Peppino di Capri, um dos nomes centrais da música italiana do século 20, morre neste sábado (11) aos 86 anos, na ilha de Capri, no sul da Itália. A família confirma o falecimento pela agência Ansa e nas redes sociais do artista, mas não informa a causa da morte.
Despedida em Capri e silêncio sobre a causa
Nascido Giuseppe Faiella em 27 de julho de 1939, ele morre na mesma ilha que batiza seu nome artístico e sua trajetória. O velório e o sepultamento ocorrem neste domingo (12), na Igreja de Santo Stefano, em Capri, em cerimônia que deve reunir fãs, músicos e autoridades culturais.
As contas oficiais do cantor publicam uma foto em preto e branco, acompanhada de uma única palavra: “Ciao”. O adeus simples amplia o tom de luto que toma a Itália e fãs espalhados pelo mundo. O artista deixa três filhos: Arrigo, conhecido como Igor, Edoardo e Dario.
Di Capri estava afastado dos palcos por problemas de saúde. A decisão da família de não divulgar a causa da morte preserva sua intimidade, mas alimenta especulações em torno dos últimos meses de vida. A confirmação do fim da carreira acontece, assim, em silêncio controlado, depois de mais de seis décadas de exposição pública.
Do piano na guerra ao twist que vende 1 milhão
Filho de um comerciante de discos e neto de um músico de banda local, Peppino cresce cercado por instrumentos, partituras e rádios ligados. A guerra leva soldados aliados para Capri, e o garoto de quatro anos se apresenta em bases militares na ilha, ainda na primeira infância, descobrindo o palco em meio a um mundo em ruínas.
O primeiro passo profissional vem em 1953, com o Duo Caprese, ao lado do baterista Ettore Falconieri, em boates de Capri. A dupla vence o programa de auditório Primo Applauso e ganha um aparelho de televisão, símbolo de um país que começa a se modernizar.
Em 1957, ele cria o grupo Capri Boys, inspirado no rock americano. Pouco depois, o contrato com a gravadora Carish transforma a banda em Peppino di Capri e i Suoi Rockers, que emplaca canções como “Malatia”, “Let Me Cry” e “Nun È Peccato”.
O encontro com o rock atinge o auge em dezembro de 1961, quando ele lança na Itália o twist com “Let’s Twist Again”. A gravação vende 1 milhão de cópias e chega ao topo das paradas italianas. A façanha o coloca como um dos principais responsáveis pela entrada do rock no país, em um momento em que a televisão ainda se firma e a juventude tenta se reconhecer nas pistas de dança.
O prestígio de palco leva Peppino a abrir, em 1965, os shows dos Beatles em sua turnê italiana. O pianista de gestos suaves, jaquetas brilhantes e olhar romântico se encontra com a banda que encarna a revolução pop mundial, e a Itália vê, em poucos dias, o choque entre a tradição melódica e o novo som vindo de Liverpool.
Sanremo, “Champagne” e a canção que não envelhece
Após o fim dos Rockers, Peppino di Capri se firma como solista e se torna presença constante no Festival de Sanremo, principal evento da canção italiana. Participa de 15 edições e vence duas vezes: em 1973, com “Un Grande Amore e Niente Più”, e em 1976, com “Non lo Faccio Più”.
Em 1970, já havia levado o primeiro lugar no Festival da Canção Napolitana com “Me Chiamme Ammore”, reafirmando o vínculo com o dialeto e a tradição de Nápoles. A combinação entre romance e sotaque popular o transforma em figura familiar para o público italiano.
O ano de 1973 marca o nascimento de seu maior hino melancólico. “Champagne”, composta por Mimmo di Francia, Depsa e Sergio Iodice, chega ao mercado sem grande alarde. A recepção é morna, as rádios não a abraçam de imediato. A canção, porém, resiste ao calendário e ganha espaço lentamente, nas noites de bar e nos pianos de hotéis.
Décadas depois, o próprio Peppino resume o destino da música: “Sentia que o melhor ainda estava por vir. Talvez seja justo que aconteça dessa forma para canções que têm um estilo clássico não ligado a uma dança ou a uma moda, algo que nos diverte só por um verão e depois irrita”, diz em 1973, ao comentar o sucesso no festival. “Champagne” acaba se tornando um clássico romântico, onipresente em repertórios de casas noturnas e reuniões familiares na Itália e fora dela.
Outra peça central de seu repertório é “Roberta”, dedicada à primeira esposa, Roberta Stoppa. O casamento mistura vida privada e construção de imagem. Segundo ele relataria em entrevistas, foi Roberta quem sugeriu marcas visuais que o acompanhariam, como as jaquetas com acabamento metálico. A música, por sua vez, ajuda a popularizar o nome no país, a ponto de inspirar batismos de crianças italianas.
