Uma declaração feita durante a Bienal do Livro, em São Paulo, reacendeu nas redes sociais a discussão sobre o Diário de Anne Frank. Uma jovem entrevistada no evento classificou a obra como o “pior livro” que havia lido no ano e afirmou que considerava a maneira como Anne narrava seu sofrimento “vitimista”. A fala provocou repercussão e levou o Museu do Holocausto a lembrar o contexto histórico em que o diário foi escrito.
Por trás do livro está a história de uma adolescente judia que viveu a ascensão do nazismo, precisou abandonar a vida normal, passou mais de dois anos escondida com outras pessoas e acabou presa e enviada para campos de concentração. Anne Frank morreu aos 15 anos, em 1945, meses antes do fim da Segunda Guerra Mundial.
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Quem foi Anne Frank
Annelies Marie Frank nasceu em 12 de junho de 1929, em Frankfurt, na Alemanha, filha de Otto e Edith Frank. A família era judia e deixou o país depois da ascensão dos nazistas ao poder.
Os Frank se estabeleceram em Amsterdã, nos Países Baixos. Anne cresceu na cidade e levava uma vida relativamente comum até a ocupação alemã e o avanço das medidas de perseguição contra os judeus.
A situação mudou progressivamente. Judeus passaram a ser submetidos a restrições, obrigados a usar a estrela de Davi e excluídos de diferentes áreas da sociedade. Em julho de 1942, quando Margot, irmã mais velha de Anne, recebeu uma convocação para um suposto “campo de trabalho” na Alemanha, a família decidiu se esconder.
Dois anos escondida
Anne entrou no esconderijo em 6 de julho de 1942, poucos dias depois de completar 13 anos. Ela não estava sozinha.
A família Frank dividiu o espaço com outra família e posteriormente com um dentista. Ao todo, oito pessoas viveram escondidas durante mais de dois anos.
O cotidiano era marcado pelo medo de serem descobertos. Os moradores precisavam permanecer em silêncio durante boa parte do dia, já que outras pessoas trabalhavam no prédio.
Faltavam liberdade, privacidade e contato com o mundo exterior. Para uma adolescente, entretanto, aquele período também foi marcado por sentimentos e conflitos próprios da idade.
Foi nesse ambiente que Anne escreveu sobre seus medos, seus relacionamentos, sua família, seus pensamentos e seus planos para o futuro.
O diário que virou livro
Anne ganhou seu diário no aniversário de 13 anos, pouco antes de entrar no esconderijo.
Inicialmente, escrevia para si mesma. Com o passar do tempo, porém, passou a imaginar que poderia transformar seus registros em um livro.
Em 1944, depois de ouvir pelo rádio um apelo do governo holandês no exílio para que a população preservasse relatos da guerra, Anne começou a reescrever partes do próprio diário com a intenção de publicá-las posteriormente.
Ela queria ser escritora e jornalista.
Anne chegou a revisar seus textos e a trabalhar em uma versão mais estruturada de sua história. Não conseguiu concluir o projeto. Em 4 de agosto de 1944, a polícia descobriu o esconderijo e prendeu seus ocupantes.
A prisão e os campos de concentração
Depois da prisão, Anne e os demais moradores do Anexo Secreto foram enviados para diferentes campos.
Anne passou por Westerbork e Auschwitz antes de ser transferida para Bergen-Belsen, na Alemanha, junto com sua irmã Margot.
As condições no campo eram extremamente precárias. Havia falta de alimentos, frio, doenças contagiosas e ausência de condições mínimas de sobrevivência.
Anne e Margot contraíram tifo e morreram em fevereiro de 1945, poucas semanas antes da libertação de Bergen-Belsen pelas tropas britânicas. A data exata da morte de Anne não é conhecida.
Anne tinha apenas 15 anos.
Dos oito ocupantes do Anexo Secreto, Otto Frank foi o único que sobreviveu à guerra.
Como o diário sobreviveu
Depois da prisão, os escritos de Anne ficaram para trás no esconderijo.
Uma das pessoas que ajudavam os moradores escondidos, Miep Gies, encontrou os papéis e os preservou.
Quando Otto Frank retornou aos Países Baixos após a guerra e descobriu que Anne e Margot haviam morrido, recebeu os textos da filha.
