Um estudo divulgado nesta quarta-feira (1º) revelou que 96% das pessoas mortas em ações policiais no Amazonas durante 2025 eram negras, considerando a soma de pessoas pretas e pardas. O levantamento analisou dados de nove estados brasileiros e apontou que o Amazonas registrou a maior proporção de vítimas negras entre todas as unidades monitoradas.
Ao longo do ano, foram contabilizadas 43 mortes decorrentes de intervenções policiais no estado. O resultado reacende discussões sobre desigualdade racial, violência urbana e os impactos das políticas de segurança pública sobre a população negra e jovem das periferias amazonenses.
O que aconteceu?
Os números fazem parte da sétima edição do relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, produzido por pesquisadores que monitoram indicadores de segurança pública em diferentes regiões do país.
Segundo o estudo, o Amazonas aparece no topo do ranking nacional em proporção de vítimas negras mortas em ações policiais, superando estados como Pernambuco, Bahia e Pará, que também registraram índices elevados.
No conjunto dos nove estados analisados, 86,3% das vítimas com identificação racial eram negras, demonstrando que o fenômeno não está restrito a uma única região do Brasil.
Como a pesquisa foi realizada?
Os pesquisadores utilizaram informações fornecidas pelas secretarias estaduais de Segurança Pública por meio da Lei de Acesso à Informação.
O levantamento considerou mortes decorrentes de intervenção policial registradas em:
- Amazonas;
- Bahia;
- Ceará;
- Maranhão;
- Pará;
- Pernambuco;
- Piauí;
- Rio de Janeiro;
- São Paulo.
Os dados passaram por processos de validação e padronização para permitir comparações entre os estados e com levantamentos anteriores realizados desde 2019.
Índice:
- Amazonas: 96% das vítimas eram negras;
- Pernambuco: 94,4%;
- Bahia: 93,9%;
- Pará: 93,3%;
- Média dos estados monitorados: 86,3%.
Por que o dado chama atenção?
Especialistas afirmam que os números reforçam a existência de desigualdades raciais históricas que também se refletem na segurança pública.
O estudo aponta que, na média dos estados analisados, pessoas negras têm quatro vezes mais chances de morrer em ações policiais do que pessoas brancas. Em alguns locais, essa diferença é ainda maior.
Outro dado que preocupa é a idade das vítimas. Quase 65% dos mortos tinham até 29 anos, evidenciando o impacto da violência sobre a juventude brasileira, especialmente moradores das periferias urbanas.
Qual é a situação da segurança pública no Amazonas?
Embora o Amazonas tenha registrado 43 mortes decorrentes de intervenção policial em 2025 — número inferior ao observado em estados maiores — a proporção racial das vítimas colocou o estado no centro do debate nacional sobre violência policial e racismo estrutural.
O tema divide opiniões entre especialistas, autoridades e movimentos sociais.
Enquanto pesquisadores defendem a necessidade de políticas específicas para reduzir a letalidade e combater desigualdades raciais, setores ligados à segurança pública argumentam que as operações seguem critérios técnicos e que eventuais excessos devem ser investigados individualmente, conforme prevê a legislação brasileira.
O que dizem os pesquisadores?
Os responsáveis pelo estudo afirmam que os dados indicam um padrão persistente ao longo dos anos.
Segundo a análise, a concentração de mortes entre pessoas negras não pode ser interpretada apenas como coincidência estatística, mas deve ser observada dentro de um contexto histórico e social mais amplo, envolvendo desigualdade, pobreza e acesso limitado a oportunidades em determinadas regiões urbanas.
Os pesquisadores também defendem maior transparência na divulgação dos dados e políticas públicas voltadas à prevenção da violência letal.
O que acontece agora?
A divulgação do levantamento deve ampliar discussões sobre modelos de policiamento, mecanismos de controle externo das forças de segurança e programas de proteção à juventude.
Especialistas apontam que o aprimoramento da coleta de dados, a formação continuada dos agentes e a adoção de tecnologias de monitoramento estão entre as medidas frequentemente debatidas para reduzir a letalidade policial e aumentar a confiança da população nas instituições.
Entenda o contexto
A discussão sobre letalidade policial e desigualdade racial ganhou força nos últimos anos com a ampliação da transparência dos dados públicos e o trabalho de organizações que monitoram a violência no país.
Os números mostram que a maior parte das vítimas de intervenções policiais continua sendo formada por homens jovens e negros, realidade observada em diferentes estados brasileiros.
O desafio, segundo especialistas, é encontrar mecanismos que garantam o combate ao crime e, ao mesmo tempo, reduzam mortes, fortaleçam a confiança da população e ampliem a proteção aos direitos fundamentais.
Os próximos debates devem envolver governos estaduais, órgãos de controle, pesquisadores e representantes da sociedade civil na busca por soluções capazes de diminuir a violência e enfrentar desigualdades históricas.