A cantora Gretchen, 67, relembra quase meio século de carreira e defende a própria autenticidade em entrevista ao programa “Sem censura”, nesta sexta (10), a partir das 16h. Ícone da cultura pop brasileira, ela participa de uma roda de conversa comandada por Cissa Guimarães e fala diretamente a fãs de diferentes gerações.
Carreira longa, imagem em reinvenção
Gretchen chega ao estúdio como uma das poucas artistas que atravessam décadas sem perder espaço na conversa pública. A pauta do programa mistura lembranças da “rainha do rebolado” com a forma como ela se reinventa para dialogar com jovens que muitas vezes a conhecem mais pelos memes do que pelos discos.
O “Sem censura” aposta na força dessa travessia. Ao revisar uma trajetória que começa no fim dos anos 1970 e segue viva em 2026, a entrevista mostra como uma artista se mantém relevante num cenário em que a fama costuma ser rápida e descartável. A presença da cantora reforça o esforço da atração em discutir cultura pop sem descolar de temas sensíveis, como julgamento moral, liberdade de expressão e o peso da opinião pública.
“Jamais conseguiria fazer uma personagem”
Durante a conversa, Gretchen volta a um ponto que atravessa sua história: a recusa em fingir ser outra pessoa para agradar plateias. “Eu jamais conseguiria fazer uma personagem na vida. Nunca me preocupei com o que os outros pensam a meu respeito, desde novinha, quando eu ia de touca até a padaria. Agora, aos 67 anos, é que eu não vou me preocupar mesmo!”, afirma, rindo de si mesma e do olhar alheio.
A frase resume uma postura que muitos admiradores veem como antídoto à censura informal do dia a dia. Sem falar em leis ou tribunais, Gretchen descreve um tipo de controle que se exerce nos comentários, nas redes sociais, nos olhares atravessados na rua. O “não estou nem aí” que ela reivindica funciona como recusa a esse filtro permanente que tenta enquadrar corpos, comportamentos e escolhas pessoais.
Cissa Guimarães costura a fala da convidada com exemplos recentes da cultura brasileira, em que artistas viram alvo de campanhas organizadas, cancelamentos virtuais e pressões econômicas. O programa não se propõe a dar uma resposta definitiva sobre o que é ou não censura, mas abre espaço para que quem assiste reconheça, na trajetória de Gretchen, os conflitos entre o desejo individual e as regras não escritas da sociedade.
Novas gerações e velhas censuras
Gretchen conta como a relação com o público mais jovem se intensifica nos últimos anos, quando seus gestos e expressões viram material de internet. O rosto da cantora aparece em figurinhas, vídeos curtos, reações em conversas virtuais. Ela vira uma espécie de linguagem visual para ironia, empoderamento e deboche.
Esse reaparecimento digital não apaga, porém, a memória de ataques que recebeu ao longo da carreira. Críticas ao corpo, à vida pessoal, ao número de casamentos, às mudanças de cidade e de país sempre a acompanham. Ao revisitar essas passagens, a artista lembra que, por trás da piada fácil, existe uma mulher que aprende a erguer fronteiras contra o que considera invasão e julgamento abusivo.
No estúdio, a conversa desliza para o significado de censura no cotidiano. Em vez de discutir apenas proibições oficiais, o “Sem censura” se detém na ideia de que qualquer tentativa de silenciar opiniões, aparências ou modos de viver pode funcionar como uma forma de controle. Quando Gretchen diz que não interpreta personagens, ela também afirma que não aceita que outros editem a sua própria versão de si mesma.
Impacto cultural e disputas de narrativa
A entrevista repercute além do entretenimento. Ao colocar no centro uma artista que constrói a carreira enfrentando moralismos e rótulos, o programa oferece munição para debates sobre tipos de censura que não passam necessariamente pelo Estado. Há pressões de anunciantes, de grupos religiosos, de setores organizados nas redes, de parte da imprensa e até de famílias que desautorizam certos estilos de vida.
Artistas veteranos veem na fala de Gretchen um modelo de resistência simbólica. Jovens criadores, muitas vezes dependentes de algoritmos e patrocínios, se reconhecem na tensão entre agradar e ser fiel a si. Na prática, a mensagem da cantora incentiva quem vive de arte a negociar menos com o medo de desagradar e mais com a responsabilidade de ser honesto com o próprio trabalho.
O público também encontra, na conversa, pistas para decifrar o que é censura em exemplos concretos. Quando um show é cancelado por pressão política, quando uma obra some de uma exposição após ataques, quando uma opinião é suprimida à força, o debate deixa de ser abstrato. A questão passa a ser quem tem o poder de calar e com base em que valores.
“Sem censura” como palco de liberdade
O programa apresentado por Cissa Guimarães reforça, com a presença de Gretchen, a vocação de palco para conversas francas. Ao acolher uma convidada conhecida por falar sem rodeios, a atração sinaliza que pretende seguir discutindo liberdade de expressão sem eufemismos e sem blindar temas considerados sensíveis.
Produtores apostam que a edição desta sexta-feira amplia a audiência e recoloca o “Sem censura” no radar de quem busca discussões menos engessadas sobre cultura, comportamento e política dos costumes. Nas redes sociais, a expectativa é de que trechos da fala de Gretchen circulem como frases de efeito, mas também como ponto de partida para reflexões sobre censura no Brasil, no sentido amplo do termo.
Os próximos dias devem mostrar se outras figuras públicas se sentirão estimuladas a tratar, em rede nacional, de experiências pessoais com tentativas de silenciamento. A depender da reação do público, o encontro entre Cissa Guimarães e Gretchen pode marcar não apenas a celebração de uma carreira de quase meio século, mas também uma fase em que o debate sobre autenticidade e censura volta ao centro da cultura brasileira.