PF prende pastor Márcio Poncio em operação contra lavagem

Operação Unha e Carne resulta na prisão de pastor e empresário ligado a esquema criminoso envolvendo jogo do bicho e contrabando.
Redação NC News
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O pastor e empresário Márcio Poncio, 52, é preso na manhã desta quinta-feira (2 de julho de 2026) pela Polícia Federal, no Rio de Janeiro. Ele é um dos alvos da quinta fase da Operação Unha e Carne, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao jogo do bicho e à chamada “Máfia do Cigarro”.

Pastor, empresário e figura pública nas redes

Poncio é detido em um flat no hotel Gran Hyatt, na Barra da Tijuca, zona sudoeste do Rio. Agentes cumprem, no total, três mandados de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em endereços da capital e de São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

Conhecido como “pastor do cigarro” por sua trajetória no mercado de tabaco, ele constrói fortuna no setor enquanto se apresenta nas redes sociais como “servo de Deus” e “patriarca da família Poncio”. Somando perfis, reúne mais de 500 mil seguidores, que acompanham cultos, bastidores de negócios e a intimidade da família.

A prisão atinge um núcleo que transita entre religião, política e entretenimento digital. Márcio é fundador e líder da Igreja da Nuvem, onde atua há mais de duas décadas, e pai de dois influenciadores de grande alcance: o cantor Saulo Poncio e a deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ). Nenhum deles é alvo da operação, mas o impacto sobre a imagem do clã é imediato.

Alvo central em esquema que envolve bicho e ‘Máfia do Cigarro’

A nova fase da Unha e Carne mira o que a PF descreve internamente como ramificação financeira de uma rede que mistura contravenção, crime organizado e poder público. Investigações apontam Márcio como um dos elos empresariais de um sistema de lavagem de dinheiro da nova cúpula do jogo do bicho, ligada ao contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho.

O pastor aparece associado ao eixo do tabaco, segmento em que constrói negócios e prestígio. Esse entrelaçamento rende a ele, entre rivais e investigadores, o rótulo de “pastor do cigarro”. Nos bastidores da PF, Adilsinho é descrito como “capo” dessa nova estrutura do bicho e da “Máfia do Cigarro”, responsável pelo controle de fabricação e venda de cigarros ilegais na Região Metropolitana do Rio e em outros estados.

Além de Márcio e de Adilsinho, já preso desde fevereiro, a ação desta quinta atinge o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar e o advogado Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral. Contra Marco Antônio, há mandado apenas de busca e apreensão.

O STF determina ainda o bloqueio de bens e valores de até R$ 22 milhões, cifra que, segundo investigadores, busca estrangular financeiramente o grupo. O objetivo é impedir o uso de patrimônio formalmente lícito para irrigar operações ilegais e comprar proteção em órgãos públicos.

Rastro político e conexões com o poder

A Unha e Carne nasce de apurações sobre vazamento de informações sigilosas para o Comando Vermelho e avança, fase após fase, sobre o entorno político do crime organizado no Rio. Bacellar, hoje deputado estadual, já havia sido preso em 2024, suspeito de interferir em operações policiais e de participar de esquema de fraudes em contratos públicos.

Nesta quinta, ele volta a ser alvo, agora por ligações com o grupo do bicho e do cigarro. É conduzido a uma unidade da PF carregando uma Bíblia de luxo, numa imagem que sintetiza a mistura entre devoção pública e poder político que marca parte dos investigados.

No caso de Márcio Poncio, essa fronteira entre púlpito e palanque é ainda mais nítida. Em 2022, ele se candidata a deputado federal e termina como segundo suplente. Dois anos depois, em 2025, tenta a Prefeitura de Três Rios, no interior fluminense, sem sucesso. A família, porém, mantém presença constante na vida política: Sarah ocupa cadeira na Alerj pelo Solidariedade, mesmo partido que abriga hoje a pré-candidatura de Marco Antônio Cabral.

A proximidade com o poder e a circulação em Brasília e na Assembleia fluminense colocam o “patriarca da família Poncio” no radar de investigadores que seguem o dinheiro e as agendas. Documentos apreendidos em fases anteriores da operação indicam repasses de recursos suspeitos a integrantes dos poderes Executivo e Legislativo do estado.

