A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro investiga, neste sábado (11), um vídeo de 4 de julho que mostra três homens armados com fuzis usando uniformes da corporação em uma rua do Cantagalo, em Campo Grande, zona oeste do Rio. A área é apontada por inquéritos como reduto de milícias e fica a poucos metros de um shopping do bairro, em região de grande circulação de moradores.
Patrulha encenada em reduto de milícia
A gravação, que circula nas redes sociais desde o início da semana, exibe uma cena típica de patrulhamento policial, mas em contexto que acende o alerta das autoridades. Os três homens vestem fardas com inscrições visíveis da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), unidade especializada justamente no combate às milícias.
As marcas aparecem no braço e nas costas dos uniformes. Um dos homens usa balaclava, touca que cobre todo o rosto, exceto os olhos, acessório comum em operações da própria Polícia Civil. O trio caminha armado pela rua, em formação que simula uma ronda oficial, em um território há anos sob influência de grupos paramilitares.
A cena, gravada em 4 de julho de 2026, ganha outro peso à medida que se espalha por aplicativos de mensagem e perfis de bairro. Em uma região em que a linha entre criminosos e agentes públicos já é frágil na percepção do morador, a possibilidade de falsos policiais reforça o clima de medo e desconfiança.
Reação da corporação e foco da apuração
Após a circulação do vídeo, a cúpula da Polícia Civil determinou a abertura imediata de investigação para esclarecer quem são os homens, de onde vêm as fardas e qual a relação do grupo com a milícia que domina o Cantagalo. Procurada, a corporação afirma, em nota, que “investiga o grupo da região e tenta identificar e responsabilizar os envolvidos”.
Investigadores cruzam imagens da rua com mapas de atuação de milicianos em Campo Grande e analisam quadro a quadro o vídeo para tentar reconhecer armamento, postura tática e possíveis detalhes de rosto ou voz, mesmo com o uso da balaclava. O objetivo é determinar se há participação de agentes públicos, ex-policiais ou se se trata de uma encenação com fardamento falsificado.
O controle sobre uniformes oficiais passa a ser um dos pontos centrais da apuração. Delegados querem saber se houve desvio de material de dentro da própria instituição, compra em lojas que comercializam itens de uso restrito ou falsificação em série para abastecer grupos criminosos. O episódio também reacende o debate interno sobre a rastreabilidade de fardas e equipamentos, de coletes a distintivos.
Infiltração, intimidação e dano à confiança
A gravação expõe um problema antigo da segurança pública fluminense: a apropriação de símbolos e aparatos do Estado por organizações criminosas. Em uma área onde milicianos controlam transporte alternativo, cobrança de “taxas de segurança” e até serviços básicos, a presença de homens armados vestidos como policiais funciona como recado silencioso para a vizinhança.
O uniforme da Draco, nesse cenário, deixa de ser apenas roupa de trabalho. Vira ferramenta de intimidação, escudo para deslocamentos armados em plena luz do dia e possível disfarce para ações criminosas. A população, que depende de canais como a Polícia Civil online RJ e o boletim de ocorrência virtual para denunciar abusos, passa a duvidar de quem de fato atende do outro lado da linha ou aparece à porta de casa.
Para os investigadores, o uso da imagem de uma delegacia especializada no combate às milícias, justamente em área dominada por esses grupos, sugere um desafio direto ao Estado. Também fragiliza a credibilidade de operações legítimas na zona oeste, já cercadas de desconfiança por parte dos moradores, que convivem com relatos de prisões seletivas e represálias.
A suspeita de infiltração ou conivência de agentes com milicianos atinge o coração da instituição. A direção da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro tenta mostrar reação rápida, enquanto lida com a pressão de manter concursos, treinar novos agentes, reforçar delegacias de bairro e preservar a imagem de estruturas tradicionais, como a Delegacia Civil Rio de Janeiro e unidades especializadas como a própria Draco.
Histórico de fardas em mãos de criminosos
O caso do Cantagalo não surge do nada. Em 2021, após uma operação que terminou com a morte do miliciano Wellington da Silva Braga, o Ecko, policiais encontraram na casa em que ele estava uma farda completa da Polícia Militar, incluindo botinas. O traje trazia uma tarjeta de identificação com o sobrenome Braga, o que levantou na época suspeitas de uso rotineiro do uniforme por um dos chefes mais temidos da zona oeste.
O episódio de 2021 se soma agora ao vídeo de 2026 e desenha um padrão: grupos paramilitares que se aproximam visualmente do Estado para garantir circulação armada e impor sua lei. Essa mimetização, apontam especialistas, dificulta a vida de quem investiga e de quem vive sob domínio miliciano. Moradores temem denunciar ao ver que a mesma farda associada à proteção aparece ao lado de cobradores de taxa e homens que controlam quem entra ou sai da comunidade.
Em Campo Grande, o uso ostensivo de símbolos policiais por criminosos pode ainda atrapalhar o trabalho de unidades que dependem da confiança da população, como distritais de plantão e canais de atendimento remoto, a exemplo do boletim online da Polícia Civil RJ ou serviços internos como o Policia Civil Intrapol. A fronteira confusa entre verdadeiro e falso agente alimenta o silêncio e reforça a lógica de controle territorial pela força.
Pressão por controle e possíveis mudanças
Enquanto investigadores buscam identificar os três homens do vídeo, cresce a cobrança por medidas concretas. Entre as possibilidades discutidas estão reforço no controle de estoque de uniformes, chips de rastreamento em peças de uso restrito e mudanças em regulamentos internos para punir com mais rigor o desvio de fardas e equipamentos.
A cúpula da corporação também avalia intensificar operações no Cantagalo e em outros pontos da zona oeste, com equipes identificadas e protocolos claros de abordagem, na tentativa de diferenciar o policial genuíno do falso na percepção do morador. A estratégia inclui aproximação com comerciantes e lideranças locais para incentivar denúncias, com garantia de sigilo.
Se a investigação comprovar participação de agentes públicos, a Polícia Civil promete responsabilização administrativa e criminal. As consequências podem ir de expulsão à prisão, com potencial de abrir mais uma crise institucional em um momento de disputa por orçamento, vagas em concurso e recomposição de quadros.
O vídeo de 4 de julho, divulgado poucos dias antes desta reportagem, em 11 de julho de 2026, às 21h04, transforma o Cantagalo em mais um palco do embate entre milícia e Estado. A forma como a corporação responde, nas próximas semanas, dirá se a imagem do policial armado e fardado, ao entrar em uma rua da zona oeste, volta a representar proteção ou segue sendo motivo de dúvida para quem vive sob a mira das milícias.
O que o morador deve fazer se desconfiar de falsos policiais?
Especialistas recomendam evitar confronto direto, registrar detalhes possíveis, buscar abrigo seguro e, assim que puder, acionar canais oficiais, como o telefone da Polícia Civil RJ ou o boletim de ocorrência online, informando horário, local e características do grupo.
Uniforme oficial pode ser comprado livremente?
Peças idênticas ou muito parecidas com fardas oficiais não deveriam estar à venda para o público em geral. A investigação atual mira justamente o caminho dessas roupas: desvio interno, falsificação ou comércio irregular.