Segurança pública vira escudo: o PL usa a pauta do crime para recompor a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Nos bastidores do partido, o endurecimento do discurso anticrime deixou de ser convicção pragmática e virou recurso tático. A crise com Michelle expôs uma candidatura vulnerável, e a pauta da segurança surge como ativo capaz de, ao mesmo tempo, unir a base, desgastar o Governo Lula e promover protagonismo a Flávio Bolsonaro.
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Nos bastidores do PL, a saída encontrada para conter os estragos da turbulência interna entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro tem um nome: segurança pública.

A aposta não é por acaso. O Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas globais, abrindo uma janela política que o senador carioca tratou de aproveitar imediatamente. Flávio celebrou a decisão e transformou o tema em uma das principais bandeiras de sua pré-campanha à Presidência da República.

A retórica encontra respaldo no contexto regional. A direita avançou no Equador, na Bolívia, na Colômbia e, mais recentemente, no Peru com um discurso centrado no combate ao crime organizado nas fronteiras.

O tema que pode dominar a eleição

No Brasil, o terreno é considerado favorável. A segurança pública deve ser um dos temas centrais das eleições deste ano, e o PL enxerga nessa agenda um vetor capaz de reorganizar a candidatura e deslocar o debate para um campo em que o governo Lula aparece mais vulnerável.

O Governo Federal reagiu classificando como “deplorável” a postura da família Bolsonaro e defendeu que a equiparação das facções criminosas a organizações terroristas representa um possível retrocesso no combate ao crime organizado.

A resposta do Planalto, no entanto, chega acompanhada de um desgaste acumulado na área da segurança pública, cenário que favorece a narrativa que a campanha do senador tenta consolidar.

Os passivos de Flávio Bolsonaro

O problema é que Flávio Bolsonaro carrega passivos que o campo adversário dificilmente deixará de explorar.

O caso envolvendo o esquema de rachadinha em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e as ligações com o miliciano Adriano da Nóbrega deixaram questionamentos que não foram definitivamente esclarecidos no debate público.

Os episódios contrastam com o atual discurso do senador em defesa de medidas mais duras contra facções criminosas, e a oposição já sinaliza que pretende explorar essa aparente contradição durante a campanha.

Michelle continua sendo peça-chave

No meio desse cenário, Michelle Bolsonaro permanece como peça central do tabuleiro político.

Ela mantém forte influência sobre o eleitorado feminino e evangélico, e vozes dentro do próprio partido voltaram a cogitar seu nome na disputa presidencial após o vazamento do áudio envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro.

A ex-primeira-dama negou publicamente qualquer racha com Flávio Bolsonaro e também descartou a intenção de disputar a Presidência. Ainda assim, sua presença na campanha continua sendo vista como uma condição, e não apenas uma opção.

Sem Michelle, o pré-candidato perde um ativo eleitoral que dificilmente seria compensado apenas pelo discurso de endurecimento no combate ao crime organizado.

O desafio é manter a unidade

A aposta na pauta anticrime pode produzir resultados eleitorais. Também pode não surtir o efeito esperado.

Nos bastidores, porém, fontes que acompanham os movimentos internos do PL avaliam que a principal preocupação não está na narrativa de campanha, mas na coesão do grupo.

E, neste momento, essa coesão passa por uma variável considerada decisiva: manter Michelle Bolsonaro integrada ao projeto político.

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