Eurovision, Brasil e a memória em Capri
O prestígio de Peppino di Capri atravessa fronteiras. Em 1991, ele representa a Itália no Eurovision com “Comme è Ddoce ‘o Mare”, balada em dialeto napolitano. Fica em 7º lugar, na primeira vez em que o país envia à competição uma canção que não está em italiano padrão. A escolha reforça sua imagem de guardião moderno da tradição napolitana.
O cantor percorre palcos latino-americanos e mantém relação especial com o público brasileiro, com dezenas de apresentações em capitais e cidades turísticas. Músicas como “Champagne” e “Roberta” entram em trilhas sonoras afetivas de gerações que misturam italiano, português e lembranças de festas de família.
Já na velhice, ele vê sua história condensada no cinema. A cinebiografia “Champagne”, lançada no ano passado, acompanha mais de seis décadas de carreira, com o ator Francesco Del Gaudio no papel principal. Em exibição privada para o músico, Del Gaudio relata que Peppino se emociona profundamente nas cenas da infância em plena guerra. “Ele desabou em lágrimas durante as cenas dedicadas à guerra, quando ainda era criança. Aquelas imagens tocaram uma parte muito profunda e dolorosa de sua história pessoal. É assim que me lembro dele, com muita ternura”, conta o ator.
A última aparição pública em palco acontece há cerca de um ano, na Certosa di San Giacomo, em Capri, durante um evento ligado ao cinema. Com a saúde debilitada, ele canta “Champagne” diante de um público que já o trata como memória viva.
Legado, mercado e o futuro de uma voz
A morte de Peppino di Capri encerra uma trajetória que atravessa a reconstrução da Itália do pós-guerra, a explosão do rock, a era da televisão e o streaming. Para o mercado musical, o impacto é imediato: gravadoras já discutem reedições, coletâneas e lançamentos especiais, que tendem a valorizar seu catálogo e ampliar o alcance para uma geração que conhece suas músicas mais pela herança familiar do que pelas paradas atuais.
Na ilha de Capri, autoridades locais estudam homenagens permanentes, como rotas turísticas, placas comemorativas e eventos anuais. A cidade onde ele nasce, canta e morre se consolida como destino de peregrinação afetiva, somando à paisagem de cartão-postal um roteiro musical.
O setor cultural italiano perde um artista que servia de ponte entre tradição e modernidade. Produtores e casas de shows sentem a ausência de uma referência que, mesmo afastada dos palcos, seguia influente na formação de novos músicos ligados à canção romântica. A saída de cena abre espaço para vozes mais jovens, mas também acende debates sobre a preservação do repertório clássico italiano.
O futuro de sua obra passa, agora, pelas mãos dos herdeiros, que devem administrar direitos autorais, negociações de uso de imagem e projetos de memória. Tributos, especiais de TV e documentários já despontam no horizonte. A partir deste fim de semana, cada execução de “Champagne” ou “Roberta” ganha outra camada de sentido: deixa de ser apenas trilha romântica e se torna também lembrança coletiva de um artista que transformou sua pequena ilha em endereço fixo no mapa da música popular.
Quem foi Peppino di Capri?
Peppino di Capri, nascido Giuseppe Faiella em 27 de julho de 1939, foi cantor, pianista e compositor italiano, com mais de seis décadas de carreira e forte influência na canção romântica e no rock na Itália.
Quais são as músicas mais famosas de Peppino di Capri?
Entre as mais conhecidas estão “Champagne” e “Roberta”, além de sucessos como “Malatia”, “Let Me Cry”, “Nun È Peccato” e “Un Grande Amore e Niente Più”.
Quando Peppino di Capri morreu?
Ele morreu neste sábado, 11 de julho de 2026, aos 86 anos, na ilha de Capri, no sul da Itália, onde nasceu.
Qual a importância de Peppino di Capri na música italiana?
Ele é um dos grandes nomes da música popular italiana do século 20, pioneiro na introdução do rock no país, bicampeão do Festival de Sanremo e símbolo da canção romântica.
Peppino di Capri participou de algum evento histórico na música?
Sim. Abriu os shows dos Beatles na turnê italiana de 1965, venceu o Festival de Sanremo em 1973 e 1976 e representou a Itália no Eurovision de 1991 com “Comme è Ddoce ‘o Mare”.
Quem escreveu a música “Champagne” cantada por Peppino di Capri?
“Champagne” foi composta por Mimmo di Francia, Depsa e Sergio Iodice e lançada por Peppino di Capri em 1973, tornando-se seu maior clássico romântico.