Quase dois anos após a queda do voo 2283 da Voepass, familiares das 62 vítimas têm acesso, pela primeira vez, às conversas da cabine e ao laudo da Polícia Federal. O encontro ocorre em 30 de junho de 2026, em Campinas, e marca a reta final do inquérito que apura as causas do acidente com o ATR 72-500.
Transparência inédita em tragédia recente da aviação
O material liberado pela PF inclui a transcrição dos diálogos entre piloto e copiloto, gravados na cabine, e um laudo pericial com mais de 200 páginas elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística. Essas informações, até então restritas aos investigadores, passam a ser conhecidas pelas famílias e pelos advogados que atuam como assistentes de acusação.
A liberação ocorre em meio à expectativa pela conclusão do inquérito policial, prevista para os próximos 30 dias. Depois dessa etapa, o caso segue para o Ministério Público Federal, que decide sobre o oferecimento de denúncia criminal. O acidente, em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, interior de São Paulo, é o maior da aviação comercial brasileira desde 2007 e o quinto mais grave envolvendo um ATR 72.
O voo que “não era para ter sido autorizado”
O voo 2283 sai de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo. A aeronave, um ATR 72-500 de prefixo PS-VPB, de capacidade para 74 pessoas, transporta 62 passageiros e tripulantes. Nenhum sobrevive à queda em área de mata em Vinhedo.
Desde então, familiares pressionam por respostas sobre o que levou ao choque com o solo e quem deve ser responsabilizado pela decisão de manter o voo em operação. Ao deixar a reunião em Campinas, Adriana Ibba, mãe de Liz Ibba dos Santos, de três anos, a vítima mais jovem, resume o sentimento ao ler a transcrição da cabine e o laudo da PF. “A expectativa agora é que haja os indiciamentos dos responsáveis diretos e indiretos que autorizaram esse voo, porque não era para esse voo ter sido autorizado”, afirma.
Liz viajava com o pai, Rafael Fernando dos Santos, para passar o Dia dos Pais em Florianópolis. Ambos morrem no acidente. “Se passaram quase dois anos e não tem um dia que eu não pense sobre isso. A impressão que tenho é que esse avião cai todos os dias”, diz Adriana, ao relatar o impacto da leitura do material produzido pelos peritos.
Degelo sob suspeita e uma “construção de negligência”
A investigação da PF corre em paralelo à apuração técnica do Cenipa, órgão da Aeronáutica responsável por identificar causas e propor melhorias de segurança. Uma das principais linhas de investigação é o sistema de degelo da aeronave, equipamento que evita a formação de gelo nas asas e em outras superfícies em voo.
O Cenipa já levanta, desde os primeiros meses após a queda, a hipótese de gelo nas asas como fator decisivo para a perda de controle do avião. A PF agora aprofunda se os pilotos acionam o sistema de degelo e em que condições, além de avaliar a cadeia de decisões que permite a decolagem e a continuidade do voo naquela rota e naquele dia.
Segundo os advogados da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283, o laudo pericial e outras provas reunidas no inquérito indicam uma responsabilidade “muito clara” de quem autoriza o voo. “Aquele voo não deveria estar voando. Por que ele estava voando? Existe responsabilidade de quem colocou esse avião para voar”, afirma o advogado Luciano Katarinhuk, representante da associação e assistente de acusação.
Ele afirma que “faltam alguns procedimentos, mas há a confirmação de que haverá indiciamentos” e classifica os próximos 30 dias como “um ponto chave de virada” para o encaminhamento do inquérito ao Ministério Público Federal. Pessoas ouvidas até agora apenas como declarantes devem passar à condição de investigadas.
À frente da associação e mãe de uma das vítimas, Fátima Albuquerque vê no conjunto de falhas relatadas pelos peritos algo que ultrapassa a ideia de acidente inevitável. “Não foi um acidente, foi uma tragédia anunciada, foi uma construção de negligência”, diz. Para ela, o acesso ao conteúdo da caixa-preta e ao laudo reforça a cobrança por mudanças de procedimento na aviação regional.