Ele leu os escritos e decidiu cumprir o desejo de Anne de transformar aquela experiência em livro.
Em junho de 1947, foi publicada a primeira edição de Het Achterhuis, título original da obra que ficou conhecida mundialmente como O Diário de Anne Frank. A primeira edição teve 3 mil exemplares. Posteriormente, o livro foi traduzido para cerca de 70 idiomas e ganhou adaptações para teatro e cinema.
Por que o diário é tão importante
O impacto da obra está justamente na perspectiva utilizada por Anne.
Ela não escreveu como historiadora, jornalista ou pesquisadora. Era uma adolescente registrando o que pensava e sentia enquanto vivia escondida de um regime que perseguia e assassinava judeus.
Por isso, o diário mistura acontecimentos históricos com conflitos familiares, paixões, inseguranças, sonhos profissionais e questionamentos sobre a própria personalidade.
Anne também fazia críticas a si mesma. Nos últimos meses antes da prisão, chegou a reescrever partes de seus textos e refletir sobre a diferença entre a imagem que apresentava aos outros e aquilo que sentia internamente.
É essa dimensão pessoal que transformou o diário em um documento histórico singular: a perseguição nazista aparece não apenas como estatística ou acontecimento político, mas através da experiência cotidiana de uma adolescente.
Anne Frank e o Holocausto
Anne Frank foi uma das aproximadamente 1 milhão de crianças judias assassinadas durante o Holocausto, segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos.
Sua história se tornou um dos símbolos da destruição provocada pela perseguição nazista contra os judeus europeus.
O diário não registra todo o Holocausto nem pretende representar a experiência de todas as vítimas. Trata-se do relato específico de uma jovem que viveu escondida em Amsterdã entre 1942 e 1944.
Sua importância histórica está justamente na preservação dessa experiência individual.
O texto permite acompanhar os pensamentos de uma menina que ainda tinha planos para o futuro enquanto, do lado de fora do esconderijo, milhões de pessoas eram perseguidas, deportadas e assassinadas.
O legado de Anne Frank
O desejo de Anne de ser escritora não terminou com sua morte.
Seu diário tornou-se uma das obras mais conhecidas da literatura relacionada ao Holocausto e passou a ser utilizado em escolas de diferentes países para apresentar às novas gerações a perseguição aos judeus durante o regime nazista.
O esconderijo onde Anne viveu também se transformou em museu. A Anne Frank House, em Amsterdã, foi inaugurada como museu em 1960 e mantém o espaço histórico onde a família Frank permaneceu escondida.
O legado de Anne, portanto, não está apenas no conteúdo de suas páginas. Está também na possibilidade de aproximar um acontecimento histórico de uma experiência humana concreta.
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Entenda O Contexto
Anne Frank viveu durante um dos períodos mais violentos da história europeia. O regime nazista perseguiu sistematicamente judeus e outros grupos considerados inimigos pelo Estado, culminando no assassinato de milhões de pessoas durante o Holocausto.
A família Frank deixou a Alemanha após a ascensão de Adolf Hitler e se estabeleceu em Amsterdã. Quando os Países Baixos foram ocupados pela Alemanha nazista, as restrições contra a população judaica se intensificaram. Em julho de 1942, Anne e sua família entraram no esconderijo localizado nos fundos da empresa de Otto Frank.
Anne passou aproximadamente dois anos no Anexo Secreto. Nesse período, escreveu sobre sua vida, seus medos e suas expectativas. Também desenvolveu o projeto de transformar seus registros em um livro.
Em 4 de agosto de 1944, o esconderijo foi descoberto e seus ocupantes foram presos. Anne acabou em Bergen-Belsen, onde morreu de tifo em fevereiro de 1945. Seu pai, Otto, foi o único dos oito moradores do esconderijo a sobreviver à guerra.
O diário foi publicado em 1947 e posteriormente traduzido para dezenas de idiomas. O livro tornou-se uma das principais obras utilizadas para apresentar a experiência individual de uma vítima do Holocausto.
A repercussão recente em torno da obra recoloca a discussão sobre a importância de compreender o diário dentro de seu contexto histórico. Anne não escreveu de uma posição confortável ou distante: ela era uma adolescente vivendo escondida porque sua família era perseguida por ser judia.
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