O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça alerta o governo Lula, em 6 de julho de 2026, para o risco de obstrução de Justiça caso delegados da Polícia Federal (PF) cedidos ao tribunal sejam retirados de investigações sensíveis. O aviso mira diretamente duas apurações bilionárias que ele relata: o chamado caso Master, sobre fraudes no extinto Banco Master, e o esquema de descontos indevidos em aposentadorias do INSS.
Pressão sobre delegados em meio a investigações bilionárias
O Ministério da Justiça determinou o retorno de mais de cem policiais federais cedidos a órgãos públicos, sob o argumento de recompor o efetivo da PF e reforçar o combate ao crime organizado. Mais de 50 órgãos já foram notificados. No STF, porém, o ofício que poderia alcançar os quatro delegados lotados em gabinetes de ministros ainda não chega.
Dois desses delegados trabalham com Mendonça, um com Luiz Fux e outro com Alexandre de Moraes, responsável por inquéritos que miram o entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro. A eventual saída desse grupo é vista no Supremo como um golpe direto na capacidade de conduzir apurações complexas em ritmo compatível com o calendário político de 2026.
A advertência de Mendonça chega justamente quando a PF se prepara para entregar ao STF os primeiros relatórios das investigações sobre o INSS e o Banco Master. O documento inicial do caso INSS está previsto para ficar pronto ainda em julho. O relatório do caso Master deve ser concluído “muito em breve”, segundo interlocutores da corporação.
Desconfiança no STF e na PF sobre motivação do governo
O discurso oficial do governo Lula é de que a ordem de retorno dos policiais federais busca apenas reforçar operações contra facções e quadrilhas em vários estados. Entre ministros do STF e delegados, a explicação soa insuficiente. A medida atinge mais de cem servidores em dezenas de órgãos, mas o impacto real sobre o efetivo da PF é considerado pequeno diante do tamanho das investigações em curso.
Um integrante da Polícia Federal, ouvido em caráter reservado, resume a avaliação crítica: “Esse motivo do governo não é verdadeiro. É como jogar um copo d’água no Rio Tietê e dizer que isso vai melhorar a qualidade de água”.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, admite que a situação ainda está em aberto. “É uma avaliação que o ministério está fazendo ainda. Por enquanto não há essa definição, até porque há uma necessidade de fazer uma análise da posição estratégica”, afirma. A fala indica que, ao menos por ora, há espaço para recuo ou negociação em relação aos delegados que atuam diretamente em gabinetes de ministros.
Casos INSS e Master avançam sob pressão política
As duas apurações sob relatoria de Mendonça atravessam o coração da disputa eleitoral de 2026. No caso INSS, a PF investiga uma engrenagem que teria drenado valores bilionários de aposentadorias por meio de descontos indevidos. O esquema envolve agentes internos do instituto, operadores privados e políticos de diferentes partidos. A Operação Sem Desconto, ligada a esse caso, já prende 27 pessoas e tem cerca de 40% do material apreendido analisado.
No entorno do Planalto, o inquérito preocupa especialmente por atingir aliados do presidente Lula. Interlocutores do governo pressionam pelo arquivamento da investigação que envolve o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente. A PF apura se ele, “em tese”, poderia atuar como sócio oculto de Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como um dos pivôs do esquema, o que a defesa de Lulinha nega.
A empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e herdeira de ex-acionista do Credit Suisse, é peça central da investigação. Ela sofre busca e apreensão e tem os sigilos quebrados por ordem de Mendonça. Os investigadores apuram se Roberta faz a ponte entre o filho do presidente e operadores do esquema. As conclusões preliminares que a PF promete entregar ao STF neste mês tendem a elevar a temperatura política do caso.
O caso Master, por sua vez, mira fraudes financeiras no Banco Master, já extinto, e envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A defesa de Vorcaro tenta emplacar um acordo de delação premiada, mas encontra resistência. “Não existe interesse técnico”, afirma o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ao comentar, em reservado, as investidas dos advogados. Integrantes da força-tarefa avaliam que a estratégia do empresário é anular provas e ganhar tempo.
