade da Operação Sem Desconto. Colaborações premiadas obtidas em ambiente de medo ou intimidação podem ser questionadas e contaminar etapas inteiras da investigação.

O caso também testa os limites de atuação de núcleos de inteligência penitenciária. A fronteira entre uma conversa para fins administrativos e um ato de natureza inquisitorial, com impacto em processos penais, torna-se linha tênue e exige balizas claras do Judiciário e do Ministério Público.

Os próximos meses devem ser marcados pela conclusão do Procedimento de Investigação Preliminar na Seape, pela definição da PGR sobre instaurar ou não um procedimento próprio e por novas decisões de André Mendonça sobre a custódia de Antunes. A forma como o Supremo responderá às denúncias tende a influenciar o tratamento de outros presos ligados à Operação Sem Desconto e a reforçar, ou não, o controle sobre eventuais abusos atrás das grades.

O que foi encontrado com o Careca do INSS?

Durante revista de rotina na ala de vulneráveis da Papuda, agentes apreenderam um protetor labial identificado com as inscrições “ácido hialurônico e cannabis”, item proibido na unidade.

Como ficou a situação do Careca do INSS?

Ele permanece preso na Papuda, afirma sofrer com cela degradante e pressão por delação. O STF cobra explicações, a Seape abriu investigação preliminar e a PGR avalia apurar o caso.


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