Kassab surpreende e faz aceno a Michelle Bolsonaro em meio à crise na família

Kassab sinaliza apoio a Michelle Bolsonaro e analisa cenário político para as eleições de 2026.
Redação NC News
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Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e pré-candidato à vice-presidência, afirma nesta terça-feira (7 de março de 2026) que Michelle Bolsonaro pode ser acolhida pelo partido depois das eleições. Ele vê pouca chance de a ex-primeira-dama deixar o PL antes do pleito, mas faz um aceno calculado ao eleitorado feminino e evangélico que ela mobiliza.

Crise no clã Bolsonaro e disputa pelo eleitorado feminino

A declaração acontece em meio à crise aberta na família Bolsonaro, após Michelle deixar a presidência do PL Mulher e atacar publicamente o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do partido ao Planalto. Kassab classifica o embate como uma “crise familiar”, mas alerta para o efeito direto nas urnas.

“É necessário que a família Bolsonaro restaure a harmonia para que não haja impacto nas urnas”, diz Kassab. Ele avalia que o desgaste atinge principalmente as mulheres evangélicas, grupo em que Michelle tem influência consolidada desde o período em que ocupou o papel de primeira-dama.

O gesto do PSD em direção a Michelle expõe a disputa silenciosa pelos votos femininos e religiosos nas eleições de 2026. O PL tenta manter esse capital político em torno do sobrenome Bolsonaro, enquanto o PSD se apresenta como alternativa para quem se afasta do conflito interno no partido adversário.

O aceno a Michelle e a estratégia do PSD

Kassab faz questão de destacar o peso político da ex-primeira-dama. “Ela é uma pessoa respeitada. Como primeira-dama ela teve um trabalho de articulação junto às mulheres. Partidariamente e também nos programas sociais do governo, ela tem esse trabalho junto aos evangélicos. Isso tudo dá a ela uma dimensão de participação no processo político bem razoável. É evidente que seria bem acolhida”, afirma.

A fala não vem do vazio. O PSD governa hoje 6 estados, comanda mais de 890 prefeituras e conta com 48 deputados federais e 14 senadores. Kassab mira 2026 como a eleição em que o partido consolida um protagonismo que já se expressa nas estruturas estaduais e municipais.

Receber Michelle, mesmo que apenas após o pleito, reforçaria a imagem de um PSD capaz de agregar figuras com forte apelo popular, inclusive no campo conservador. Na prática, significaria disputar diretamente com o PL uma base que ajudou a sustentar o bolsonarismo, sobretudo nos templos e nas periferias urbanas.

A crise no PL Mulher abre uma fresta nessa base. Ao se afastar do comando do segmento feminino do partido e atacar o próprio pré-candidato da sigla, Michelle expõe rachaduras que vão além de divergências de bastidor. Kassab enxerga ali um problema objetivo para o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro, sobretudo se o desgaste se prolongar até o dia da votação.

Caiado, Lula e o ceticismo em relação a Flávio Bolsonaro

Ao analisar a disputa presidencial, Kassab deixa claro onde aposta suas fichas. Integrante da chapa pura encabeçada pelo ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, ele descarta a possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer um eventual segundo turno contra Lula. “O futuro presidente será ou o Lula, ou o Caiado”, resume.

A frase reposiciona o PSD no centro do tabuleiro. A legenda não se apresenta apenas como coadjuvante em torno de uma aliança, mas como a estrutura que sustenta uma candidatura competitiva contra o atual presidente. Nesse desenho, a eventual aproximação com Michelle Bolsonaro reforça a ideia de uma alternativa conservadora que não depende do PL nem do clã que domina a sigla.

O movimento também mira o eleitorado que votou em Jair Bolsonaro, mas hoje vê com desconfiança os embates públicos entre membros da família. Kassab tenta ocupar esse espaço com um discurso de moderação e pragmatismo, enquanto pressiona indiretamente o PL a recompor sua unidade interna.

São Paulo expõe contradições das alianças

Em São Paulo, a estratégia do PSD ganha contornos mais complexos. O governador Tarcísio de Freitas, que construiu parte de sua trajetória nacional ao lado de Kassab, apoia a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, o PSD nacional se alinha à chapa Caiado-Kassab para a Presidência.

O presidente do PSD afirma que mantém o apoio a Tarcísio no estado, mesmo com o governador em campo oposto ao seu projeto no plano federal. A convivência entre essas posições divergentes ilustra o grau de elasticidade das alianças partidárias na eleição de 2026.

O desafio para Kassab é administrar a tensão entre a lealdade ao governador paulista e a necessidade de dar coerência à campanha nacional. Esse equilíbrio passa, entre outros fatores, pela forma como o eleitorado paulista reagirá à eventual entrada de Michelle no PSD e à disputa direta com o PL no campo conservador.

Quem ganha e quem perde com a movimentação

Se a aproximação se concretizar após as eleições, o PSD tende a fortalecer sua presença nos segmentos feminino e evangélico, pilares da projeção política de Michelle. O partido, que já exibe capilaridade com seus 6 governos estaduais e centenas de prefeituras, ganharia um rosto emblemático para dialogar com esse público em futuras disputas.

O PL, por outro lado, arrisca perder parte de um eleitorado que se acostumou a ver Michelle como ponte entre o bolsonarismo e as igrejas. A depender da profundidade da crise familiar e do tempo que ela levará para ser superada, a candidatura de Flávio Bolsonaro pode chegar mais frágil ao confronto nacional, com menos capacidade de atrair mulheres evangélicas.

Outros atores políticos que orbitam esse segmento também são afetados. Pastores influentes, lideranças femininas e movimentos conservadores terão de recalibrar apoios se a ex-primeira-dama migrar para o PSD, ampliando o barulho em um campo já fragmentado.

Um tabuleiro em aberto até 2026

A entrevista de Kassab sinaliza mais que um convite à ex-primeira-dama. Indica que o PSD pretende disputar, voto a voto, o espólio político do bolsonarismo, enquanto apresenta Ronaldo Caiado como alternativa competitiva ao presidente Lula.

As próximas etapas dependem de três variáveis centrais: a capacidade da família Bolsonaro de recompor a unidade, o desempenho da chapa Caiado-Kassab nas pesquisas e o cálculo pessoal de Michelle sobre seu futuro político. O movimento do PSD, ao se antecipar e abrir as portas publicamente, pressiona todos os lados a se definir.

Até lá, o partido de Kassab segue aproveitando sua força institucional — seis governos, mais de 890 prefeituras, 48 deputados e 14 senadores — para ampliar espaços no Congresso e nos estados. O gesto em direção a Michelle Bolsonaro mostra que a disputa de 2026 não se limita aos nomes na cabeça de chapa. Também passa por quem consegue seduzir os grupos que decidem eleições em silêncio, longe dos palanques.

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