Pressão sobre família Poncio e meio evangélico

O efeito imediato da prisão é uma onda de exposição sobre a família, que já vive sob holofotes há anos. Ao longo de mais de 30 anos de casamento com a pastora Simone Poncio, 50, Márcio transforma a rotina doméstica em conteúdo digital. Em 2023, o casal anuncia separação, seguida de reconciliação em 2024. Em março deste ano, comunica que espera mais um filho.

Esse enredo pessoal, amplamente divulgado em vídeos e posts, ajuda a construir a narrativa do “servo de Deus” que supera crises conjugais e financeiras. Agora, a imagem colide com a de um empresário apontado como peça de engrenagem de um esquema bilionário de contravenção.

No meio evangélico, lideranças acompanham com apreensão. A presença de um pastor conhecido em uma investigação que envolve jogo do bicho, Comando Vermelho e “Máfia do Cigarro” reabre o debate sobre o uso de igrejas como plataforma política e de negócios. Também pressiona outras denominações a se distanciar publicamente de práticas de lavagem de dinheiro e compra de influência.

Embora apenas Márcio seja investigado, a repercussão respinga nos filhos. O cantor Saulo e a deputada Sarah veem crescer a cobrança de seguidores e adversários por explicações e posicionamentos. Até o momento, não há indicação de que eles sejam alvo de diligências ou de que constem como suspeitos nos inquéritos.

Impacto econômico e risco de instabilidade política

O bloqueio de até R$ 22 milhões atinge um núcleo de empresas e ativos ligados ao tabaco e a outros negócios de fachada. Investigadores sustentam que esses recursos alimentam tanto a cadeia ilegal de cigarros como a rede de proteção política, por meio de doações indiretas, patrocínios e contratos públicos direcionados.

Ao interromper o fluxo financeiro, a PF tenta desarticular a capacidade de reorganização da “Máfia do Cigarro” e da nova cúpula do bicho. Especialistas em segurança ouvidos pela reportagem em outras fases da operação avaliam que medidas desse tipo não derrubam o crime organizado de imediato, mas encarecem o custo de manter estruturas de corrupção e violência.

Na política do Rio, a operação desta quinta reforça um quadro de instabilidade. Atinge um ex-presidente da Alerj, um pastor influente com aspirações eleitorais e o filho de um ex-governador. Em ano pré-eleitoral, partidos calculam danos e revisam alianças, enquanto o eleitor acompanha mais uma leva de prisões envolvendo velhos e novos nomes do poder local.

No setor formal do tabaco, a ofensiva contra a “Máfia do Cigarro” é vista como tentativa de reequilibrar o mercado, dominado por marcas legais e por cadeias ilegais que competem com preços muito abaixo da média. Empresários do segmento defendem que ações como a Unha e Carne reduzem a vantagem do cigarro clandestino e trazem maior segurança jurídica, ainda que a curto prazo gerem aumento de apreensões e conflitos em áreas dominadas por facções.

O que vem a seguir

Com mandados expedidos pelo STF, a quinta fase da Unha e Carne indica que a investigação entra em estágio mais avançado. A análise do material apreendido em endereços ligados a Márcio Poncio, Adilsinho, Rodrigo Bacellar e Marco Antônio Cabral tende a ocupar peritos e delegados nos próximos meses.

Promotores e procuradores esperam que a combinação de quebras de sigilo bancário, bloqueio de bens e mensagens apreendidas produza um mapa mais nítido de como o dinheiro da contravenção circula entre empresas, igrejas e gabinetes. Nos bastidores, não se descarta a possibilidade de novas prisões e de acordos de delação premiada, capazes de atingir outros políticos e empresários conectados ao esquema.

Para o Rio, a consequência provável é uma dupla pressão: de um lado, o enfraquecimento de estruturas criminosas que se infiltram no estado há décadas; de outro, um período de instabilidade política, com efeitos nas eleições e nas alianças entre grupos religiosos, econômicos e partidos. A trajetória do “pastor do cigarro”, agora atrás das grades, torna-se peça central desse novo capítulo.

Qual a idade de Márcio Poncio?

Márcio Poncio tem 52 anos.

Qual é a igreja de Márcio Poncio?

Ele é pastor e líder da Igreja da Nuvem, onde atua há mais de duas décadas.

Quem são os filhos de Márcio Poncio?

Os filhos mais conhecidos são o cantor Saulo Poncio e a deputada estadual do Rio de Janeiro Sarah Poncio (Solidariedade-RJ).

Quem é a esposa de Márcio Poncio?

A esposa é a pastora Simone Poncio, 50, com quem ele mantém casamento há mais de 30 anos.

 

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