Carlo Ancelotti deixa o gramado de Nova Jersey na noite de 05/07/2026 cercado por câmeras e perguntas. Horas antes, o Brasil perde por 2 a 1 para a Noruega e está fora do Mundial de Seleções nas oitavas de final. No centro da derrota, um pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães e a sombra de Neymar, que só entra no segundo tempo.
A noite em que o plano desmorona
O roteiro da partida oferece ao Brasil a chance de assumir o controle ainda no primeiro tempo. Com o jogo em 0 a 0, Matheus Cunha sofre pênalti. A bola vai para as mãos de Vinicius Junior, mas, depois de um rápido diálogo, para nos pés de Bruno Guimarães. Ørjan Nyland acerta o canto, defende sem rebote e muda o clima em Nova Jersey.
Na área técnica, Ancelotti não improvisa. Executa um plano desenhado com antecedência. “Fizemos uma estatística de um ano de jogadores rivais e dos nossos. O melhor a bater o pênalti é Neymar, depois Igor Thiago, depois Raphinha, depois Bruno Guimarães, depois Martinelli. Escolhemos Bruno Guimarães porque pensamos que era o melhor no campo”, explica o italiano na entrevista coletiva.
O método depurado em centros de dados e reuniões com o filho e auxiliar, Davide Ancelotti, colide com a crueza do mata-mata. Neymar está no banco por opção técnica. Igor Thiago também não joga. Raphinha sequer está disponível, lesionado na fase de grupos. Sobra Bruno, que vinha de duas cobranças convertidas pelo Newcastle na temporada europeia, mas não é o encarregado oficial no clube nem na seleção.
Vinicius Junior, protagonista do ciclo que leva o Brasil ao Mundial, observa. No Real Madrid, bate sete pênaltis em 2025/2026, com cinco acertos e dois erros. Pela seleção, converte uma cobrança em amistoso contra Guiné, em 2023. Em Nova Jersey, a hierarquia prévia vale mais que a intuição do momento.
Haaland decide, Neymar entra sob suspeita
O jogo segue sob a lógica que acompanha o Brasil durante a campanha. A equipe cria, mas não mata. Ancelotti sustenta que controla a partida “por 70 minutos” e volta a defender seu time. “É óbvio que estamos profundamente tristes, porque acho que o time até agora não fez um Mundial espetacular, mas um bom Mundial. Acho que no jogo de hoje poderia ganhar”, afirma.
Do outro lado, Erling Haaland recusa o papel de coadjuvante. Explora o espaço às costas da defesa brasileira, que evita a pressão alta por temor da velocidade do atacante. O próprio Ancelotti admite o dilema tático. “Era muito mais complicado fazer pressão alta porque o jogo da Noruega colocava muitos jogadores atrás, baixava muito o Odegaard. Então, fazer uma pressão muito alta era um risco para a velocidade de Haaland de um contra um”, diz.
O risco que o Brasil tenta administrar explode no segundo tempo. Haaland encontra brechas, marca duas vezes e leva a Noruega às quartas, onde enfrenta a Inglaterra no dia 11. O Brasil reage tarde. Neymar entra em campo na etapa final, converte um pênalti nos acréscimos, mas o 2 a 1 não se altera. O gol serve mais como epílogo de um ciclo do que como início de uma reação.
Do lado de fora, a paciência se esgota. O jornalista Renato Maurício Prado resume, nas redes, o sentimento de parte da torcida. “Não mereciam vencer, não, Carletto. Apesar do pênalti perdido e da grande chance desperdiçada pelo Endrick, a Noruega foi melhor, dominou o jogo, e o Brasil se ‘acoelhou’ atrás, deixando a bola com o rival. A entrada de Neymar foi desastrosa. Sua culpa”, dispara. Em outra mensagem, ele contesta a leitura da comissão técnica. “Bom futebol onde, Rodrigo (executivo geral de Seleções)? Fala sério. Brasil não jogou nada nesta Copa.”
Eliminação expõe métodos, escolhas e um Brasil menos temido
A queda nas oitavas, diante de uma seleção sem tradição entre os gigantes, acende o debate sobre o lugar do Brasil no futebol mundial. Nas arquibancadas e nas análises, a derrota reforça a percepção de um time mais comum do que decisivo, num torneio em que o quarteto de artilheiros soma 27 gols e concentra holofotes em outros países.
O pênalti perdido vira símbolo de um choque entre números e hierarquia de vestiário. A comissão técnica dá protagonismo ao setor de análise, que monta a lista de cobradores com base em um ano de dados. Mas a escolha ignora o peso emocional de jogadores como Vinicius Junior, acostumado a noites grandes no Real Madrid, e de Neymar, especialista em decisões, ainda que fisicamente longe do auge.
O episódio atinge também a imagem da Confederação Brasileira de Futebol, que renova o contrato de Ancelotti por mais quatro anos antes do Mundial, justamente para assegurar estabilidade até 2030. O plano é claro: entregar ao italiano tempo para remodelar o elenco, integrar jovens das categorias de base e reconstruir a competitividade perdida. A eliminação em Nova Jersey, porém, antecipa o desgaste e aumenta o custo político dessa escolha.
A atuação contra a Noruega escancara ainda fragilidades táticas. A equipe sofre para lidar com pressão adversária e transições rápidas. Haaland encontra uma defesa muitas vezes exposta, que hesita entre encurtar o campo e recuar blocos por medo do contra-ataque. Ancelotti insiste que “o esforço de hoje não se merecia perder”, mas admite a necessidade de revisão. “Vamos continuar trabalhando para esta seleção, tentando melhorar, tentando buscar novas ideias. O futebol é assim. Às vezes, você tem que gerir a tristeza de uma derrota.”
Entre o fim de um time e o início de um ciclo
No vestiário, o clima é de fim de festa. Neymar, que já insinua o encerramento de sua trajetória com a seleção, deixa em aberto o próprio futuro, enquanto parte do elenco encara a possibilidade de não chegar a 2030 em nível competitivo. A renovação, que a comissão técnica vendia como gradual, ganha urgência.
O impacto ultrapassa a esfera esportiva. Patrocinadores e emissoras pressionam por respostas. A CBF, por ora, banca a continuidade. Não há sinal de ruptura com Ancelotti, nem com o núcleo de comando que inclui Davide e o executivo de seleções. O discurso oficial aponta para uma reconstrução em quatro anos, com mais atenção à preparação física, ao estudo de adversários velozes e à definição de papéis em momentos decisivos, como pênaltis.
A delegação volta ao Brasil com perguntas mais pesadas que as malas. A principal recai sobre a capacidade de Ancelotti de adaptar o pragmatismo europeu às expectativas de um país que mede seu sucesso em títulos, não em “bons Mundiais”. O técnico escolhe olhar adiante. “Eu acho que não é o fim, é um princípio de um novo ciclo essa derrota”, diz na sala de imprensa de Nova Jersey, antes de desaparecer pelo túnel. Os próximos quatro anos dirão se essa aventura reescreve a história ou apenas prolonga a sensação de um Brasil que já não assusta como antes.