Morte de Martha Lillard encerra era do pulmão de aço nos EUA; veja as imagens

A despedida de Martha Lillard marca o fim do uso do pulmão de aço e reforça a importância da vacinação contra a poliomielite.
Redação NC News
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No fim de junho deste ano, morreu aos 78 anos Martha Lillard, a última americana a viver dependente de um pulmão de aço por sequelas da poliomielite. A certidão de óbito aponta “insuficiência respiratória crônica associada à síndrome pós-pólio” como causa, agravada por complicações de covid longa.

Fim de uma era na medicina respiratória

A morte de Martha encerrou, de forma simbólica, o uso de um dos equipamentos mais marcantes das grandes epidemias de pólio do século passado nos Estados Unidos. O pulmão de aço, uma câmara metálica que substitui o trabalho dos músculos respiratórios, desaparece da rotina hospitalar com o avanço das vacinas e dos ventiladores mecânicos modernos.

Ao mesmo tempo, a história de Martha funciona como lembrete concreto de um tempo em que o poliovírus paralisava crianças em massa e lotava enfermarias. Mostra o que está em jogo quando a cobertura vacinal cai e doenças antigas voltam a ameaçar populações antes protegidas.

Da infância saudável ao pulmão de aço

Em 1953, aos cinco anos, Martha contraiu o poliovírus em Oklahoma. A infecção atingiu os músculos responsáveis pela respiração e provocou paralisia parcial. “Ela contraiu o poliovírus aos cinco anos e teve os músculos responsáveis pela respiração afetados”, resume um relato familiar.

Depois de meses internada, a menina passou a depender do pulmão de aço. O aparelho envolvia o corpo até o pescoço e alternava a pressão interna para expandir e contrair os pulmões, permitindo a entrada e saída de ar quando o corpo já não dava conta sozinho. A partir dali, a máquina deixou de ser apenas um equipamento médico e passou a definir o espaço físico e o ritmo da vida de Martha por mais de sete décadas.

Foto: Internet

No auge das epidemias, câmaras semelhantes se alinhavam em fileiras em hospitais norte-americanos. Com a introdução da vacina contra a pólio em meados da década de 1950, esses cenários começaram a desaparecer. Martha permaneceu como exceção, tornando-se uma das últimas testemunhas vivas de uma era que a medicina deixou para trás.

Adaptações para estudar, viajar e criar

A família reorganizou a casa e a rotina para que a filha pudesse seguir estudando. Martha conseguiu passar alguns períodos fora da câmara, mas retornava a ela para descansar e dormir. Frequentava a escola presencialmente por poucas horas por dia e completava as tarefas em casa.

No ensino médio, um sistema de interfone ligava a residência às salas de aula em Oklahoma. Ela acompanhava as explicações, participava das conversas e fazia perguntas a professores e colegas sem sair do quarto. O recurso, rudimentar para os padrões atuais, garantiu a continuidade da formação e algum senso de pertencimento.

Foto: Internet

A família adaptou um trailer para acomodar o pulmão de aço, rebocado pelo carro. Antes de cada deslocamento, o pai telefonava para hotéis para verificar se havia espaço suficiente para a câmara metálica. As limitações não eliminaram o desejo de circular; apenas transformaram cada saída em uma operação cuidadosamente planejada.

Dentro e fora do equipamento, Martha desenvolveu uma veia artística. “Martha também cultivava uma veia artística: escrevia poemas, compunha músicas e chegou a redigir o próprio obituário”, contou a irmã, Beverly McVey. A escrita virou uma forma de expressão e de controle sobre a própria narrativa em meio a tantas imposições físicas.

Amores, ativismo e a covid longa

Já adulta, Martha encontrou outro campo de atuação no ativismo animal. Engajou-se em resgates, especialmente de cães da raça beagle, e utilizou as redes sociais para impulsionar campanhas. A fragilidade respiratória não a impediu de se dedicar às causas que considerava urgentes.

Pela internet, conheceu o egípcio Baha Salh. O relacionamento à distância durou mais de 20 anos, até que ele conseguiu visto para viajar aos Estados Unidos. Eles se casaram em fevereiro deste ano, após mais de duas décadas de relacionamento, quando Martha já enfrentava uma saúde bastante fragilizada.

Foto: Internet

Com o envelhecimento, surgiram os efeitos tardios da infecção. A síndrome pós-pólio, quadro que pode aparecer décadas depois da doença, reduziu ainda mais sua força muscular e tornou qualquer esforço exaustivo.

A pandemia de covid-19 agravou esse cenário. Martha contraiu o vírus duas vezes, e as infecções comprometeram de forma definitiva sua capacidade respiratória. Segundo a família, as sequelas da covid longa também contribuíram para a piora de seu estado de saúde.

Nos últimos anos de vida, ela passou quase todo o tempo dentro do pulmão de aço. A família enfrentou outro desafio: manter em funcionamento uma tecnologia praticamente extinta. Faltavam peças de reposição e técnicos especializados. Cada ruído estranho da máquina era motivo de preocupação.

Poliomielite, vacinas e o que ficou como alerta

A trajetória de Martha iluminou o impacto devastador da poliomielite antes da imunização em massa. A doença, causada pelo poliovírus, ataca o sistema nervoso e pode provocar paralisia, principalmente em crianças menores de cinco anos. Em surtos do século 20, milhares perderam a capacidade de andar ou respirar sem auxílio.

A vacinação transformou esse cenário. Países que mantêm altas taxas de imunização praticamente não registram casos novos. Sobreviventes com sequelas graves, como Martha, tornaram-se cada vez mais raros.

Mesmo assim, em diversas regiões, a queda recente na cobertura vacinal continua preocupando especialistas, que alertam para o risco de reaparecimento da doença e de novos casos de paralisia.

O caso da americana também chamou atenção para outro desafio: o cuidado de longo prazo com pessoas que carregam consequências de infecções antigas. Síndrome pós-pólio, insuficiências respiratórias crônicas e, mais recentemente, quadros de covid longa exigem redes de reabilitação, suporte domiciliar e equipes treinadas. Sem esse suporte, histórias de resiliência podem se transformar em narrativas de abandono.

Legado de uma vida entre máquinas e poemas

Martha Lillard atravessa mais de sete décadas entre metal, motores e versos. A morte dela encerra o capítulo do pulmão de aço nos Estados Unidos, mas amplia o debate sobre como sociedades lidam com as marcas duradouras de epidemias. Mostra que o impacto de uma doença infecciosa não termina quando a curva de casos cai.

Os próximos anos devem aprofundar discussões sobre políticas públicas voltadas a sobreviventes da pólio e a pacientes com sequelas neuromusculares e respiratórias. Pesquisas sobre reabilitação, tecnologias de suporte à respiração e acompanhamento de covid longa ganham, com histórias como a de Martha, rosto e urgência. Ao fundo, permanece o alerta silencioso do cilindro metálico que a manteve viva: prevenir sempre custa menos do que conviver, por toda uma vida, com as consequências de uma doença evitável.

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