Reunião marcada por emoção e escolha pelo papel
O encontro em Campinas reúne famílias, representantes da associação, advogados e policiais federais responsáveis pelo inquérito. A caixa-preta do ATR 72-500, que registra as conversas da cabine e dados de voo, já havia sido recuperada logo após a queda, mas o conteúdo permanece em sigilo até agora.
Os familiares optam por ler apenas a transcrição das falas entre piloto e copiloto, sem ouvir o áudio original. A decisão busca reduzir o impacto emocional de reviver, em detalhes sonoros, os últimos minutos dos passageiros e da tripulação. Ainda assim, o clima é de choro, abraços longos e silêncio ao final da leitura.
Além da transcrição, os representantes da associação recebem explicações sobre trechos-chave do laudo do Instituto Nacional de Criminalística. O documento técnico, com mais de 200 páginas, embasa as conclusões da PF sobre fatores humanos, operacionais e de manutenção que podem ter contribuído para a queda.
Após a reunião, Katarinhuk afirma que “os trabalhos que há dois anos vêm sendo desenvolvidos agora chegam na reta final e serão concluídos nos próximos 30 dias com novidades, com indiciamentos”. Ele reforça o objetivo da associação: “O que nós queremos é Justiça e nós vamos buscar a responsabilização penal por todos os responsáveis pela queda do avião”.
Pressão sobre a Voepass e o sistema de aviação
O inquérito criminal pode resultar em denúncias contra responsáveis pela autorização do voo e, eventualmente, por falhas técnicas ou de procedimento. A Voepass e eventuais agentes públicos ou privados ligados à liberação da operação enfrentam riscos de responsabilização penal e cível, além de impacto direto na imagem da companhia.
Em paralelo, o setor de aviação civil acompanha a apuração em Vinhedo como um caso emblemático. A depender das conclusões da PF e das recomendações do Cenipa, companhias aéreas e órgãos reguladores podem ser pressionados a rever protocolos de operação em condições meteorológicas adversas, critérios de manutenção e treinamento de tripulações para situações de gelo em voo.
O acidente reacende ainda o debate sobre a segurança de aeronaves regionais e a qualidade da fiscalização em rotas de menor visibilidade midiática, como o trecho Cascavel–Guarulhos. Para as famílias, porém, o foco permanece na responsabilização. “O voo 2283 não ficará em vão. As pessoas que ali perderam as suas vidas vão ter, sim, uma resposta para que isso nunca mais aconteça”, afirma Katarinhuk.
Até agora, PF e Ministério Público Federal não divulgam nomes de investigados nem antecipam quais crimes podem ser imputados. O Cenipa segue com a investigação técnica, independente da esfera criminal, para apontar causas e recomendar mudanças. A convergência dessas duas frentes deve definir, nos próximos meses, se a tragédia de Vinhedo se traduzirá em punições exemplares e em ajustes concretos na segurança da aviação comercial brasileira.
Enquanto aguardam a conclusão do inquérito, as famílias deixam Campinas com uma sensação ambígua. De um lado, o peso de reler, em papel timbrado, os últimos instantes de quem amam. De outro, a percepção de que, desta vez, a caixa-preta não se fecha apenas sobre o passado, mas pode redesenhar o futuro de quem ainda embarca todos os dias em aviões pelo país.
O que houve com o avião da Voepass?
O ATR 72-500 da Voepass, voo 2283, caiu em 9 de agosto de 2024 em Vinhedo (SP), durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), matando as 62 pessoas a bordo. As investigações da PF e do Cenipa apontam, entre outras hipóteses, para problemas ligados à formação de gelo e ao eventual acionamento do sistema de degelo.
Como está a Voepass após o acidente?
A companhia é alvo de investigação criminal e de apuração técnica sobre o acidente de Vinhedo, e enfrenta riscos de responsabilização jurídica e impacto reputacional. O texto oficial da PF sobre eventuais indiciamentos ainda não foi divulgado.
Como estavam os corpos do voo Voepass?
As autoridades informam apenas o número de mortos, 62 ao todo, e realizam os procedimentos de identificação e liberação às famílias. Detalhes sobre o estado dos corpos não são divulgados pelos investigadores nem fazem parte do laudo tornado público às famílias.