Flávio Bolsonaro e o financiamento do filme de campanha
As investigações sob comando de Mendonça também cercam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato central na disputa presidencial. O gabinete do ministro recebe pedido para apurar o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O longa é associado a uma ofensiva eleitoral antecipada.
O pedido de investigação chega ao STF após parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e despacho do presidente da Corte, Edson Fachin, que remete o caso a Mendonça. O financiamento teria ligações com Daniel Vorcaro, já enrolado no caso Master, e envolve o Instituto Conhecer Brasil, alvo de R$ 2 milhões em emendas parlamentares.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades e trata o caso como perseguição política. Nos bastidores, porém, aliados veem no avanço simultâneo dos inquéritos do INSS, do Banco Master e do filme Dark Horse uma ameaça direta à narrativa de vítima de perseguição que o bolsonarismo tenta consolidar para 2026.
PF tenta blindar investigações da disputa eleitoral
Em público, a cúpula da PF insiste que as apurações seguem imunes ao calendário eleitoral. O diretor-executivo da corporação, William Murad, rebate a tese de que a polícia esteja segurando operações para não interferir na campanha. “Esse tipo de abordagem, sim, é para fins eleitoreiros, não condiz com a realidade”, diz.
A mensagem busca afastar suspeitas de que o governo tenta calibrar o ritmo das investigações para evitar danos a Lula e ampliar o desgaste de Flávio Bolsonaro. Dentro da corporação, porém, há desconforto com a ordem genérica de retorno de policiais cedidos, vista como descolada de um planejamento claro de reforço operacional.
“Esse motivo do governo não é verdadeiro”, insiste o integrante da PF ouvido pela reportagem, reforçando a leitura de que o ganho prático para o combate ao crime organizado é mínimo, enquanto o custo institucional para o STF pode ser alto.
Quem ganha, quem perde e o que vem pela frente
A retirada dos quatro delegados lotados no STF, se confirmada, atinge diretamente o ritmo das investigações que orbitam figuras centrais de PT e PL. Mendonça perde quadros que conhecem em detalhe os inquéritos e mantêm diálogo diário com as equipes de campo da PF. A troca por novos profissionais, no meio de uma corrida contra o tempo, tende a atrasar decisões cruciais.
Parlamentares investigados podem ser os principais beneficiados. Cada mês de atraso reduz o potencial de impacto das operações sobre a campanha. No outro polo, o Ministério da Justiça sustenta que reforçar o combate ao crime organizado é ganho institucional para a PF, ainda que as vozes críticas enxerguem interferência política disfarçada.
O gabinete de André Mendonça não se manifesta publicamente sobre o alerta ao governo. O silêncio reforça o caráter de bastidor da pressão, que se desenrola entre o STF, a cúpula da PF e o Ministério da Justiça. Edson Fachin acompanha de perto a disputa, atento ao risco de que o Judiciário seja visto como refém de decisões administrativas do Executivo.
Os próximos dias são decisivos. A PF promete entregar, ainda em julho, o relatório inicial do caso INSS e, logo na sequência, as conclusões preliminares do caso Master. Em paralelo, o Ministério da Justiça precisa decidir se formaliza ou recua da ordem de recolher os delegados cedidos ao Supremo. Se optar pelo confronto, o governo arrisca abrir uma crise aberta com o STF às vésperas do calendário oficial da campanha de 2026.
Qual foi o alerta de André Mendonça ao governo Lula sobre a remoção de delegados da PF?
Em 6 de julho de 2026, André Mendonça avisou o governo Lula que tirar delegados da PF cedidos ao STF, em plena apuração de casos sensíveis, pode configurar obstrução de Justiça e prejudicar investigações sobre o INSS, o Banco Master e políticos de peso.
Qual a relação de André Mendonça com as investigações sobre fraudes no INSS e o caso Master?
Mendonça é o relator, no STF, dos inquéritos que apuram fraudes bilionárias em aposentadorias do INSS e crimes financeiros ligados ao extinto Banco Master. Ele acompanha de perto o trabalho da PF, recebe os relatórios parciais, decide sobre medidas como buscas, quebras de sigilo e prisões e será responsável por analisar as conclusões que podem atingir aliados de Lula e de Jair Bolsonaro.